HAYDEN CARRUTH por Yuri Amaury P. Molinari

TRADUÇÃO VOLUME 5 NÚMERO 1


URSOS EM TEMPO DE FRAMBOESAS


Medo. Três ursos

não são o medo, mãe

e filhotes vêm colher frutos

em nossa vizinhança


como uma família qualquer.

Eu quero vê-los, ou qualquer

distração. Lanterna

cutucando por cima do riacho


a escuridão da urze,

mas eles se foram,

ruidosamente. Vou dormir.

Medo. Livros por escrever


já com título. Algum

idiota vai atirar nos ursos

logo, isso sempre acontece,

eles vão ser pendurados pelas patas


no bordo do quintal da frente

de alguém pra ser admirado e

medido, e eu vou ser pago

por trabalho ainda por fazer –


com a imaginação quebrada.

Enfim eu sonho. Nossa

ameixeira, pequena, preta,

retorcida, macilenta no


pomar: como por um momento

na primavera passada ela floresceu

serena, translucidamente

antes de dar a costumeira


safra de verão de folhas

murchas. Eu acordo, tarde,

vou à janela, baixo

os olhos no pomar.


É a meia-idade que torna

fatuais até os sonhos?

A ameixa está serena e

clara à luz da lua nova,


vestida de folhas prateadas,

e por perto, no refugo

de grama grossa dispersa

em luar como pó de diamante,


que é aquilo?– uma forma escura

se mexe, e então outra.

Será que são... não posso

ter certeza. A casa escura


fuça muda em meu joelho,

suplicando dólares carnudos.

Medo. Não seria legal

escrever absolutamente nada


exceto poemas sobre ursos?



BEARS AT RASPBERRY TIME


Fear. Three bears

are not fear, mother

and cubs come berrying

in our neighborhood


like any other family.

I want to see them, or any

distraction. Flashlight

poking across the brook


into briary darkness,

but they have gone,

noisily. I go to bed.

Fear. Unwritten books


already titled. Some

idiot will shoot the bears

soon, it always happens,

they’ll be strung up by the paws


in someone’s frontyard

maple to be admired and

measured, and I’ll be paid

for work yet to be done –


with a broken imagination.

At last I dream. Our

plum tree, little, black,

twisted, gaunt in the


orchard: how for a moment

last spring it flowered

serenely, translucently

before yielding its usual


summer crop of withered

leaves. I waken, late,

go to the window, look

down to the orchard.


Is middle age what makes

even dreams factual?

The plum is serene and

bright in new moonlight,


dressed in silver leaves,

and nearby, in the waste

of rough grass strewn

in moonlight like diamond dust,


what is it?–a dark shape

moves, and then another.

Are they... I can’t

be sure. The dark house


nuzzles my knee mutely,

pleading for meaty dollars.

Fear. Wouldn’t it be great

to write nothing at all


except poems about bears?



A CORTINA

Logo acima do horizonte uma grande máquina de

[morte ruge e escoiceia.

Nós a escutamos sempre. Terremoto, inanição, a

[eternamente renovada fossa de carne

[morta.

Mas neste vale a neve cai em silêncio o dia

[inteiro, e do outro lado da janela

Vemos a sua cortina se mexendo e dobrando,

[escondendo-nos na nossa casinha,

Vemos terra alisada e embelezada, feita como

[fantasia, as árvores em neve

Tão graciosas. Na nossa cama nova, que é grande

[o bastante pra parecer o pasto norte,

[quase,

Com nossos dois gatos, Cooker e Smudgins,

[deitados sem ser incomodados nos cantos

[sudeste e sudoeste,

Ficamos deitados, quentes e amando, olhando pra

[fora de vez em quando. “Presos na neve”,

[dizemos. Falamos do poeta

Que morava com sua jovem governanta muito

[tempo atrás nas montanhas da província

[oeste, o reino

Da crueldade, onde cabeças tombavam como

[flores murchas e a neve caía por muitos

[meses

Por sobre o desfiladeiro e acumulava fundo no

[vale. Na nossa cozinha, o bordo

[queimando murmura

No nosso forno. Comemos queijo e pão fresco e

[azeitonas espanholas graúdas

Que foram mergulhadas na nossa salmoura

[especial de jalapeños e alho e endro e

[tomilho.

