ConfluĂȘncias estĂ©ticas e conceptuais em TAO-TE KING, de Lao Tzu, e AFORISMOS, de Bruce Lee
- REVISTA ZUNĂI
- 21 de jan. de 2023
- 13 min de leitura
JoĂŁo Valdivino Lima Ferreira

Bruce Lee em sua biblioteca particular composta por mais de 2000 livros.
RESUMO:
Artigo sobre certas confluĂȘncias estĂ©ticas e conceptuais das obras Tao-te King, de Lao Tzu (1898; 1995), e Aforismos, de Bruce Lee (apud LITTLE, 2000; 2007), em destaque, determinadas convergĂȘncias quanto Ă visĂŁo de mundo dos criadores, transposta nos escritos, e ao pendor didĂĄtico e filosĂłfico encontrado nos textos. A pesquisa evidencia algumas caracterĂsticas composicionais de fragmentos de ambos os textos, como as feiçÔes alegĂłricas, metafĂłricas e paradoxais, e o intuito condensador das estĂąncias e dos aforismos, e aponta certas intersecçÔes entre mitologia, literatura e filosofia. Nesse percurso, destaca-se o movimento de absorção e transformação realizado no procedimento composicional e reflexivo dos textos de Lee. Para realização do estudo, sĂŁo apresentados alguns tĂłpicos recorrentes das obras e sĂŁo estudadas as subdivisĂ”es âVazioâ, âWu-weiâ, âFilosofiaâ, âArteâ e âWu-hsinâ de Lee e as estĂąncias I, II, V, IX, XVI, XXIX e XLVIII, de Lao-Tzu.
Palavras-chave: Aforismos. Cosmogonia. Filosofia. Interdisciplinaridade. Literatura Comparada.
1. INTRODUĂĂO
A expressĂŁo de vĂĄrias atividades artĂsticas e filosĂłficas se articula, muitas vezes, por intermĂ©dio da intersecção entre elementos de origens, procedimentos e finalidades diversas, especialmente, se a manifestação busca se constituir de caracterĂsticas versĂĄteis e amplas. Nesse sentido, o diĂĄlogo interdisciplinar entre a filosofia e variadas formas de expressĂŁo artĂstica resulta num processo bastante enriquecedor na consecução do alargamento de horizontes, da praxe da interlocução, do acrĂ©scimo de tĂ©cnicas e da reordenação de paradigmas. Conforme disserta Benedito Nunes (2010), dentro da tradição filosĂłfica e literĂĄria sĂŁo inĂșmeros os casos de ação recĂproca entre ambos os universos, desde a presença de formas de escrita muito prĂłximas Ă literatura, como a adoção de versos e de figuras retĂłricas em textos filosĂłficos, atĂ© o exercĂcio da indagação especulativa dos limites do ser e do mundo em obras literĂĄrias. Por esse caminho, apontamos a prĂĄtica de uma parcela da tradição chinesa em realizar esse diĂĄlogo, tal qual ocorre em certas feiçÔes literĂĄrias encontradas em textos de escritores-pensadores como Lao-Tzu (1995) e Chuang Tzu (1998), vistas por intermĂ©dio da utilização de formas de expressĂŁo alegĂłricas, metafĂłricas e paradoxais, nas quais se destacam os desĂgnios cosmolĂłgicos e didĂĄticos de transmissĂŁo escrita. Por outro lado, salientamos que tal ĂȘnfase para o estudo das culturas orientais encontra eco em diversos estudos literĂĄrios e linguĂsticos sobre o assunto, como demonstra Haroldo de Campos na organização da obra Ideograma (2000).
