SIONISMO, PROJETO NEOCOLONIAL DO IMPERIALISMO

Atualizado: Jan 23

OPINIÃO VOLUME 5 NÚMERO 1


por Lejeune Mirhan




O tema sionismo é dos mais controversos quando se aborda temas de geopolítica internacional. É comum os próprios sionistas e judeus de direita prontamente nos acusarem de sermos “antissemita” (sic). Ainda mais quando relacionamos essa temática ao sistema neocolonial. Neste capítulo, pretendo abordar essa questão, falando sobre as origens do sionismo desde o século XIX proposta pelo controverso jornalista austríaco Theodor Herzl (1860-1904). Falarei de forma resumida da história da Palestina, tratado de dois fatos específicos e muito importantes, ocorridos no século XX, que foram os acordos de Sykes-Picot e a Declaração Balfour. Pretendo tratar de pelo menos quatros dos principais mitos judaicos/sionistas que eles propalam aos quatro cantos. Por fim, tipificarei pelo menos quatro tipos de sionismo identificados e mais preponderantes. E sigo a postura do grande jornalista inglês Robert Fisk, talvez o maior conhecedor do mundo árabe quando ele disse certa vez em um dos seus magníficos artigos: “sem medo de ser antissemita”. Ao final do capítulo, publico três entrevistas que concedi ao longo dos anos à jornalistas e estudiosos da causa palestina, que versaram sobre a situação política no Oriente Médio, sionismo e minha participação em um congresso de trabalhadores palestinos. Publico ainda uma matéria minha que saiu no portal Vermelho sobre a mídia e o sionismo. Por fim, uma breve história do Comitê Palestino de São Paulo e a cronologia da história da Palestina.


Breve história da Palestina


A Palestina é terra milenar. Vem de tempos imemoriais. Se formos pegar estritamente a lenda bíblica, ela pode se situar há pelo menos três mil anos antes de Cristo. A cidade palestina de Jericó é considerada a cidade mais antiga do mundo com vida continuada (eu a visitei em duas das minhas três idas à Palestina). Fala-se que ela tería algo próximo a dez mil anos. Na época do Império romano – um dos pelo menos nove impérios que ocuparam aquela região desde então – ela era chamada de Síria-Palestina.

Nessa região moraram povos – muitos extintos – entre eles os amorreus, mohabitas, cananeus, filisteus e tantos outros. Os palestinos descendem desses povos todos e moram ali há pelo menos cinco mil anos. Jamais me esqueço de quando visitei a aldeia de Nabih Saléh, e me encontrei com a família Tamimi, pais e avós de Ahed Tamimi, adolescente palestina presa por enfrentar o exército israelense (eu a conheci com cerca de 10 anos) e perguntei ao chefe da aldeia: – há quanto tempo vocês moram aqui na aldeia? Ao que ele me respondeu: – há mais ou menos cinco mil anos!

Sobre esses impérios (ou povos), podemos listar pelos menos os seguintes, que ocuparam a Palestina: egípcios, hebreus, assírios, babilônios, persas, grego/macedônicos, árabes, turcos e ingleses. Estes últimos entraram na Palestina sob o comando do general Edmund Allenby ainda em 1917, antes do final da 1ª Guerra Mundial.

Com a iminência da derrota na guerra da Tríplice Aliança, formada por Alemanha e os impérios Austro-Húngaro e Otomano, a chamada Tríplice Entente, formada pela França, Inglaterra e império Russo iniciam as conversações desde o final de 1915, para repartir entre si os espólios de guerra, os territórios do Oriente Médio.

Foi nesse momento que os dois chanceleres dos principais países – Inglaterra e França – começam as conversas. Mark Sykes e François Georges Picot, que posteriormente viria a ficar conhecido como acordos de Sykes-Picot, assinaram formalmente e secretamente os acordos em 16 de maio de 2016. Acabou sendo o líder da revolução bolchevique da Rússia em outubro de 1917, Vladimir Lênin, quem divulgou uma cópia desses acordos para o mundo. A Inglaterra ficaria com a Palestina, Jordânia (antes chamava-se Transjordânia) e Iraque e a França com a Síria e o Líbano. Na verdade, aqui ocorre uma traição da Inglaterra ao que ela havia prometido aos árabes – qual seja, a sua independência – em acordos negociados pelo seu enviado especial Thomas Edward Lawrence, imortalizado no cinema no filme Lawrence da Arábia (de David Lean, com Peter O’Toole). Ele viria a escrever o belo livro Os sete pilares da sabedoria, ou Seven pillars of winsdow). Os ditos deste acordo foram posteriormente ratificados pelo tratado de San Remo de 26 de abril de 1920 e referendados pela Sociedade das Nações, antecessora da ONU, em 24 de julho de 1922.

