EDGAR ALLAN POE por Lucas Zaparolli de Agustini

TRADUÇÃO VOLUME 5 NÚMERO 1


A ARARA

uma adaptação tropical de The Raven


“Aí, então, surgiu imediatamente a ideia de uma criatura não racional capaz de fala;

e, muito naturalmente, de início pensei em uma arara (...)”

A Filosofia da Composição – Poe


Era meia-noite agreste, em que eu lia triste da peste

estes volumes velhos de sabedorias raras –

cochilava, adormecendo, quando ouvi alguém batendo,

suave vem batendo, sendo que à minha porta chegara.

“É uma visita”, eu sussurrara, “que a porta tocara –

É só isso e coisa ignara”.


Ah, quão nitidamente me lembro desse feroz dezembro!

Que toda brasa esmaecendo sombras ao chão lançara.

Querendo o fim da noite escura; – buscara na leitura

dos livros alívio à amargura dura de perder Odara –

Pois a moça radiante e rara que anjos chamam Odara –

Aqui não mais se chamara.


E o ciciar de sedosa sina incerta à roxa cortina

fascina – alucina com terror que jamais me tomara;

E assim o coração reprimia enquanto repetia

“É uma visita ali à porta que estadia rogara –

Uma visita tardia à porta que estadia rogara; –

Isso que é coisa nada rara”.


Daí o ânimo me sobreveio e sem mais titubeio

ou rodeio pedi perdão a meu caro ou minha cara;

é que estava cochilando, e você tão suave chegando,

vindo batendo tão brando, quando à porta chegara,

que mal achei que ouvi” – aí quando a porta escancaro-a;–

nada além da treva vária.


Fitando treva tanta, lá fiquei cheio de espanto, receando,

duvidando, sonhando sonhos que ninguém sonhara;

Mas o silêncio era inviolável, o ar parado incomparável,

e ali apenas foi pronunciável esse sussurro, “Odara?”

Isso eu sussurrara, e o eco de volta murmurara, “Odara!” –

Só essa palavra rara.


Então volvendo para dentro, toda a alma em mim ardendo,

logo algo batendo ainda mais forte escutara.

“Só pode”, digo, “esse barulho é na janela, há algum bagulho,

daí a vasculho para ver com que mistério me depara –

Já o coração se prepara ao mistério que se depara;–

É só o vento que chegara!”


Abro ali minha vidraça, quando esvoaça e passa

para dentro nobre Arara que de era arcaica chegara;

Não me fez um cumprimento; não parou nenhum momento,

mas com altivo movimento à porta se empoleirara –

Num busto de Palas à minha porta se empoleirara –

Se empoleirou e lá ficara.


Aí essa colorida ave fez rir meu delírio suave

pelo decoro sério e grave com que se portara,

“mesmo tosada sua crista”, disse, “covardia não se avista

na antiga Arara sinistra que pela noite vagara –

Diga como pelas trevas de Plutão se chamara!”

A ave disse “a a-rara”.


Pasmei ao ouvir desajeitado frango discursar tão franco,

embora nem significado ou relevância se achara;

Mas entre nós convenhamos que jamais ser humano

teve a benção de ver pousando em sua porta ave tão rara –

Ave ou besta sobre um busto que na porta se gravara,

com o nome de “a-ra-ra”.


Mas a Arara solitária sobre o busto só falara

essa palavra, como se sua alma inteira nela despejara.

Pronunciou isso apenas – não moveu nenhuma pena –

e eu murmurei a duras penas “Amigo já há que me deixara –

Como os sonhos, pela manhã, em chance igual me deixara”.

Daí a ave disse “há a-rara”.


No susto dessa resposta irrompida e tão bem posta,

eu disse: “O que ela mostra, decerto, é só o que escutara

de algum infeliz dono, ao qual a desgraça e o abandono

seguiram no entorno até que só este refrão sobrara –

refrão da esperança cuja chance que sobrara

se é que há, “há rara”.


Mas a ave soturna fez rir minha ideia taciturna,

e me enfurno à frente dela, que ao busto da porta parara.