Conforme Richard Wilhelm (1995), as poucas e principais informaçÔes acerca da controversa possibilidade de existĂȘncia de Lao Tzu se devem ao historiador chinĂȘs Si-ma TsiĂ©n (sĂ©c. II e I a. C). Lao-Tzu teria nascido no final do sĂ©culo VII a.C., provavelmente, haveria sido arquivista na corte imperial e, na sua ancianidade, deslocou-se das fronteiras chinesas, quando teria escrito a obra Tao-te king (1995, 1898). O livro Ă© dividido em duas partes principais â sentido (Tao) e vida (te) â, Ă© segmentado em 81 estĂąncias, e se insere no rol das modalidades de criação denominadas cosmogonias. AlĂ©m disso, a obra transita pela chamada poesia didĂĄtica e sua feição se aproxima do aspecto vivaz do aforismo. Segundo Bryan Van Norden (2018), destacam-se os tĂłpicos das adversidades sociais e sua solução, da mitologia, da nĂŁo-ação, do ensinamento que Ă© sem palavras, e do caminho. O caminho (Tao) Ă© apregoado na valorização do âvazioâ ou do ânadaâ, enquanto exclusĂŁo de prĂ©-determinaçÔes e apreciação da intuição, como pode ser vislumbrado nos versos (LAO-TZU, 1995, p. 87): âQuem pratica o estudo aprende mais a cada dia / Quem pratica o Tao diminui a cada dia.â. Nesse fragmento se conjectura a possibilidade de se entrever etapas de um processo dinĂąmico e contraditĂłrio de aquisição de conhecimento e de expressĂŁo do saber.
O ator, atleta, filĂłsofo e cineasta Bruce Lee (Lee Jun-fan) praticou diversas artes marciais (sobretudo as prĂĄticas chinesas como Kung Fu e Tai Chi Chuan), atuou em vĂĄrios filmes, dirigiu obras cinematogrĂĄficas e compĂŽs diferentes livros. Lee realizou em alguns de seus livros vĂĄrias articulaçÔes com a filosofia, com as artes e com o pensamento tradicional chinĂȘs, em especial, como as esferas do taoismo e do chan-budismo. Tal propĂłsito articulador muitas vezes ocorreu tambĂ©m na literatura chinesa, como por exemplo, nas obras dos poetas Li Bai, Du Fu e Wang Wei (FRĂES, 2012). AlĂ©m de apontar vĂĄrias instruçÔes sobre aquecimentos, treinos e artes marciais, a obra Tao do Jeet Kune Do (LEE, 1975; 2003) apresenta na abertura do livro um poema de autor desconhecido, denominado âUm monge taoistaâ, do qual selecionamos o trecho a seguir:
[...] A mesma brisa passa
Pelos pinheiros da montanha
E pelos carvalhos do vale;
EntĂŁo, porque produzem notas diferentes?
Nenhum pensamento, nenhuma reflexĂŁo,
Vazio perfeito,
porém, algo se move ali,
Seguindo seu prĂłprio curso [...]
(autor desconhecido apud LEE, 2003, p. 4)
A indicação do poema Ă guisa de epĂgrafe para o livro sugere um diĂĄlogo com alguns tĂłpicos do taoismo, como as noçÔes de vazio e caminho. Adiante na obra sĂŁo apresentados aforismos em que se expĂ”em assuntos relacionados a esse mesmo universo, tal qual surge neste fragmento (LEE, 2003, p.21): â[...] O vazio inclui tudo e nĂŁo possui um oposto, ou seja, nĂŁo hĂĄ nada que ele exclua ou a que se oponha. Ă um vazio vivo [...]â. De acordo com Massaud MoisĂ©s (2004), a feição da modalidade textual do aforismo percorreu variados terrenos filosĂłficos (como aqueles das obras de Pascal, Erasmo, Montesquieu, Schopenhauer e Nietzsche) e transita entre diversos caminhos argumentativos e intuitivos de formas de elocução. Esse pendor da articulação com a filosofia e com as artes Ă© desenvolvido no livro Aforismos (apud LITTLE, 2000; 2007). A obra Ă© dividida em 8 partes temĂĄticas, que totalizam o nĂșmero final de 71 subdivisĂ”es, cada qual com vĂĄrios aforismos. No livro Lee estabelece uma estĂ©tica que oscila entre faces diversas, como a percepção intuitiva, a diretriz explicativa, a linguagem figurada, a aproximação do cotidiano e o apreço Ă filosofia e Ă s artes.
