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Poesia norte-americana (1922) por Lucas Zapparoli

UMA FAROFA



Celebrando a Semana de Arte Moderna de 1922, nada melhor que abarcar outros expoentes da poesia, possibilitando um maior panorama da cena poética desse período.


A presente obra trata-se de uma antologia de poemas em sua maior parte até então inéditos, feita pelos próprios autores, os maiores nomes do Modernismo norte-americano, muitos deles praticamente desconhecidos em língua portuguesa, por escassez de traduções.


Os poemas são de alto nível, compostos por jovens poetas, os quais se tornariam os nomes mais importantes da literatura Modernista dos EUA.


Encontram-se aqui Amy Lowell, a principal representante do Imagismo nessa época; Robert Frost, talvez o mais importante poeta dos EUA do século XX, único a vencer quatro Prêmios Pulitzer; Carl Sandburg, também vencedor de Pulitzer, outro grande nome da poesia de seu país; Vachel Lindsay, considerado o fundador da poesia cantada; James Oppenheim, grande poeta e famoso editor; Alfred Kreymborg, importante poeta e editor; Sara Teasdale, a primeira pessoa a vencer um Prêmio Pulitzer de poesia; Louis Untermeyer, outro grande nome da poesia praticamente desconhecido em língua portuguesa; John Gould Fletcher, expoente do Imagismo, vencedor de um Prêmio Pulitzer de poesia; Jean Starr Untermeyer, outra escritora a receber, finalmente, voz em língua portuguesa; HD (Hilda Doolittle), a talentosa fundadora do Imagismo, merecidamente traduzida ao idioma pátrio; Conrad Akien, importantíssimo poeta dos EUA praticamente desconhecido em língua portuguesa; e Edna St Vincent Millay, tão adorada por Manuel Bandeira, mas cujas obras, de alto quilate, não lograram praticamente nenhuma tradução em língua portuguesa, fora essa aqui.




AMY LOWELL

Fotografia de Amy Lowell (1874-1925) em Sevenels por Bachrach



LILASES


Lilases,

Falso azul,

Branco,

Roxo,

Cor de lilás,

Suas fartas lufadas de flores

Estão por toda parte nesta minha Nova Inglaterra.

Entre suas folhas em forma de coração

Papa-figos saltitam como aves de caixa de música e cantam

Suas poucas tolas canções suaves;

Na curvatura de seus ramos

Os olhos brilhantes dos pardais sentam-se em ovinhos pintados

Inquietamente atentos à luz e sombra

De todas as primaveras.

Lilases nos pátios

Trocando quietas ideias com a lua crescente;

Lilases observando a casa abandonada

Fixando-se ao lado do capim de uma estrada velha;

Lilases, que o vento bate, vacilam sob um ataque desigual de floração

Sobre um porão cavado na colina.

Vocês estão por toda parte.

Vocês estavam por toda parte.

Vocês bateram a janela quando o pregador pregou seu sermão,

E foram pela estrada junto ao menino indo à escola,

Ficaram pelas cercas do pasto dando leite do bom às vacas,

Convenceram a dona de casa que sua tigela era de prata

E seu marido uma imagem de ouro puro.

Vocês ostentaram a fragrância de suas flores

Pelas vastas portas das alfândegas –

Vocês, e o sândalo, e o chá,

Abastecendo os narizes dos funcionários das tabuletas

Quando um navio vinha da China.

Vocês os chamam: “Caras de pena de ganso, de pena de ganso,

Maio é um mês para esvoaçar”,

Até que eles se retorçam sobre suas altas poupanças

E escrevam poesia nos papéis de carta atrás do livro contábil escorado.

Paradoxais funcionários da Nova Inglaterra,

Escrevendo inventários, lendo “O Cântico dos Cânticos” à noite,

Tantos versos antes de ir deitar,

Porque eram da Bíblia.

Os mortos alimentam vocês

Entre as pedras inclinadas dos cemitérios.

Fantasmas pálidos que plantaram vocês

Chegam no período noturno

E deixam seus cabelos finos florir pelos galhos agrupados.

Vocês são do verde mar,

E das colinas rochosas que vão longe.

São de ruas sombreadas de olmos com lojinhas onde se vendem pipas e bolinhas de gude,

Dos grandes parques onde todos andam e ninguém se sente em casa.

