JOHN KINSELLA por Yuri Amaury P. Molinari

TRADUÇÃO VOLUME 5 NÚMERO 1


REMOVENDO AS ISCAS DE RAPOSA


É duplamente

irônico que um casal

ranzinza, rígido e quente

ao pensar

em veneno,

assombrado e atormentado

pela ideia de carne,

rastreie

o guarda

fazendo a ronda,

escrutando seus maneirismos,

seu processo de depositar

as iscas, mova-se

alguns passos atrás dele

e erga as iscas

em mãos enluvadas de tenaz,

pra selar num saco

de incinerar.

O som da diminuição,

do quoll e gato-tigre,

são ouvidos no espaço

da cada respiração –

o guarda exsudando

suor de caçador,

enquanto o calor do corpo

alavanca a consciência,

e uma morte de raposa

contorce o tempo.



REMOVING THE FOX BAITS


It is doubly

ironic that a fastidious

couple, rigid and hot

at the thought

of poison,

haunted and tormented

by the idea of meat,

should track

the ranger

doing his rounds,

scrutinize his mannerisms,

his process of laying

baits, move in

a few steps behind him

and lift the baits

in gloved and pincered hands,

to seal in a bag

for incineration.

The sound of diminution,

the quoll and native mouse,

are heard in the space

of each breath –

the ranger exuding

a hunter’s sweat,

as body warmth

levers conscience,

and a fox death

contorts the tense.



AFOGANDO EM TRIGO


Eles foram avisados

em toda fazenda

que brincar

nos silos

levaria à morte.

Você afunda em trigo.

Lentamente. E quanto mais

você se debate, pior fica.

“Você vai ver um rato passar nadando

pela sua cara, ágil em seu terreno,

e aí você vai sumir.”

Ali, trabalho duro

não dá recompensa.

Então virou uma espécie de teste

pra ver quanto eles conseguiam afundar

sem precisar duma corda

pra ajudar a sair.

Mas no meio da brincadeira

rituais saem do compasso – como ambos

pulando pra dentro pra resolver

uma discussão

sobre quem iria primeiro

e esquecendo

de amarrar a corda.

Até a cintura

e com medo de mexer.

Que até um grito de socorro

faria o trigo

cair aos grãos.

A doída consolidação

do tempo. Os grãos

na ampulheta

grotescamente inchados.

E aquele acre

cheiro químico

de trigo tratado

conduzindo-os a

um sono de quase-morte.



DROWNING IN WHEAT


They’d been warned

on every farm

that playing

in the silos

would lead to death.

You sink in wheat.

Slowly. And the more

you struggle the worse it gets.

“You’ll see a rat sail past

your face, nimble on its turf,

and then you’ll disappear.”

In there, hard work

has no reward.

So it became a kind of test

to see how far you could sink

without needing a rope

to help you out.

But in the midst of play

rituals miss a beat – like both

leaping in to resolve

an argument

as to who’d go first

and forgetting

to attach the rope.

Up to the waist

and afraid to move.

That even a call for help

would see the wheat

trickle down.

The painful consolidation

of time. The grains

in the hourglass

grotesquely swollen.

And that acrid

chemical smell

of treated wheat

coaxing them into

a near dead sleep.



DEPOIS DE BOMBEAR


No verão quando o dia

abrasa seu curso pelas semanas

e meses, e o pluviômetro

recolhe sedimentos de poeira,


e noites são capelos

de luz superaquecida

resfriada em noite morna,

os irrigadores


embebem o gramado

em água ocre puxada

desde a represa

pela bomba a rosnar;


entre as pastagens

de amarelos e marrons desvanecentes,

um gramado indelével

resfria a mente.


A bomba tosse

e enche de silêncio,

e lenha tremeluz

ao longo da cerca –


o engole-vento

se move cauteloso,

sempre longe da

incursão verde.



AFTER PUMPING


In summer when the day

burns its way through weeks

and months, and the rain gauge

collects sediments of dust,


and evenings are cowls

of super-heated light

cooled to tepid night,

the sprinklers


dowse the lawn

in ochre water forced

up from the dam

by the snarling pump;


amongst the paddocks’

fading yellows and browns,

an indelible lawn

cools the mind.


The pump coughs

and fills with silence,

and deadwood flickers

along the fenceline –


the tawny frogmouth

moves with caution,

always away from

the green incursion.



LÍQUEN BRILHA AO LUAR


Líquen brilha ao luar

tão forte só nuvem cobrindo

a lua traz alívio. Então passada,

recarregado ele salta das rochas


e sufoca – não há rota

entre rochas sem ter de confrontar

suas súplicas – ele ilumina o caminho,

não a lua, e excede epítetos


como fosforescente, fluorescente, ou florescente:

ele zomba e sorri e levanta o canto

dos seus lábios em hediondo ou idílico conluio

e aves flauteiam eterna aurora, nunca sabendo


quando dormir ou acordar. Eles podem

ser convencidos a achar que seu tempo acabou,

no espectro de líquen, sua extra-gravitacional

persuasão, seu movimento crepitante


lembrado como imóvel, indiferente, a penas

vivendo sob o sol, ou numa noite escura;

subindo você escaparia, mas como todo grande

peso molecular ele deixa traços


que você carrega consigo adentrando mundos

de conforto e fé.



LICHEN GLOWS IN THE MOONLIGHT


Lichen glows in the moonlight

so fierce only cloud blocking

the moon brings relief. Then passed by,

recharged it leaps up off rocks


and suffocates – there is no route

through rocks without having to confront

its beseeching – it lights the way,

not the moon, and outdoes epithets


like phosphorescent, fluorescent, or florescent:

it smirks and smiles and lifts the corner

of its lips in hideous or blissful collusion,

and birds pipe an eternal dawn, never knowing


when to sleep or wake. They might

be tricked into thinking their time’s up,

in the spectrum of lichen, its extra-gravital

persuasion, its crackling movement


remembered as still, indifferent, barely

living under the sun, or on a dark night;

climbing up you’d escape, but like all great

molecular weights it leaves traces


you carry with you into the realms

of comfort and faith.



Tradução: Yuri Amaury P. Molinari


JOHN KINSELLA nasceu em 1963 em Perth, Austrália. Além de poeta, romancista, crítico, ensaísta e editor, ele também leciona na Universidade de Cambridge. Já foi premiado numerosas vezes por sua poesia, que apresenta influência direta da paisagem. Kinsella adere a um "regionalismo internacional" em sua abordagem do espaço, e se define como um "vegano anarco-pacifista" e "um apoiador dos direitos indígenas".

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