Com base nas peculiaridades das modalidades textuais do aforismo e da cosmogonia e da interação das figuras do pensador e do poeta, propomos o estudo das confluĂȘncias estĂ©ticas e conceptuais nos livros Tao-te king, de Lao-Tzu (1995), e Aforismos, de Bruce Lee (apud LITTLE, 2000; 2007). Tomando como uma das vĂĄrias balizas os princĂpios advindos da impossibilidade e da necessidade de narrar proposta por Adorno (1983), da descaracterização da figura do narrador tradicional sugerida por Walter Benjamin (1994), e da interação entre texto e vida social indicada por Antonio Candido (2000) â pois, diferentemente de Lao-Tzu que se dispunha na figura de porta-voz da sociedade, Lee viveu em tempos diferentes, nos quais essa configuração se alterou â, posicionamos o estudo num cĂrculo de instigação e motivação contrastiva, pois, encontramos uma oscilação e um conjunto de condiçÔes que alternam as possibilidades de identidade e de inquietação diante desse objeto de estudo. Com o desĂgnio de concretizar uma descrição e uma problematização sobre os princĂpios cosmolĂłgicos e existenciais do taoismo (WILHELM apud LAO-TZU, 1995) e de adentrar o contorno comparatista dos trabalhos (CARVALHAL, 2001; PERRONE-MOISĂS, 1990) repercutidos nos versos e nos aforismos, propomos a reflexĂŁo e a crĂtica sobre a ação desses tĂłpicos no feitio literĂĄrio e na abrangĂȘncia filosĂłfica. Ou seja, em nĂvel literĂĄrio, a partir da constatação dessa recorrĂȘncia efetivar proposiçÔes sobre como se dĂĄ o aprofundamento do carĂĄter paradoxalmente enigmĂĄtico e impactante dos enunciados, especialmente, os processos metafĂłricos de composição (MOISĂS, 2004); e, em nĂvel filosĂłfico, as maneiras de ocorrer o desdobramento da compreensĂŁo de vida e de mundo pela apresentação dos obstĂĄculos e dos empecilhos como afirmação das feiçÔes contraditĂłrias da existĂȘncia, em que escritores e filĂłsofos pensam problemas universais (NUNES, 2010; NOVAES, 2005).
2. ĂMBITO COMPARATIVO
As estĂąncias I, II, V, IX, XVI, XXIX e XLVIII da obra Tao-te King, de Lao-Tzu (1898; 1995), e as subdivisĂ”es âVazioâ, âWu-weiâ, âFilosofiaâ, âArteâ, âWu-hsinâ, âTaoâ do livro Aforismos, de Bruce Lee (2000; 2007), permitem uma ilustração prĂ©via de uma pesquisa em alguns Ăąngulos de estudo (composicional, reflexivo e comparativo) acerca de determinadas aproximaçÔes entre ambos criadores. Essas aproximaçÔes se efetuam no campo da chamada interdisciplinaridade, uma forma de relação apontada por TĂąnia Franco Carvalhal acerca dos estudos entre diferentes ramos dos saberes (CARVALHAL, 2001, p. 74): âEsses trabalhos expressam a tendĂȘncia comum de ultrapassar fronteiras, sejam elas nacionais, artĂsticas ou intelectuais, mas igualmente de explorar o imbricamento com outras formas de expressĂŁo artĂstica e outras formas de conhecimento.â. Assim, os estudos que se situam nessa intersecção buscam ampliar o leque de apreciaçÔes sobre determinados tĂłpicos. De outra parte, internamente nas obras de ambos os escritores dĂĄ-se tambĂ©m uma justaposição de elementos advindos de diversas procedĂȘncias, conforme destaca Julia Kristeva sobre a intertextualidade (KRISTEVA, 1974, p.64): â[...] todo texto se constrĂłi como mosaico de citaçÔes, todo texto Ă© absorção e transformação de um outro texto.â. Nesse sentido, os livros de Lee (2007) e de Lao-Tzu (1995) compĂ”em-se de presenças implĂcitas e explĂcitas de vĂĄrios autores e vĂĄrios universos, prĂłprios Ă construção de cada um dos textos. Em Lee, para ilustrar, hĂĄ mençÔes de figuras mitolĂłgicas (como Kwan-yin), e citaçÔes de fragmentos de filĂłsofos (como Alan Watts). De outra parte, Lee executa um processo de seleção de textos dos seus antecessores e de renovação de si mesmo, movimento esse muito prĂłximo ao que designa Leyla Perrone-MoisĂ©s a respeito de antropofagia (PERRONE-MOISĂS, 1990, p.95): â[...] Ă© antes de tudo o desejo do Outro, a abertura e a receptividade para o alheio, desembocando na devoração e na absorção da alteridadeâ.