A segunda questão importante na história da palestina é a famigerada carta escrita pelo secretário de assuntos estrangeiros da Inglaterra, lorde Arthur James Balfour endereçada ao também lorde e barão Lionel Walter Rothschild, maior capitalista financeiro da Inglaterra e de toda a Europa. Nessa carta, em nome de sua majestade a Rainha, ele promete o que não lhe pertencia a um povo que não tinha direito a ela: a criação de um lar nacional judaico nas terras da Palestina. Mas, prometeu mais que isso. Disse que a Inglaterra auxiliaria na imigração de judeus europeus para a Palestina, atendendo ao programa sionista, como veremos a seguir.


Origens do sionismo


Segundo Shlomo Sand, um dos maiores historiadores não-sionistas hoje em Israel, o conceito de “pátria” e “nação” ou mesmo de “patriotismo” são estranhos ao judaísmo. O principal livro sagrado dos judeus, o Talmude (e não o Torá ou pentateuco, como a maioria das pessoas pensam que é) não menciona nada parecido com isso. Aliás, nem o conceito de “Terra de Israel” é mencionado (ele trata desses temas polêmicos em seus dois livros editados no Brasil, sucessos até mesmo em Israel, que são A invenção do povo judeu e A invenção da terra de Israel ambos publicados pela Benvirá/Saraiva; aguardamos ansiosos a tradução do último da trilogia que será intitulado A invenção do judeu secular).

O termo Sion significa “elevado” em hebraico e trata de montanhas que cercam Jerusalém, que eles chamam de terra de Sion. Na antiguidade bíblica quando os hebreus rezavam e sonhavam com a sua “terra prometida por deus” (sic), eles oravam e diziam sempre assim: “no ano que vem em Jerusalém”. Dizem as profecias bíblicas de que a segunda vinda do Messias (a primeira para os judeus) só iria ocorrer quando estes vivessem em Jerusalém e em Israel. É exatamente a partir dessa tese bíblica que surge o chamado sionismo cristão, como veremos mais adiante.

Grosso modo podemos definir sionismo como um movimento nacional judaico que defende a autodeterminação do povo judeu na sua busca pela edificação de sua Nação e Estado judeu. E essa nação tería que ser construída exatamente onde vivem e moram há milhares de anos o povo palestino. Com base na lenda bíblica de que deus tería prometido uma terra para a descendência de Izaac, segundo filho de Abraão.

Aqui temos que registrar que os primeiros sionistas – com Theodor Herzl à frente – jamais foram religiosos. Eram seculares. Alguns eram até ateus. Mas, para dar forças às suas teses coloniais, tinham que lançar mão da crença religiosa da maioria dos aderentes ao judaísmo em todo o mundo, qual seja, de que, de fato, aquelas terras pertencem ao povo judeu por eles ser escolhido de deus e por que foi deus quem as deu a eles. É como se tivéssemos um deus como corretor de imóveis e de terras.

No final do século XIX, os historiadores mencionam o fato de que as teses sionistas não ganharam corpo entre os judeus no mundo pelo fato de que a grande maioria deles era “assimilacionista”, ou seja, defendiam a ideia de que deveriam ser mesmo assimilados nos países e nas culturas dos povos em que viviam, falar sua língua. Defendiam simplesmente o direito de poder praticar a sua religião com liberdade.

Aqui, o episódio de repercussão internacional ocorrido na França com em 1894 com a condenação do capitão Alfred Dreyfus, judeu e oficial do exército francês caiu como uma luva para fortalecer as teses sionistas, de que os judeus deveriam ter sim o seu lar nacional em um país só deles. Herzl argumentou a partir disso que mesmo os judeus tendo sido assimilados em todos os países eles sempre seriam discriminados (as razões disso são tema para outro trabalho).

Herzl não foi o primeiro a empregar o termo sionismo. Quem o fez foi o judeu chamado Natham Birnbaum, um escritor e jornalista, no ano de 1892. Ele publicou um artigo na revista que ele próprio havia fundado, chamada “Autodeterminação”.