Aí, enterrado no veludo, busquei, absorto e mudo,

vincular tudo o que essa ave arcaica e aziaga falara –

O que essa ave arcaica, aziaga, magra e agra indicara

quando grasnara nem “há rara”.


Isso eu sentado matutava, nem palavra expressava

à fera cujos olhos de lava em minha alma cravara;

Coisas mais foram pensadas, a cabeça recostada

na almofada aveludada que o lampião alumiara,

mas sobre o cetim carmesim que o lampião alumiara,

ah, ela nunca mais pousara.


O ar então ficou mais denso, com um perfume de incenso

por serafim suspenso que o assoalho do chão mal roçara.

“Maldito”, gritei, “teu Deus leniente por tais anjos consente

repouso, sim – repouso e nepente às tuas saudades de Odara;

Vira, oh, o nepente! ainda há chance de esquecer tua ida Odara!”

E o pássaro disse “há rara”.


“Profeta!”, eu disse, “ser do mal! – profeta, ave infernal! –

Se o Tentador ou a tempestade ao meu solo a lançara,

desolado e intrépido, a este canto encantado e deserto –

A este lar de horror incerto – diga a verdade, suplicara –

Diga, diga, há chance de que bálsamo em Gileade achara?

E o pássaro disse “há, rara”.


“Profeta!”, eu disse, “ser do mal! – profeta, ave infernal! –

Pelo céu alto sobre ambos – pelo Deus que a gente adorara –

Diga a essa alma que à mágoa cede, se no distante Éden

abraçar se concede a moça que anjos chamam Odara –

Se há chance com a radiante e rara que anjos chamam Odara”.

E a ave disse “há, rá-rá, a rara”.


“Que esse termo nos desuna, ave ou capeta!”, gritei, “suma!

À tempestade, em suma, à funda treva de Plutão, vá para!

Nem mais pluma de cor se refira a essa sua mentira!

A solidão prefiro-a! – do busto se transfira! separa

seu bico do meu peito, seu vulto do meu busto, separa!”

Tem chance? a ave disse “ah, ah, a rara”.


E a Arara, na treva infinda, está lá ainda, está lá ainda,

e no busto pálido de Palas da minha porta paira;

seu olhar tem a dor medonha de um demônio quando sonha,

e a candeia tristonha a sua sombra ao chão esparramara;

E a chance que minha alma dessa sombra ao chão se libertara,

nem há – ha ha, a rara!



THE RAVEN

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,

Over many a quaint and curious volume of forgotten lore —

While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,

As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.

“’Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door —

Only this and nothing more.”


Ah, distinctly I remember it was in the bleak December;

And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.

Eagerly I wished the morrow;—vainly I had sought to borrow

From my books surcease of sorrow — sorrow for the lost Lenore —

For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore —

Nameless here for evermore.


And the silken, sad, uncertain rustling of each purple curtain

Thrilled me — filled me with fantastic terrors never felt before;

So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating

“’Tis some visitor entreating entrance at my chamber door —

Some late visitor entreating entrance at my chamber door; —

This it is and nothing more.”


Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,

“Sir,” said I, “or Madam, truly your forgiveness I implore;

But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,

And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,

That I scarce was sure I heard you”—here I opened wide the door;

Darkness there and nothing more.


Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,

Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;

But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,

And the only word there spoken was the whispered word, “Lenore?”

This I whispered, and an echo murmured back the word, “Lenore!”—

Merely this and nothing more.


Back into the chamber turning, all my soul within me burning,

Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.

“Surely,” said I, “surely that is something at my window lattice;

Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore—

Let my heart be still a moment and this mystery explore;—

’Tis the wind and nothing more!”


Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,

In there stepped a stately Raven of the saintly days of yore;

Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;

But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door—

Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door

Perched, and sat, and nothing more.


Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,

By the grave and stern decorum of the countenance it wore,

“Though thy crest be shorn and shaven, thou,” I said, “art sure no craven,

Ghastly grim and ancient Raven wandering from the Nightly shore —

Tell me what thy lordly name is on the Night’s Plutonian shore!”

Quoth the Raven “Nevermore.”


Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,

Though its answer little meaning — little relevancy bore;

For we cannot help agreeing that no living human being

Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door—

Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,

With such name as “Nevermore.”


But the Raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only

That one word, as if his soul in that one word he did outpour.