Vocês cobrem os pontos cegos das estufas

E inclinam-se no topo para dar só um oi pelo vidro

A suas amigas, as videiras, lá dentro.


Lilases,

Falso azul,

Branco,

Roxo,

Cor de lilás,

Vocês esqueceram sua origem oriental,

As mulheres de véu com olhos como panteras,

Os turbantes inchados e agressivos de paxás cheios de joias.

Agora vocês são uma flor muito decente,

Uma flor reticente,

Uma flor cândida, curiosamente definida,

Parada junto a soleiras limpas,

Amigável ao gato doméstico e a um par de óculos,

Tirando poesia de uma lasca de luar

E de centena ou duas de flores ávidas.


Maine conhece vocês,

Teve por anos e anos;

New Hampshire conhece vocês,

E Massachusetts

E Vermont.

Cape Cod inicia com vocês pelas praias a Rhode Island;

Connecticut leva vocês do rio ao mar.

Vocês são mais brilhantes que maçãs,

Mais doces que tulipas,

São o grande dilúvio de nossas almas

Irrompendo sobre folhas com as formas dos nossos corações,

Vocês são o cheiro de todos os verões,

O amor das esposas e crianças,

A lembrança dos jardins da infância,

Vocês são os edifícios do governo e dos cartuxos

E o passo do pé familiar pra lá e pra cá na estrada conhecida.

Maio é lilás aqui na Nova Inglaterra,

Maio é um tordo cantando “vem Sol!” na ponta do freixo,

Maio são nuvens brancas atrás de pinheiros

Esbaforidos e marchando sobre um céu azul.

Maio é um verde sem igual,

Maio é muito sol por pequenas folhas,

Maio é terra macia,

E macieiras em flor,

E janelas abertas ao vento sul.

Maio é uma brisa leve cheia de lilás

Do Canadá a Narragansett Bay.


Lilases,

Falso azul,

Branco,

Roxo,

Cor de lilás,

Folhas em coração de lilás sobre toda Nova Inglaterra,

Raízes de lilás sob todo o solo da Nova Inglaterra,

Lilás em mim porque sou Nova Inglaterra,

Porque minhas raízes estão nela,

Porque minhas folhas são dela,

Porque minhas flores são para ela,

Porque ela é minha pátria

E eu falo dela a ela

E canto dela com minha própria voz

Já que certamente é minha.



LILACS


Lilacs,

False blue,

White,

Purple,

Color of lilac,

Your great puffs of flowers

Are everywhere in this my New England.

Among your heart-shaped leaves

Orange orioles hop like music-box birds and sing

Their little weak soft songs;

In the crooks of your branches

The bright eyes of song sparrows sitting on spotted eggs

Peer restlessly through the light and shadow

Of all Springs.

Lilacs in dooryards

Holding quiet conversations with an early moon;

Lilacs watching a deserted house

Settling sideways into the grass of an old road;

Lilacs, wind-beaten, staggering under a lopsided shock of bloom

Above a cellar dug into a hill.

You are everywhere.

You were everywhere.

You tapped the window when the preacher preached his sermon,

And ran along the road beside the boy going to school.

You stood by pasture-bars to give the cows good milking,

You persuaded the housewife that her dish-pan was of silver

And her husband an image of pure gold.

You flaunted the fragrance of your blossoms

Through the wide doors of Custom Houses –

You, and sandal-wood, and tea,

Charging the noses of quill-driving clerks

When a ship was in from China.

You called to them: "Goose-quill men, goose-quill men,

May is a month for flitting,"

Until they writhed on their high stools

And wrote poetry on their letter-sheets behind the propped-up ledgers.

Paradoxical New England clerks,

Writing inventories in ledgers, reading the "Song of Solomon" at night,

So many verses before bedtime,

Because it was the Bible.

The dead fed you

Amid the slant stones of graveyards.

Pale ghosts who planted you

Came in the night time

And let their thin hair blow through your clustered stems.

You are of the green sea,

And of the stone hills which reach a long distance.

You are of elm-shaded streets with little shops where they sell kites and marbles,

You are of great parks where every one walks and nobody is at home.

You cover the blind sides of greenhouses

And lean over the top to say a hurry-word through the glass

To your friends, the grapes, inside.


Lilacs,

False blue,

White,

Purple,

Color of lilac,

You have forgotten your Eastern origin,

The veiled women with eyes like panthers,

The swollen, aggressive turbans of jeweled Pashas.