No entanto, Theodor Herzl é considerado o “pai do sionismo”. Herzl organizou o 1º Congresso Sionista Mundial, que ocorreu em 29 de agosto de 1897, na cidade suíça de Basileia. A prova que a maioria dos judeus rejeitava o sionismo é que Herzl tentou realizar esse congresso na Alemanha e outras localidades, mas era rejeitado pelos rabinos mais influentes da época. A principal obra de Herzl foi O Estado judeu, onde ele descreve como sería esse estado, tentando descrever como seriam as leis, a organização, os costumes, fala sobre a imigração de judeus de todo o mundo para Israel (eles usavam o termo Palestina), falava até dos prédios edificações.

Esse Congresso contou com a presença de 200 delegados de várias organizações judaicas no mundo e aprovou o seu “Programa Sionista” e fundou a Organização Sionista Mundial que iria organizar todos os congressos decorrentes e escolheu Herzl como seu primeiro presidente. O principal dessa plataforma sería a edificação desse estado judeu na Palestina, ainda que diversas outras propostas tenham sido apresentadas, mas perderam nas votações (falou-se em Congo, Uganda, Patagônia, Amazônia etc.).

Interessante registrar como, de certa forma Herzl foi profético quanto à data da instalação do seus estado judeu na Palestina. Em seu diário, após o Congresso, ele escreveu: “se eu pudesse resumir o Congresso da Basileia eu diria: ‘eu fundei o estado judeu!’... se eu dissesse isso hoje sería objeto de risos... mas, em cinco anos, talvez 50 anos, todos verão”. A ONU votou a partilha da Palestina em 29 de novembro de 1947, exatamente 50 anos após o Congresso da Basileia. Na verdade, isso não foi profecia alguma. A Inglaterra contribuiu decisivamente para que isso ocorresse e anunciou a saída da Palestina nesse ano, sendo concretizada no dia 14 de maio de 1948, fato esse que no dia seguinte, 15 de maio, os judeus, sob a liderança de David Ben Gurion, proclamavam a instalação do Estado judeu (esse dia, para os palestinos e árabes em geral é chamado de Al Nakba, “a catástrofe”).


Os quatro principais tipos de sionismo


Aqui mencionarei, de forma resumida, as quatro principais correntes de sionismo existentes à época de Herzl ou criadas depois dele. A maior e mais importante, claro, é a dele próprio, a que chamamos de “sionismo político”. Ela tem aspectos essencialmente diplomáticos para a sua efetivação, ou seja, parte-se do princípio de que a construção dessa organização estatal deveria dar-se a partir de conversações e articulações com as potências hegemônicas da época – especialmente Inglaterra e França – do que pela força da luta popular e mesmo militar.

A segunda corrente mais importante, que viria a ser inclusive majoritária a partir do 18º Congresso Sionista Mundial ocorrido em 1933 na cidade de Praga, atual República Tcheca, é chamada pelos historiadores de “sionismo socialista”. Na verdade, essa corrente vai fundar o Labor ou Partido Trabalhista de Israel, nos moldes do Inglês, de feições nitidamente socialdemocrata. Nada tinham de socialistas. Seu líder maior foi David Ben Gurion, fundador do Estado de Israel. Esse Congresso ocorre sob o impacto da vitória do Partido Nacional Socialista de Hitler na Alemanha (pela divisão ocorrida entre comunistas e sociais democratas). Esses sionistas fundaram as primeiras fazendas coletivas, chamadas Kibutz, na Palestina. Além de Gurion, figuras expressivas na política israelenses como Shimon Peres e Yitzhak Rabin pertenciam a essa corrente (ambos foram primeiro ministros de Israel, sendo Rabin assassinado por um fanático judeu em 4 de novembro de 1995, por ele ter assinado os acordos de Oslo com a OLP de Yasser Arafat em 1993).