Nothing farther then he uttered — not a feather then he fluttered —

Till I scarcely more than muttered “Other friends have flown before

On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before.”

Then the bird said “Nevermore.”


Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,

“Doubtless,” said I, “what it utters is its only stock and store

Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster

Followed fast and followed faster till his songs one burden bore

Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore

Of ‘Never—nevermore’.”


But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,

Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;

Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking

Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore

What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore

Meant in croaking “Nevermore.”


This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing

To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom’s core;

This and more I sat divining, with my head at ease reclining

On the cushion’s velvet lining that the lamp-light gloated o’er,

But whose velvet-violet lining with the lamp-light gloating o’er,

She shall press, ah, nevermore!


Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer

Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.

“Wretch,” I cried, “thy God hath lent thee — by these angels he hath sent thee

Respite — respite and nepenthe from thy memories of Lenore;

Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!”

Quoth the Raven “Nevermore.”


“Prophet!” said I, “thing of evil! — prophet still, if bird or devil! —

Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,

Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted —

On this home by Horror haunted—tell me truly, I implore

Is there — is there balm in Gilead? — tell me — tell me, I implore!”

Quoth the Raven “Nevermore.”


“Prophet!” said I, “thing of evil! — prophet still, if bird or devil!

By that Heaven that bends above us—by that God we both adore

Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,

It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore —

Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore.”

Quoth the Raven “Nevermore.”


“Be that word our sign of parting, bird or fiend!” I shrieked, upstarting —

“Get thee back into the tempest and the Night’s Plutonian shore!

Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!

Leave my loneliness unbroken! — quit the bust above my door!

Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!”

Quoth the Raven “Nevermore.”


And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting

On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;

And his eyes have all the seeming of a demon’s that is dreaming,

And the lamp-light o’er him streaming throws his shadow on the floor;

And my soul from out that shadow that lies floating on the floor

Shall be lifted — nevermore!



Edgar Allan Poe (1809 – 1849) foi escritor, editor e crítico literário norte-americano, melhor conhecido por seus poemas e contos macabros e de mistério; figura central do Romantismo em seu país, praticamente inventou o gênero de histórias de detetive, tendo contribuído também ao desenvolvimento da ficção científica. Órfão ainda criança, Poe foi adotado informalmente, fez os estudos primários, depois entrou para a Universidade de Virginia, desistindo do curso no ano seguinte por conta de dívidas, quando se alistou no exército dos EUA, em 1827, e no mesmo ano publicou seu primeiro livro, Tamerlane and Other Poems. Não se adequando ao regimento militar, e após as dificuldades em ser um dos primeiros escritores de seu país a tentar viver de suas obras, além de alguns empregos dos quais foi demitido por alcoolismo, Poe, aos 26 anos, casou com sua prima Virginia Clemm, de 13 anos, em 1835. Por volta de 1840, o autor planejava abrir um jornal, e em 1842 mostraram-se os primeiros sinais de tuberculose em Virginia, levando Poe ao uso excessivo de álcool. Em 29 de janeiro de 1845 foi publicado The Raven, que se tornou sensação de imediato, embora pouco lucro conferisse ao autor. Em 1846, mudou-se para o Bronx, e Virginia faleceu em 1847. Em 3 de outubro de 1849, Poe é encontrado delirante pelas ruas de Baltimore, e levado então ao hospital, onde morreu em 7 de outubro de 1849 por causas ainda incertas.


Para a língua portuguesa, The Raven recebeu dezenas de traduções, contando com Machado de Assis e Fernando Pessoa dentre os principais tradutores. Lucas Zaparolli de Agustini prepara uma Filosofia da Composição a respeito da presente tradução, publicada também pela Editora Lumme, em formato plaquete, em 2019. A principal adaptação presente nessa tradução tropical, diga-se de passagem, foi a alteração do pássaro: de Corvo passou-se à Arara por diversos motivos, dentre eles a segunda palavra ser uma onomatopeia (além de palíndromo), ou seja, reproduzir fielmente o som que a própria ave produz, ao contrário do corvo que grasna “nunca mais” nas traduções anteriores, além de ser um pássaro muito mais familiar à cultura de chegada.

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