Na obra Tao do Jeet Kune Do, Bruce Lee (2003) sinaliza um modo de fazer inerente a ele que no inĂcio do livro Ă© estendido como forma de convite tambĂ©m aos leitores (LEE, 2003, p.5): âEste livro Ă© dedicado ao artista marcial livre e criativo. Aproveite o que lhe for Ăștil e se desenvolva a partir disso.â (LEE, 2003, p. 5). Pois, Lee dimensiona e se dispĂ”e numa realidade em que se dificulta ou se impossibilita a comunhĂŁo da universalidade das experiĂȘncias e da descaracterização da figura do narrador tradicional (ADORNO, 1983; BENJAMIN, 1994). Tal impasse Ă© expresso no livro Aforismos (LEE apud LITTLE, 2007, p. 111), por exemplo, no seguinte trecho: âA arte Ă© um meio de adquirir liberdade pessoal â A arte, no final das contas, Ă© um meio de adquirir liberdade âpessoalâ. O seu caminho nĂŁo Ă© o meu caminho, nem o meu Ă© o seuâ. Assim, diferentemente de Lao-Tzu que se coloca como um porta-voz da sociedade chinesa ancestral, Lee necessita lidar com o aprofundamento das contradiçÔes sociais e econĂŽmicas.
As estĂąncias de Lao-Tzu (1995) selecionadas para este trabalho (I, II, V, IX, XVI, XXIX e XLVIII) repercutem uma gama temĂĄtica de itens bastante ampla, dentre os quais, destacamos: a eleição do propĂłsito didĂĄtico e pedagĂłgico; o realce da especulação existencial e filosĂłfica; o desĂgnio de explicação da origem e atividade do universo; a eleição de determinados modos de percepção da vida e dos costumes; a indicação de formas de interpretação dos fenĂŽmenos; a sugestĂŁo de determinadas maneiras de conduta da figura do sĂĄbio; a designação da possibilidade da unidade das contradiçÔes da vida; a caracterização das amplitudes semĂąnticas e filosĂłficas da palavra Tao; a predileção pela vida simples e desafetada; a propensĂŁo pela preconização da importĂąncia do ânadaâ e do âvazioâ na unidade e na circularidade do todo; a inclinação pela busca do estado de serenidade; a preferĂȘncia pela poĂ©tica do âmenosâ, e a predileção da adoção da conduta social mediana a fim de evitar os desequilĂbrios. Para isso, Lao-Tzu adota em suas composiçÔes certas elaboraçÔes criativas de carĂĄter comparativo, metafĂłrico, alegĂłrico, paradoxal, antitĂ©tico, antinĂŽmico e contraditĂłrio, como no fragmento a seguir, em que estabelece um parĂąmetro de criação (LAO-TZU, 1995, p. 117): âAs palavras verdadeiras parecem paradoxaisâ. As estĂąncias as quais apresentem um arranjo de predomĂnio paradoxal, antitĂ©tico, antinĂŽmico e contraditĂłrio buscam expor a possibilidade de se evidenciar compositivamente que as contradiçÔes sĂŁo apenas temporariamente provisĂłrias, como, por exemplo, no seguinte trecho:
[...]
Assim também o Såbio:
permanece na ação sem agir,
ensina sem nada dizer.
A todos os seres que o procuram
ele nĂŁo nega.