A terceira corrente – também muito influente – é chamada pelos historiadores de “sionismo revisionista”. Ela teve como seu maior teórico Vladimir Jabotinsky, talvez o sionista mais violenta e radical antipalestino que já se conheceu. Ele defendia a volta aos princípios do sionismo de Herzl, mas como tática, discordava dos “políticos” e da sua via diplomática. Ele defendia a militarização do movimento sionista, ou seja, pregava a criação de milícias terroristas que atacassem indistintamente alvos ingleses e aldeias palestinas. As principais organizações paramilitares terroristas sionistas conhecidas são: Irgun, Haganah e Stern. A ação mais conhecida desses terroristas foi o massacre de aldeia de Deir Yassim entre 9 e 11 de abril de 1948, ainda sob o mandato da ocupação britânica da Palestina, onde morreram brutalmente 120 palestinos, crianças, velhos e mulheres em sua maioria. Tal massacre foi assumido pelas organizações terroristas Stern e Irgun.

Por fim, temos o “sionismo cristão”. Este talvez dos mais radicais de todos eles. Esse é um termo provavelmente criado pelo linguista estadunidense, Noam Chomsky, hoje um dos maiores analistas de política internacional. Se para os cristãos a profecia bíblica da volta de Jesus está associada diretamente a que os judeus voltem para Jerusalém e para a Palestina, então é preciso incentivar ao máximo que a imigração ocorra em todo o mundo e que eles devem ajudar a fortalecer o Estado de Israel.

Para esses cristãos fundamentalistas, a serviço do sionismo e do racismo de Israel contra os palestinos, o marco principal dessa profecia foi a instalação de Israel em 15 de maio de 1948. É como se a profecia estivesse sendo realizada a partir daquele momento. O maior expoente dessa corrente foi exatamente Lorde James Balfour, cristão anglicano, autor da famigerada carta de 1917 que prometia que a Inglaterra tudo faria para garantir uma terra aos judeus na Palestina e ajudaria na imigração para lá.

Nos EUA o pastor tele evangelista mais famoso, e cristão sionista fervoroso é Pat Robertson. Ainda nesse país, ninguém mesmo que seu próprio presidente Donald Trump é adepto dessa corrente do sionismo cristão, fazendo o jogo dos sionistas que, em seu país, são extremamente fortes e atuam através do lobby chamado AIPAC (American Israel Public Affair Commitee, ou Escritório de Negócios Públicos Israel-Estados Unidos). Apenas para registro, no Brasil dois deputados federais fascistas defendem abertamente essas teses. São ele Jair Messias Bolsonaro e Marcos Feliciano, este último pastor evangélico. Não podemos nos esquecer que os cristãos puritanos, os que imigraram da Inglaterra em busca de um “novo mundo” nas Américas, passaram a ler a bíblia e a considerá-la um livro histórico muito antes que os sionistas.


As três principais mentiras dos sionistas


Já se disse que uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade. Era essa a forma de fazer propaganda do nazismo adotada pelo ministro Goebels sob o governo nazista de Hitler. Assim, já desde o início de sua propaganda sionista no final do século XIX, foi preciso falar muitas mentiras de forma insistente de tal maneira que as pessoas passassem a acreditar que elas seriam verdades. Quero comentar aqui três dessas principais mentiras (existem autores que enumeram dez grandes mentiras).

1ª] Uma terra sem povo a um povo sem terra – Talvez a mais importante de todas, pois se apoia em literatura exclusivamente religiosa, mítica, fantasiosa, lendária, sem prova factual alguma. Trata daquela que diz que o povo judeu sería o povo “escolhido” por deus (sic) e que este lhe prometera uma terra exclusivamente para eles. Aqui reporta-se ao velo testamento, ao chamado pentateuco (cinco principais livros do chamado velho testamento, que para os judeus chama-se Torá). Está no Gênesis, primeiro livro da bíblia. Lá conta-se a história de um patriarca chamado Abraão, casado com Sara que não tinha filhos. Em certo momento – ele que falava com deus de forma amiúde ou com seu intermediário chamado Gabriel, na forma de anjo – deus, com pena de Abrão que não tinha filhos pois sua esposa era infértil, manda Abrão fazer um rebento com sua escrava egípcia chamada Agar. Com ela ele tem Ismael, seu primogênito e considerado patriarca de todos os árabes. Tempos depois deus muda de ideia e fala que ele agora poderá ter filhos com sua legítima esposa Sara (que se chamava antes de Sarauí e já tinha mais de 90 anos!). E com ela surge seu segundo filho chamado Izaac. Deus – sabe-se lá seus motivos – promete a Abrão que lhe daría uma grande terra para toda a descendência de seu segundo filho. Nada contra que deuses lendários prometam terras para os povos que nele creem, mas não se pode dar uma terra a alguém que não lhes pertence e que tinha um ou muitos povos nela morando. Mas, deus fez mais que isso: mandou que todos os que morassem nessa terra, chamada de Canaã, fossem eliminados. E a partir daí, a bíblia está eivada de relatos de carnificinas contra os povos locais perpetradas pelos conquistadores, em especial contra os palestinos. Aqui fica uma pergunta: porque deus destituiu Ismael dessa terra? Será porque ele não sería filho legítimo de Abrão? Sería discriminação?

