UMA CONVERSA COM SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

ENTREVISTA VOLUME 5 NÚMERO 1


A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen foi entrevistada por Maria Maia para o Jornal de Poesia de Lisboa, em 10 de maio de 2000, quatro anos antes de seu falecimento. Confiram aqui, nessa breve recuperação documental, alguns momentos dessa entrevista.


Maria: Quando a senhora começou a escrever?

Sophia: Quando comecei a escrever eu não sabia escrever. Eu tinha uma pena enorme (rindo). Eu pedi a minha mãe papel e caneta. Escrevia uma grafia que eu tinha imaginado, imagine você... Uns desenhos de umas letras inventadas por mim. Eu contava em voz alta.


Maria: Muito criança ainda, antes de ser alfabetizada?

Sophia: É. Foi. E depois aprendi a ler e a escrever. Comecei a escrever cedo, sim, 14 anos, 12 anos. Primeiro mal, depois melhor, não é?


Maria: E publicou com uns vinte e poucos anos.

Sophia: 23 ou 24, já não lembro mais. Primeiro livro, sim. (pausa. Retoma decidida). Não, publiquei antes. Em revistas e coisas assim. Depois publiquei um livro. Creio que aos 24 anos.


Maria: Isso em 44. O livro Poesias, não é?

Sophia: Poesia. No singular.


Maria: Poesia. É. Depois então em 64 ganhou um prêmio importante aqui em Portugal. Sophia: Um prêmio importante? Sim, foi no ano passado.


Maria: O Prêmio Camões, no ano passado. Mas em 1964 um livro de poesia da senhora já tinha sido premiado.

Sophia: Sim.


Maria: E sua relação com a poesia brasileira, conheceu poetas brasileiros? Sophia: Bem, eu acho que tive uma relação muito profunda com o João Cabral e com as coisas que ele procurava (pausa ). Eu não pensava muito nisso. Nuca tive muita teoria. Fui sempre uma pessoa muito antiteórica. Mas encontrei muita coisa. Quando encontrei João Cabral ele disse-me assim: eu tenho muita admiração por si...que é que ele disse? (pausa) como é que foi que ele disse? (procurando na memória) ... porque você é uma poeta que usa muito substantivo concreto. (ri). Eu pensei: é? Mas é verdade, não é? Nos encontramos em Sevilha. Nós fomos com uns amigos brasileiros que iam lá convidados pelo João, para a casa dele. E o João disse: por que vocês não vêm e ficam no hotel? E fomos e ficamos num hotel lindo que o João descobriu. Era lindo, era um antigo palácio de uma família sevilhana. Já não existe, sabe? ( dando um trago no cigarro). Já destruíram ( jogando as cinzas no cinzeiro). O turismo é uma desgraça em toda parte do mundo, não é?


Maria: Vai acabando tudo, nivelando, pasteurizando... O encontro com João Cabral foi quando ele era cônsul em Barcelona, não? E a partir daí a senhora entrou em contato com a poesia brasileira?

Sophia: Não. Eu já tinha lido o Manuel Bandeira. Já tinha lido vários poetas brasileiros. É que nesse tempo havia uma relação muito mais próxima, sabe? Porque o mundo não estava tão confuso como agora. Sai tanto livro. Sai tanta confusão. Agora um poeta se projeta, fala-se de sua obra, não é porque escreveu livros bons. É porque tem uma boa pessoa encarregada de sua propaganda.


Maria: De preparação na mídia, nos jornais. É verdade.

Sophia: Naquele tempo não. Vinha um amigo que dizia assim: - "Li ontem um poeta brasileiro extraordinário". Ele não tinha nada a ver com propaganda alguma. Mas a gente, se queria, lia o livro.


Maria: E a senhora considera importante esta relação entre a poesia portuguesa e brasileira? Sophia: Bem, eu considero importante a relação entre toda a poesia. A portuguesa com a brasileira é importante, como é importante a relação com a poesia africana. A poesia moçambicana é ótima, não é? Porque são países que falam português. Quer dizer, tem uma experiência de linguagem falada, de uma língua só.

(...)


Maria: E o sentido do trágico? A sua poesia é trágica, no sentido grego... A senhora se considera da mesma tradição de Fernando Pessoa?

Sophia: Não acho muito parecido com a tradição do Pessoa não. (pausa longa) O pessoa é um homem que para escrever renunciou a viver. Isso não se parece comigo nem com o João Cabral, não é?


Maria: A sua é uma poesia de quem vive, não é?

Sophia: Sim. É uma poesia de quem vive.


Maria: A senhora tem um artigo, um ensaio, sobre a Cecília Meirelles.

Sophia: Tenho. Foi o primeiro artigo que fiz na minha vida, não é mesmo? Porque eu não gostava nada de artigos. Mesmo hoje em dia não gosto nada. Mas naquela época eu gostava menos, sabe?


Maria: E por que escreveu sobre a Cecília?

Sophia: Porque havia uma homenagem à Cecília e me convidaram para ir. Então eu fiz o artigo. Correu bem. Houve muita palma na minha intervenção. Mas a Cecília não foi, você sabe? Então aconteceu uma coisa, uma história engraçada. Ela não foi porque tinha uma amiga - agora se pode dizer porque a Cecília já morreu e a amiga também. E a amiga dela era uma mulher feia, fazia muita intriga. E disse à Cecília que éramos comunistas. A Cecília teve medo. Tratou a sério e não veio. Eu fui e também li os poemas dela. Depois ela ficou um bocado escandalizada, não é? Então a Cecília no Natal mandou uma grande caixa com frutos de natal, sabe? Frutas secas, nozes, essas coisas de natal. Você sabe que todos os natais eu ponho na árvore de natal ainda hoje? Mas eu nunca agradeci à Cecília.


Maria: Foi um equívoco que aconteceu entre vocês. Lamentável.

Sophia: (levantando-se para pegar o segundo cigarro). Foi pateta. Mas é melhor perdoar, não? (longo silêncio. Sophia levanta-se, pega a carteira de cigarros na mesa em frente ao sofá e leva para o seu escritório, contíguo à sala onde estamos sentadas). Vou guardar para não fumar mais. Fumo muito pouco. Eu tenho muito pouco cigarro. É uma coisa terrível, porque não se vendem cá estes cigarros. Então quando vem um amigo, me traz.

(...)


Maria: A fonte de sua poesia é Portugal, o mundo ou é interior?

Sophia: Daí eu não sei a diferença entre interior e exterior. Eu vejo com os olhos, ouço com os ouvidos, como com os dentes, sinto com o nariz. Quanto a minha poesia, é Portugal, é interior e é exterior. Tenho uma parte intelectual, evidentemente. Tem uma parte de cultura, tem uma parte intelectual. Mas tem uma parte vivida, não é?

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