Now you are a very decent flower,

A reticent flower,

A curiously clear-cut, candid flower,

Standing beside clean doorways,

Friendly to a house-cat and a pair of spectacles,

Making poetry out of a bit of moonlight

And a hundred or two sharp blossoms.


Maine knows you,

Has for years and years;

New Hampshire knows you,

And Massachusetts

And Vermont.

Cape Cod starts you along the beaches to Rhode Island;

Connecticut takes you from a river to the sea.

You are brighter than apples,

Sweeter than tulips,

You are the great flood of our souls

Bursting above the leaf-shapes of our hearts,

You are the smell of all Summers,

The love of wives and children,

The recollection of the gardens of little children,

You are State Houses and Charters

And the familiar treading of the foot to and fro on a road it knows.

May is lilac here in New England,

May is a thrush singing "Sun up!" on a tip-top ash-tree,

May is white clouds behind pine-trees

Puffed out and marching upon a blue sky.

May is a green as no other,

May is much sun through small leaves,

May is soft earth,

And apple-blossoms,

And windows open to a South wind.

May is a full light wind of lilac

From Canada to Narragansett Bay.


Lilacs,

False blue,

White,

Purple,

Color of lilac,

Heart-leaves of lilac all over New England,

Roots of lilac under all the soil of New England,

Lilac in me because I am New England,

Because my roots are in it,

Because my leaves are of it,

Because my flowers are for it,

Because it is my country

And I speak to it of itself

And sing of it with my own voice

Since certainly it is mine.



Amy Lowell foi um dos nomes mais importantes do Imagismo, movimento literário norte-americano. Nascida em 1874, em uma família de intelectuais e cientistas, começou a publicar livros de poesia em 1912, aderindo ao Imagismo e tornando-se uma de suas maiores difusoras quando foi viver em Londres, depois de 1915. Diziam, entretanto, que tinha tendências lésbicas. Morreu em 1925 de uma hemorragia cerebral e, no ano seguinte, recebeu o Prêmio Pulitzer póstumo por sua obra What’s O’ Clock, que contava com o famoso poema “Lilacs”, o qual havia publicado anteriormente na Antologia de 1922, aqui celebrada por seu centenário.


 

ROBERT FROST


Robert Frost por Clara Sipprell, impressão em gelatina prateada, 1955. National Portrait Gallery, Smithsonian Institution.



DESÍGNIO


Vi a aranha com covinha, alva e gorda, em

Alva prunella, com uma mariposa assim

Branca feito um rígido cetim –

Personagens de morte e praga vêm

Mesclados pra iniciar a manhã bem,

Como ingrediente ao caldo das bruxas sim –

Aranha floco de neve, flor espuma e enfim

Asas levadas como uma pipa também.


O que a ver com ser branca essa flor tem,

A prunella azul, rasteira e ingênua?

Quem subiu a prima aranha até aí, quem

Guiou pra lá à noite a alva mariposa, hein?

Só o horrendo desígnio da treva acena? –

Se desígnio rege coisa tão pequena.



DESIGN


I found a dimpled spider, fat and white,

On a white heal-all, holding up a moth

Like a white piece of rigid satin cloth –

Assorted characters of death and blight

Mixed ready to begin the morning right,

Like the ingredients of a witches' broth--

A snow-drop spider, a flower like froth,

And dead wings carried like a paper kite.


What had that flower to do with being white,

The wayside blue and innocent heal-all?

What brought the kindred spider to that height,

Then steered the white moth thither in the night?

What but design of darkness to appal? –

If design govern in a thing so small.



Robert Frost foi um dos mais famosos poetas norte-americanos, único a vencer quatro Prêmios Pulitzer por sua poesia. Nascido em 1874, em San Francisco, seus poemas mais lembrados tratam da vida rural norte-americana. Faleceu em 1963 e sua lista de obras é extensa. O poema mais conhecido de Frost, Fire and Ice, saiu publicado também na Antologia de 1922, cujo centenário se celebra. Traduções e versões desse poema apareceram aqui na Zunái, volume 5, número 2, em 2020.


 

CARL SANDBURG

Carl Sandburg. Coleção Corporativa General Electric Heather James Fine Art.



FOLHA DE ANÊMONA


Esta flor é reproduzida

fora dos velhos ventos, fora dos

velhos tempos.