2ª] Israel é um estado democrático – Essa mentira é a mais propalada pelos sionistas desde a instalação de seu estado em 15 de maio de 1948. Israel está cercada de 22 países árabes onde, na sua imensa maioria, a democracia, de fato, é ainda embrionária ou mesmo inexistente. No caso dos nove países de monarquias absolutistas do golfo Pérsico aí então inexiste democracia. Na Arábia Saudita não há sequer constituição, pois como estado teocrático eles dizem que não precisam disso pois têm o Alcorão. Não existem sequer partidos. No Egito e no Iraque ocorrem eleições e os partidos funcionam, mas nada que se compare com as amplas liberdades que estamos acostumados no Ocidente (ainda que por nossas bandas brasileiras a democracia hoje esteja comprometida). Talvez apenas na Síria e na Tunísia possamos dizer que temos democracias um pouco mais avançadas. Assim, a dita democracia de Israel, quando comparada com a de seus vizinhos, em um primeiro olhar, pode parecer, de fato, bastante avançada. Engano. Mentira. Israel jamais foi uma democracia. E marchará para piorar as coisas ainda mais se e quando for aprovado projeto de lei em tramitação no Knesset (seu parlamento) que assegura o caráter judeu ao Estado. Os palestinos que lá residem (em torno de dois milhões), são cidadãos de segunda categoria. Não só porque recebem menos da metade pelo trabalho que realizam (quando empregados) do que os trabalhadores judeus, mas porque são praticamente de uma religião não oficial do Estado. Fala-se que Israel não é estado teocrático. De meu ponto de vista é sim, exatamente porque discrimina praticante de outras religiões que não seja a judaica. É um dos poucos países no mundo que a carteira de identidade de seus cidadãos tem uma campo que pergunta a qual religião a pessoa pertence. Imagine se com um nome já claramente identificado com árabe e na carteira de identidade estiver escrito que ele é muçulmano. Será cidadão fadado a ser uma pessoa de segunda classe.

3ª] O holocausto matou seis milhões de judeus – Aqui é preciso deixar claro desde logo: jamais negaremos o que Hitler fez contra judeus em 12 anos de poder (1933-1945). Isso não se pode negar, ainda que exista uma corrente de historiadores – chamados de “negacionistas” – que possuem outra interpretação desse episódio. O que apenas se quer dizer é que não foram apenas judeus que foram perseguidos e mortos. Foram também cristãos, protestantes, comunistas, socialistas, ciganos e outras etnias. Mas, a questão colocada por muitos é: que culpa têm os palestinos sobre esse massacre, de forma a que deveriam perder suas terras para receber esse povo perseguido? Porque a solução não devesse ser encontrada pela própria Europa que viveu esse triste episódio? Será quem um dia teremos a verdade completa sobre todas essas mentiras? A história mostrará.


O sionismo hoje


Gostaria de iniciar esta parte final deste texto sobre sionismo relembrando um período da ONU em que o sionismo foi condenado como sendo racismo. A resolução nº 3.379 foi votada em 10 de novembro de 1975 e aprovada por 72 votos a favor e 35 contrários. Dizia que sionismo é uma forma de racismo e deveria ser condenada. Essa era uma época ainda da chamada guerra fria e de um mundo dividido em dois grandes campos. Chamávamos esse mundo de bipolar. Após a vitória dos EUA na primeira guerra (agressão na verdade) contra o Iraque em janeiro de 1991, o mundo viveria uma profunda mudança. Com o fim da URSS no final desse ano, passaríamos a viver a unipolaridade, ou seja, o mundo passaria a ter um xerife, um dono, um chefe, que seriam os Estados Unidos. Pois nesse sentido, nesse fatídico ano de 1991, no dia 16 de dezembro, a mesma ONU vota uma nova resolução, de número 4.686, que revogava a anterior, de forma que sionismo havia deixado de ser racismo por 111 votos a apenas 25. A resolução de condenação do sionismo havia resistido por apenas 26 anos.