Bebemos um gole ou dois do pequeno conhaque

[barato que nos faz sorrir e suspirar.

Por um momento fechamos o imenso índice de

[imagens que é nossas vidas - por

[exemplo,

A criança na reserva Mescalero no Novo México

[sentada nua em 1966 fora da choupana da

[família,

Coberta de feridas, incapaz de falar. Mas é claro

[que vemos a criança todo dia,

Estendemos nossas mãos, tocamo-la tímidos,

[fazemos oferendas a sua implacabilidade.

Não, o índice não pode fechar. E como vamos

[sobreviver? Não pudemos nem podemos

[nem nunca vamos

Saber. Além do horizonte um grande ruído

[incessante é inegável. A máquina,

Como uma imensa, tilintante, vibrante, trêmula,

[inominável engenhoca grande como uma [casa, grande como a cidade inteira,

Pode escapar e entrar num repente no nosso vale a

[qualquer hora.

Saúde, beibe. A nós. Olha só como a cortina de

[neve treme e aí recua.



THE CURTAIN


Just over the horizon a great machine of death is

[roaring and rearing.

We can hear it always. Earthquake, starvation, the

[ever-renewing sump of corpse-flesh.

But in this valley the snow falls silently all day,

[and out our window

We see the curtain of it shifting and folding,

[hiding us away in our little house,

We see earth smoothened and beautified, made

[like a fantasy, the snow-clad trees

So graceful. In our new bed, which is big enough

[to seem like the north pasture almost

With our two cats, Cooker and Smudgins, lying

[undisturbed in the southeastern and

[southwestern corners,

We lie loving and warm, looking out from time to

[time. “Snowbound,” we say. We speak of

[the poet

Who lived with his young housekeeper long ago

[in the mountains of the western province,

[the kingdom

Of cruelty, where heads fell like wilted flowers

[and snow fell for many months

Across the pass and drifted deep in the vale. In our

[kitchen the maple-fire murmurs

In our stove. We eat cheese and new-made bread

[and jumbo Spanish olives

Which have been steeped in our special brine of

[jalapeños and garlic and dill and thyme.

We have a nip or two from the small inexpensive

[cognac that makes us smile and sigh.

For a while we close the immense index of images

[that is our lives—for instance,

The child on the Mescalero reservation in New

[Mexico sitting naked in 1966 outside his

[family’s hut,

Covered with sores, unable to speak. But of course

[we see the child every day,

We hold out our hands, we touch him shyly, we

[make offerings to his implacability.

No, the index cannot close. And how shall we

[survive? We don’t and cannot and will

[never

Know. Beyond the horizon a great unceasing

[noise is undeniable. The machine,

Like an immense clanking vibrating shuddering

[unnameable contraption as big as a house,

[as big as the whole town,

May break through and lurch into our valley at

[any moment, at any moment.

Cheers, baby. Here’s to us. See how the curtain of

[snow wavers and then falls back.


Tradução: Yuri Amaury P. Molinari


HAYDEN CARRUTH (1921-2008) foi um poeta, crítico literário e professor universitário estadunidense. Nascido em Waterbury, Connecticut, Carruth recebeu sua formação acadêmica na Carolina do Norte e em Chicago antes de se retirar com sua esposa para o interior semi-rural do nordeste dos EUA, onde permaneceu por muito anos. Recebeu importantes prêmios nacionais pela sua obra, que conta mais de trinta livros de poesia. Alguns dos elementos que podem ser destacados em sua poética versátil são a influência do jazz e do blues em sua linguagem, e a presença da realidade interiorana.

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