O vento as reproduz, ele

deve tê-las, de novo e

de novo.


Oh, anêmonas tão frescas,

Oh, folhas lindas, aqui

agora de novo.


As cúpulas acima

despedaçam-se.

As pedras embaixo

despedaçam-se.

Chuva e gelo

destroçam as obras.

O vento continua, as anêmonas

continuam, as folhas duram,

O vento jovem e forte faz

elas durarem mais que pedras.



WINDFLOWER LEAF


This flower is repeated

out of old winds, out of

old times.


The wind repeats these, it

must have these, over and

over again.


Oh, windflowers so fresh,

Oh, beautiful leaves, here

now again.


The domes over

fall to pieces.

The stones under

fall to pieces.

Rain and ice

wreck the works.

The wind keeps, the windflowers

keep, the leaves last,

The wind young and strong lets

these last longer than stones.



Carl Sandburg venceu três Prêmios Pulitzer, dois por sua poesia, outro pela biografia de Abraham Lincoln. Nascido em 1878, foi poeta, biógrafo, jornalista e editor. Teve uma vida agitada, alistando-se no exército quando era jovem, casando-se em 1908, tendo então três filhas, para as quais escreveria histórias infantis pelas quais também seria lembrado. Viveu em Illinois, Michigan e Carolina do Norte. Morreu de causas naturais em 1967, e foi cremado. Por vezes cantava e compunha música folk; chegou ainda a participar de obras cinematográficas.


 

VACHEL LINDSAY



SEI TUDO ISSO QUANDO A RABECA CIGANA PLANGE


Oh, ciganos, altivos, teimosos, perversos,

Dizendo: “Lemos a fortuna das nações,

E curtimos na palma profunda do mundo.

A linha da cabeça é a do comércio.

A linha do amor é onde a gente acampa.

A linha da vida é a via onde se vaga.

O monte Vênus, Júpiter, e os outros

E as pontas dos dedos se juntam em volta

E mantêm o amplo céu de Romani”.


Oh, ciganos, altivos, teimosos, perversos,

Dizendo: “Vamos trocar cavalo até o fim,

Consertar panela e chaleira da humanidade,

E emprestar nossos filhos aos circos em voga,

Às pistas de corrida, ou ao mundo letrado.

Mas o Brahma da Índia aguarda em seus seios.

Vão voltar com risos largos ciganos,

E prosear Romani, mexer seus cachos

E abraçar os bebês mais sujos do camping.

Vão voltar ao pilar de fumo em movimento,

O dente mais branco, o riso mais alegre,

Os cabelos mais pretos das tribos dos homens.

Que arapuca há a tais gatos? O Romani

Cruzou tais suaves palmas com chumbo ou ouro,

Persuadindo em sol e chuva, em anos árduos,

Já toda moeda parece igual. Palma é tudo.

Nosso baralho seboso é ainda o livro

Mais lido. O coração de bibliotecário,

Dizemos aos que amam o que querem saber.

Assim, da grande biblioteca de Chicago,

Das famosas orquestras de Chicago,

Do arranha-céu, do prédio do Belas-Artes,

Nossos filhos virão com rabeca e ala(il)úde,

Vestidos como antes, de peru e zebras,

Como lírios-tigre e camaleões,

Vão ao oeste com a gente, à Califórnia,

Lendo a sorte do mundo sangrento,

Beijando o pôr do sol, antes que o dia acabe”.


Oh, ciganos, altivos, teimosos, perversos,

Tolhendo as mentes e bolsos da humanidade,

Vocês vão sentido oeste meia hora ainda.

Virarão para o leste daí a pouco.

Voltarão, como se volta a Kentucky,

Terra dos seus pais, chão sangrento e escuro.

Quando todo judeu voltar para a Síria,

Quando os cucas chineses voltarem a Cantão, China,

Quando os fotógrafos japoneses voltarem

Com suas câmeras pretas para Tókio,

E os patriotas irlandeses a Donegal,

E contadores escoceses a Edinburgo,

Vocês voltarão à Índia, de onde vieram.

Quando alcançarem as fronteiras de sua busca,

Saudosos, enfim, por mil vias errantes,

Rodando as maravilhas sinuosas,

À pé e a cavalo farão o grande retorno!

Tocando em transatlânticos, e a dança

Varre o convés, sua tribo parda irá!