O sionismo político controla hoje o aparelho de Estado de Israel e tem maioria esmagadora no seu parlamento. O governo fascista de Benjamin Netanyahú com seus aliados judeus ortodoxos professa a ideologia sionista com uma fé cega. Jamais aceitará minimamente as reivindicações dos palestinos para o estabelecimento de seu estado nacional. E são três as questões básicas postas à mesa de negociações: 1. Direito de retorno aos que quiserem voltar (a imensa maioria que imigrou para dezenas e países no mundo desde 1948 ou já faleceram ou já constituíram grande descendência, realizaram-se na vida com acúmulos de propriedades e riquezas em muitos casos e dificilmente abandonariam tudo para voltar à Palestina); 2. Definição de fronteira da Palestina em pelo menos a que existia antes da guerra de 1967 e 3. Estabelecimento de Jerusalém (pelo menos a parte Oriental) como capital do futuro Estado Palestino. Não só os sionistas negam tudo isso, como tomam – dia-a-dia – medidas que vão dificultando cada vez mais a obtenção da paz.

Os sionistas controlam hoje em todo o mundo a maioria dos bancos centrais que emitem as moedas mais fortes que circulam no mundo, em especial o dólar como o Federal Reserve Bank (banco da Reserva Federal, o BC estadunidense). Praticamente todos os seus presidentes foram judeus sionistas. A família Rothschild, de judeus ingleses, controla os BCs da própria Inglaterra e da França. O maior descaramento sobre isso é o que ocorre no Brasil dos golpistas do PMDB e do PSDB (o Partido que mais apoia o sionismo no país). O presidente do BC do Brasil, Illan Goldfajn é israelense nascido em Haifa (a primeira cidade exclusivamente judaica fundada por sionistas no começo do século XX), nem brasileiro é.

Desde 1948 quando o Estado de Israel foi proclamado em 15 de maio, os Estados Unidos tudo fazem para proteger Israel. Gastaram trilhões de dólares para isso em várias guerras que fizeram e apoiaram direta ou indiretamente. É uma situação que irrita boa parte dos cidadãos estadunidenses, ainda que não sua maioria. É como se Israel fosse a prioridade número um dos Estados Unidos, como se Israel estivesse mesmo acima dos próprios interesses norte-americanos. Uma situação esdrúxula, mas que jamais foi modificada por qualquer que tenha sido o presidente desse país nestes últimos 70 anos. E talvez não venha a ser modificada tão cedo.

Por fim, a questão do entretenimento e da indústria do cinematográfica. Não vamos entrar em detalhes, mas todas as grandes empresas de mídia e de cinema de Hollywood nos Estados Unidos estão sob o controle de sionistas. E ninguém esconde isso. Os maiores estúdios de Hollywood que produzem os filmes que mais vendem e de maiores sucessos de bilheteria estão em mãos de notórios sionistas, alguns até nascidos em Israel.

Os tempos que vivemos hoje é de transição de um sistema mundial de unipolaridade para um mundo multipolar. Isso gera muito tensionamento, conflitos e mesmo guerras regionais, como hoje ocorre – por procuração – na Síria. Quem sofre com isso são os povos mais pobres e oprimidos do mundo. E nesse contexto, os palestinos são hoje o povo que vive a mais longa dominação e ocupação por outro povo da história moderna.

Essa situação só irá se alterar quando conseguirmos modificar a correlação adversa de forças e caminharmos para uma ampla unidade dos povos e forças políticas que defendem um outro mundo, socialista, como possível.


Israel e a Mídia Internacional


Já há algum tempo circula pela Internet, de autoria anônima, um conjunto de comentários sobre o comportamento da mídia, da imprensa internacional, especialmente as grandes redes de TVs, quando o assunto central é Israel. Sempre chamei a atenção para o fato de que os guerrilheiros que lutam pela libertação da palestina não são terroristas, como a mídia americana insiste em chamar esses lutadores. Muitas vezes, esses jovens palestinos têm que usar seus próprios corpos como arma para atingir seus objetivos fazerem-se ouvir, ainda que isso possa causar dor e sofrimento.

Em todas as épocas na história atividades de sabotagem, ataques e atentados foram utilizados. Se formos levar a sério essa denominação de terrorista para quem usa o seu corpo para matar outras pessoas, o primeiro e mais famoso terrorista foi Sansão, da bíblia do Antigo Testamento, que ao derrubar as colunas do templo, matou pelo menos três mil filisteus (os antigos palestinos).

Sem que sejam escritas e formalmente aprovadas por alguém, parece que existem certas regras de ouro adotadas quase que unanimemente pela mídia internacional e que nossos jornais no Brasil seguem à risca. Gostaria de comentar aqui essas regras de ouro dessa mídia internacional:


1. No Oriente Médio, são sempre os árabes que atacam primeiro, e Israel apenas se "defende".

Essa resposta chama-se "represália". Nunca é Israel quem ataca primeiro, ainda que todas as guerras entre árabes e judeus tenha sido de iniciativa de Israel. A história registra massacres famosos perpetrados pelos terroristas do Irgun, do Haganáh, do Stern e outros grupos judaicos à serviço de seu projeto sionista de colonização da Palestina. Assim, para o grande público, Israel é sempre "vítima" dos palestinos, numa nítida inversão de valores, pois não há equilíbrio de forças entre essas duas partes no conflito.


2. Os árabes, os palestinos e os libaneses não têm direito de matar civil.

A isso se chama de "terrorismo". Israel tem o direito de matar civil. Isso se chama de "legítima defesa". Nessa guerra recente, no massacre que Israel perpetrou no Líbano e na Faixa de Gaza, onde mais de 1.200 árabes foram mortos em 2006, alguns da forma mais atroz possível, os israelenses nunca foram chamados de terroristas. Ataques a civis quando são os judeus que fazem, não tem importância ou problema algum, mas quando são os guerrilheiros palestinos ou libaneses que o fazem, são "terroristas". Quando Israel ataca indiscriminadamente árabes a imprensa chama essa atitude de "legítima defesa", não importando quantos mortos ficaram pelo caminho, sejam elas crianças, mulheres, velhos, como no massacre de Sabra e Chatila, em setembro de 1982, quando quase três mil palestinos foram assassinados pelas falanges libanesas protegidas pelo exército de Israel, sob comando de Ariel Sharon;


3. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida.

A isso se chama de "reação da comunidade internacional". Não há esboço nenhum, além de pequenas reações de alguns países, tímidos, aos atos terroristas que Israel comete. A ONU se mostra impotente, pelo apoio direto que os Estados Unidos têm dado à Israel. No caso do massacre de mais de mil libaneses e quatro mil feridos e um milhão de deslocados em julho de 2006, bem como a destruição quase completa de boa parte das cidades do Líbano, demorou 34 dias para que o Conselho de Segurança votasse uma Resolução do cessar fogo. Isso porque, na verdade, o que os países centrais não querem e talvez não consigam, é enfrentar a potência americana;


4. Os palestinos e os libaneses não têm direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate.

Isso se chama de "sequestro de pessoas indefesas". Israel tem o direito de sequestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente, são mais de 10 mil prisioneiros, dos quais 300 crianças e mil mulheres. No caso dos episódios de julho de 2006, o que ocorreu foi exatamente isso. Guerrilheiros palestinos capturaram, em combate, soldados israelenses, que não eram e nem estavam indefesos. Ao contrário. Foram capturados em combate, dentro de suas fortalezas e com sentinelas. Mas toda a mídia saiu em defesa dos três soldados israelenses (dois sequestrados por guerrilheiros libaneses e um por palestinos). Israel para fazer seus sequestros não necessita nem de processo, nem de culpabilidade. Simplesmente invade residências e prende quem achar que deve prender. Esses prisioneiros de guerra, que são também prisioneiros políticos, não têm direito a defesa e a um julgamento justo e Israel os mantém presos indefinidamente. A isso a mídia internacional chama de "prisão de terrorista";


5. Quando se menciona a palavra "Hezbolláh" na mídia é preciso em seguida vir a frase "apoiada e financiada pela Síria e pelo Irã".