Tais navios a leste ouvirão seu longo adeus

Na rabeca, piccolo, e flauta e tamborim.

Sei tudo isso, quando a rabeca cigana plange.


Naquela hora de nostalgia, eu mesmo

Mudarei, direi adeus a Illinois,

Ao velho Kentucky e a Virgínia,

E vou com eles à Índia, de onde vieram.

Pois eles ouviram um canto do Ganges,

E pios de papa-figos,–das grutas do templo,–

E as mais velhas e humildes vilas da Bengala.

Eles cheiram a fumaça da ceia de Amritsar.

Macacos verdes guincham em sânscrito a suas almas

De imponentes bambus da ardente Madras.

Lembram cidades pra alívio de seus olhos febris,

E os faz ficar e meditar pra sempre,

Domos de assombros, pra curar a mente.

Sei tudo isso, quando a rabeca cigana plange.


Que música será mesclada ao vento

Quando os ciganos, indo à velha terra,

Trazem canções do mundo à casa de Brahma?

Passando hindus, serpenteando florestas tóxicas,

Tocando flautas doces às moças do templo,

Enchendo estradas de furtos quais magpies,

Que bronze da minha Chicago empilharão,

Que gemas de Walla Walla, Omaha,

Ajuntarão à Árvore de Bodhi, e rirão?

Vão dançar junto aos templos como bem quiserem,

Embora eles não entrem, nem adorem,

Olhando os tetos, como poeta a lírio,

Olhando as torres, como garotos a vinhas,

Que saltam aos topos de árvores pelo ar tonto.

Sei tudo isso, quando a rabeca cigana plange.


E com os ciganos haverá um rei

E mil facínoras a seu estilo,

Com seus trapos tingidos em sangue de rosas,

Chapiscada com sangue de anjos, de demônios.

E ele os comandará com voz tremenda.

E com chicote rubro baterá na esposa.

Ele será mau na praia sagrada,

E vai brandir cruéis esporas contra as rochas,

E tremer Calcutá com trompas de circo.

Vai matar brâmanes, em nome de Kali,

E agradar vis, e bêbado do sangue da terra.

Sei tudo isso, quando a rabeca cigana plange.


Oh, ladrões suados, cínicos larápios,

Que ainda ostentarão orgulho até o fim,

Quebrando as leis de casta do mundo,

Logrando enfim sua meta hindu quebrar

As leis de casta da velha Índia, e bradar:

“Abaixo os brâmanes, Romani reina”.


Quando ciganas leem fundo a minha mão

Sempre elas falam com ternura e dizem

Que sou desses mal-fadados a desposar

A princesa em conto de fadas da floresta.

Pois há de haver a princesa cigana,

Minha doce Julieta, a brilhar nesse clã.

E eu cantaria da sua beleza agora.

E lutaria com facas com o cigano

Que ousasse levar seu coração selvagem.

E eu vou beijá-la nas cachoeiras,

E no fim do arco-íris, e no incenso

Que ondula aos pés dos deuses dormentes,

Cantar com ela em canaviais e arrozais,

Em Romani, eterno Romani.

Vamos semear ervas secretas, plantar rosas,

E tatear por palácios escuros, sinuosos,

Estabular nossos pôneis no Taj Mahal,

E nós mesmos vamos dormir ao ar livre.

Em seu estranho e belo olho de moinho aguardar

As dobras e desdobramentos das estradas,

Da Índia, pela América,–

Toda dobra e desdobramento da minha fantasia,

Toda dobra e desdobramento de toda alma,

Toda dobra e desdobramento dos céus.

Sei tudo isso, quando a rabeca cigana plange.


Nós ciganos, altivos, teimosos, perversos,

De pé sobre o branco Himalaia,

Vamos lembrar do divino Yosemite.

Vamos curar ermitões hindus com óleo

Trazido de altas sequoias da Califórnia.

Seremos como deuses juntando trovões,

Plantando sequoias nas montanhas do Tempo.

Vamos cambiar cavalos com a lua crescente,

Consertar a caçarola hilária chamada Órion,

Colorir estrelas como os postes de San Francisco,

E pintar nosso sinal e assinatura no alto

Em planetas como cama de amor-perfeito carmim;

Enquanto um milhão de rabecas movem corações que ouvem,

Apregoando boa sorte ao Universo,

Sussurrando aventura às ondas do Ganges,

E aos espíritos, e a todos os ventos e deuses.