Quando se menciona a palavra "Israel", é proibida a menção a "financiado pelos Estados Unidos". Se isso ocorresse, poderia se dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não estaria em perigo existencial. Ou seja, não se pode passar a ideia de que Israel é uma potência mas sim a de que está sempre ameaçada. Se um dos lados em conflito estiver apoiado por dois países islâmicos, a opinião pública poderia aceitar mais "naturalmente" a reação israelense. Aqui, em lugar algum da mídia internacional, levanta-se a simples e natural hipótese de que o apoio político e mesmo militar que Irã e Síria possam dar, e não só seus governos, mas seus povos são na linha da solidariedade e comprometimento com a luta justa dos palestinos e libaneses. Israel recebe dos EUA, ao ano e todos os anos regularmente, pelo menos quatro bilhões de dólares, além de toda a ajuda militar, armamentos etc.;


6. Quando a mídia se referir a Israel fica terminantemente proibida usar expressões "Territórios Ocupados", "Resoluções da ONU", "Violações dos Direitos Humanos" ou "Convenções de Genebra".

Israel viola sistematicamente todas as decisões da ONU – mais de uma centena – no que diz respeito aos territórios palestinos ocupados, violações de direitos humanos desse povo, bem como todas as convenções e tratados de Genebra sobre direito internacional. Trata-se de territórios palestinos ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias de junho de 1967, quando toda a Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém foram ocupados, bem como parte do Líbano, da Síria e do Egito. Foi a maior expansão do Estado Judeu na história da região. A imprensa praticamente nunca menciona as dezenas e dezenas de resoluções que foram aprovadas seja pelo CS ou pela própria Assembleia Geral, condenando Israel. Este Estado – que alguns autores classificam como estado "bandido" – sequer se dispõe a cumprir resolução alguma da ONU e simplesmente não se fala mais nisso. Quando a resolução é para desarmar o Hezbolláh, faz-se um coro unido internacionalmente para que ela seja imediatamente cumprida. São dois pesos e duas medidas;


7. Todos os palestinos e libaneses são "covardes" que se escondem entre a população civil que "não os quer".

Os palestinos dormem em suas próprias casas, vivem com suas famílias. Israel chama isso de "covardia". Em seguida, Israel bombardeia indiscriminadamente essas casas, e a mídia lhes concede o "direito" de aniquilar com bombas e mísseis centenas de líderes da resistência, usando bombas e artilharia aérea, matando-os, em sua maioria, quando estão dormindo. Tais ataques ocorrem pelos ares e a centenas de metros de altitude. A isso a mídia chama de "ataques cirúrgicos de alta precisão" (sic);


8. Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e mesmo o português que os árabes.

Por isso, eles e os que os apoiam devem ser mais entrevistados devem repercutir suas próprias ações e ter mais oportunidades que os árabes, inclusive as presentes regras de ouro do jornalismo com relação à Israel. A isso dão o estranho nome de "neutralidade jornalística". Todas as redes internacionais de TVs e jornais que mantém correspondentes no Oriente Médio, sequer falam o árabe, língua de mais de 400 milhões de árabes, os maiores interessados em repercutir as ações que são tomadas em seus territórios. Mas estes, pouco ou quase nunca, são ouvidos. TVs árabes não tem quase nenhuma penetração no Ocidente, salvo a recente Al Jazeera;


9. Todas as pessoas e jornalistas que não estiverem de acordo com as regras anteriores serão considerados "antissemitas" e até "terroristas de alta periculosidade".

Toda e qualquer crítica que Israel venha a receber hoje na grande imprensa, logo o jornalista ou articulista é taxado de antissemita. Tempos atrás, o combativo jornalista Robert Fisk, do jornal Independent de Londres, considerado progressista para os padrões londrinos, escreveu um artigo intitulado "Sem medo de chamado de antissemita", em uma profunda e forte crítica à forma como Israel vem tratando os palestinos.

Quando isso vai mudar? Por isso e cada vez mais, apoio a luta do povo palestino, talvez a luta internacionalista mais justa da atualidade a qual todos os patriotas e democratas de todo o mundo deveriam se somar.



Lejeune Mirhan é sociólogo, professor, escritor, pesquisador e analista internacional. Foi colunista da Revista Sociologia da Editora Escala (2006-2018) e do Portal Vermelho (2002-2012). Foi professor de Sociologia e Ciência Política da UNIMEP (1986-2006). Foi presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (2007-2010) e da Federação Nacional dos Sociólogos (1996-2002). É autor de 13 livros de Sociologia e Política Internacional. Fez especialização em política internacional na ESP e mestrado em filosofia na PUCC. Tem projeto de doutorado em filosofia árabe. Em suas pesquisas internacionais e sobre o mundo árabe visitou 20 países, dos quais seis árabes. Recebe mensagens pelo e-mail lejeunemgxc@uol.com.br.

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