Até o grande Brahma pôr sua palma dourada

Dentro da tenda listrada do rei cigano,

E indagar sua sorte pela linha do amor

Que serpenteia em sua palma em chama esplêndida.


Só a pedra fundamental da velha Índia

Parará a marcha sem fim dos pés ciganos.

Eu vou voltar para a Índia com eles

Quando voltarem à Índia de onde vieram.

Sei tudo isso, quando a rabeca cigana plange.



I KNOW ALL THIS WHEN GIPSY FIDDLES CRY


Oh, gipsies, proud and stiff-necked and perverse,

Saying: “We tell the fortunes of the nations,

And revel in the deep palm of the world.

The head-line is the road we choose for trade.

The love-line is the lane wherein we camp.

The life-line is the road we wander on.

Mount Venus, Jupiter, and all the rest

Are finger-tips of ranges clasping round

And holding up the Romany’s wide sky.”


Oh, gipsies, proud and stiff-necked and perverse,

Saying: “We will swap horses till the doom,

And mend the pots and kettles of mankind,

And lend our sons to big-time vaudeville,

Or to the race-track, or the learned world.

But India’s Brahma waits within their breasts.

They will return to us with gipsy grins,

And chatter Romany, and shake their curls

And hug the dirtiest babies in the camp.

They will return to the moving pillar of smoke,

The whitest toothed, the merriest laughers known,

The blackest haired of all the tribes of men.

What trap can hold such cats? The Romany

Has crossed such delicate palms with lead or gold,

Wheedling in sun and rain, through perilous years,

All coins now look alike. The palm is all.

Our greasy pack of cards is still the book

Most read of men. The heart's librarians,

We tell all lovers what they want to know.

So, out of the famed Chicago Library,

Out of the great Chicago orchestras,

Out of the skyscraper, the Fine Arts Building,

Our sons will come with fiddles and with loot,

Dressed, as of old, like turkey-cocks and zebras,

Like tiger-lilies and chameleons,

Go west with us to California,

Telling the fortunes of the bleeding world,

And kiss the sunset, ere their day is done."


Oh, gipsies, proud and stiff-necked and perverse,

Picking the brains and pockets of mankind,

You will go westward for one-half hour yet.

You will turn eastward in a little while.

You will go back, as men turn to Kentucky,

Land of their fathers, dark and bloody ground.

When all the Jews go home to Syria,

When Chinese cooks go back to Canton, China,

When Japanese photographers return

With their black cameras to Tokio,

And Irish patriots to Donegal,

And Scotch accountants back to Edinburgh,

You will go back to India, whence you came.

When you have reached the borders of your quest,

Homesick at last, by many a devious way,

Winding the wonderlands circuitous,

By foot and horse will trace the long way back!

Fiddling for ocean liners, while the dance

Sweeps through the decks, your brown tribes all will go!

Those east-bound ships will hear your long farewell

On fiddle, piccolo, and flute and timbrel.

I know all this, when gipsy fiddles cry.


That hour of their homesickness, I myself

Will turn, will say farewell to Illinois,

To old Kentucky and Virginia,

And go with them to India, whence they came.

For they have heard a singing from the Ganges,

And cries of orioles,–from the temple caves,–

And Bengal's oldest, humblest villages.

They smell the supper smokes of Amritsar.

Green monkeys cry in Sanskrit to their souls

From lofty bamboo trees of hot Madras.

They think of towns to ease their feverish eyes,

And make them stand and meditate forever,

Domes of astonishment, to heal the mind.

I know all this, when gipsy fiddles cry.


What music will be blended with the wind

When gipsy fiddlers, nearing that old land,

Bring tunes from all the world to Brahma's house?

Passing the Indus, winding poisonous forests,

Blowing soft flutes at scandalous temple girls,

Filling the highways with their magpie loot,

What brass from my Chicago will they heap,

What gems from Walla Walla, Omaha,

Will they pile near the Bodhi Tree, and laugh?

They will dance near such temples as best suit them,

Though they will not quite enter, or adore,

Looking on roofs, as poets look on lilies,

Looking at towers, as boys at forest vines,

That leap to tree-tops through the dizzy air.

I know all this, when gipsy fiddles cry.


And with the gipsies there will be a king

And a thousand desperadoes just his style,

With all their rags dyed in the blood of roses,

Splashed with the blood of angels, and of demons.

And he will boss them with an awful voice.

And with a red whip he will beat his wife.

He will be wicked on that sacred shore,

And rattle cruel spurs against the rocks,

And shake Calcutta's walls with circus bugles.

He will kill Brahmins there, in Kali's name,

And please the thugs, and blood-drunk of the earth.

I know all this, when gipsy fiddles cry.


Oh, sweating thieves, and hard-boiled scalawags,

That still will boast your pride until the doom,

Smashing every caste rule of the world,

Reaching at last your Hindu goal to smash

The caste rules of old India, and shout:

"Down with the Brahmins, let the Romany reign."


When gipsy girls look deep within my hand

They always speak so tenderly and say

That I am one of those star-crossed to wed

A princess in a forest fairy-tale.

So there will be a tender gipsy princess,

My Juliet, shining through this clan.

And I would sing you of her beauty now.

And I will fight with knives the gipsy man

Who tries to steal her wild young heart away.

And I will kiss her in the waterfalls,

And at the rainbow's end, and in the incense

That curls about the feet of sleeping gods,

And sing with her in canebrakes and in rice fields,

In Romany, eternal Romany.

We will sow secret herbs, and plant old roses,

And fumble through dark, snaky palaces,

Stable our ponies in the Taj Mahal,

And sleep out-doors ourselves.

In her strange fairy mill-wheel eyes will wait

All windings and unwindings of the highways,

From India, across America,–

All windings and unwindings of my fancy,

All windings and unwindings of all souls,

All windings and unwindings of the heavens.

I know all this, when gipsy fiddles cry.

We gipsies, proud and stiff-necked and perverse,

Standing upon the white Himalayas,

Will think of far divine Yosemite.

We will heal Hindu hermits there with oil

Brought from California's tall sequoias.

And we will be like gods that heap the thunders,

And start young redwood trees on Time's own mountains.

We will swap horses with the rising moon,

And mend that funny skillet called Orion,

Color the stars like San Francisco's street-lights,

And paint our sign and signature on high

In planets like a bed of crimson pansies;

While a million fiddles shake all listening hearts,

Crying good fortune to the Universe,

Whispering adventure to the Ganges waves,

And to the spirits, and all winds and gods.

Till mighty Brahma puts his golden palm

Within the gipsy king's great striped tent,

And asks his fortune told by that great love-line

That winds across his palm in splendid flame.


Only the hearthstone of old India

Will end the endless march of gipsy feet.

I will go back to India with them

When they go back to India whence they came.

I know all this, when gipsy fiddles cry.



Vachel Lindsay, nascido em 1879, foi um poeta norte-americano conhecido por inserir diversos efeitos da linguagem coloquial e sonoridades onomatopaicas em seus versos, modernizando a poética norte-americana, mais ou menos como Mário de Andrade, na mesma época, fazia com a lírica tupiniquim. Lindsay cursou medicina em Ohio, porém deixou a carreira pelos versos, e isto lhe custaria caro, – sem novidades. De 1905 a 1913, tornou-se andarilho, perambulando por Illinois, Kansas, Novo México, cambiando poesia por comida e moradia. A essa época já era conhecido (mais que atualmente), e até 1914 cortejava a poeta Sara Teasdale, que seria a primeira pessoa a ganhar um Prêmio Pulitzer, por sua obra Love Songs, de quem ele gostava sinceramente, porém não possuía recursos necessários para lhe fornecer estabilidade. Trocou extensa correspondência com o poeta W. B. Yeats. Em 1925, aos 45 anos, casou-se com Elizabeth Connor, de 23. As pressões por dinheiro cresceram, e logo vieram os filhos. A quebra da Bolsa de Nova York aumentou a miséria geral, incluindo a de Lindsay que, sem poder vencer a depressão, suicidou-se em 1931, bebendo uma garrafa de soda cáustica.


 

H. D. (HILDA DOOLITTLE)


Hilda Doolittle (HD). Fotografia do Arquivo Bettmann/Getty.



SAGRADO SÁTIRO


Santíssimo Sátiro,

como um bode,

com chifres e cascos

pra combinar com teu casaco

de burel marrom,

faço um diadema de folha

e uma coroa de melífluas flores

à tua garganta;

onde pétalas ambarinas

pingam ao marfim,

corto e deslizo