Ele cria, e ainda assim nada tem.
Age e nĂŁo guarda coisa alguma.
Realiza a obra,
nĂŁo se apega a ela.
E, justamente por nĂŁo se apegar,
nĂŁo Ă© abandonado.
(LAO-TZU, 1995, p.38)
JĂĄ as estĂąncias que exponham uma disposição de preponderĂąncia comparativa, metafĂłrica e alegĂłrica visam estabelecer na referĂȘncia concreta â em detrimento da explicação abstrata â uma forma mais precisa e mais abundante de âverdadeâ. A tĂtulo de exemplo, dispomos a estĂąncia V:
Céu e Terra não são bondosos.
Para eles, os homens sĂŁo como cĂŁes de palha,
destinados ao sacrifĂcio.
O SĂĄbio nĂŁo Ă© bondoso.
Para ele os homens sĂŁo como cĂŁes de palha, destinados ao sacrifĂcio.
O espaço entre o Céu e a Terra
Ă© como uma flauta:
vazia, ainda assim, inexaurĂvel;
soprada, mais e mais sons produz.
Porém palavras em demasia se esgotam ao serem proferidas.
O melhor é guardar o que estå no coração.
(LAO-TZU, 1995, p.41)
As subdivisĂ”es do livro Aforismos, de Bruce Lee (2000; 2007), propostas para este estudo (âVazioâ, âWu-weiâ, âFilosofiaâ, âArteâ, âWu-hsinâ, âTaoâ), expressam algumas proximidades quanto ao teor dos textos. Nesses 70 aforismos que compĂ”em esses seis segmentos, Lee oscila entre a expressĂŁo de tĂłpicos taoistas acerca do âvazioâ e uma leitura prĂłpria acerca do âvazioâ; situa certas potencialidades sobre o Wu-wei (Ação natural) e enfatiza algumas orientaçÔes sobre respostas fundamentais ao ambiente externo Ă s pessoas; destaca a importĂąncia da filosofia quanto Ă s habilidades que possibilita, ressalta a necessidade de relacionĂĄ-la Ă vivĂȘncia e aponta algumas contradiçÔes em certas correntes filosĂłficas; aponta a sua visĂŁo a respeito das peculiaridades e finalidades da arte e indica as suas propostas de diretrizes artĂsticas; estabelece certos parĂąmetros para o Wu-hsin (NĂŁo-intelecto), como a naturalidade dos pensamentos e a desobstrução dos sentimentos, nos quais preconiza a aspiração a um tipo de visĂŁo sem sujeito e objeto, desprendida do ego; por fim, Lee sinaliza diferentes concepçÔes acerca do Tao, em que delimita os escritos de ConfĂșcio como definidores mais especĂficos do taoismo, alĂ©m disso, Lee exprime a rotatividade e a relatividade dos princĂpios Yin e Yang e o valor da delicadeza, encerrando esse tĂłpico ao expressar a falta de uma palavra equivalente para traduzir o Tao, encontrando apenas a palavra âverdadeâ, a qual Ă© ainda de mais problemĂĄtica definição.
Esses segmentos revelam tambĂ©m certas similaridades composicionais com as estĂąncias escolhidas de Lao-Tzu neste trabalho, no sentido de reverberarem um modus operandi muito prĂłximo da maneira de realizar composiçÔes. Assim como Lao-Tzu, Lee tambĂ©m expressa nas criaçÔes de predominĂąncia paradoxal, antitĂ©tico, antinĂŽmico e contraditĂłrio a exposição de uma relatividade ou de uma contingĂȘncia das contradiçÔes, como podemos observar no seguinte fragmento (LEE, 2007, p. 109): âA arte Ă© a expressĂŁo da natureza e da vida expressa pelo artista que, por ter total controle da tĂ©cnica, estĂĄ livre dela.â. Dessa operação chegamos a um dos preceitos de Lee para a composição artĂstica, tambĂ©m pela via da contradição aparente (LEE, 2007, p. 109): âA arte que nĂŁo parece arte Ă© a arte perfeita â A perfeição da arte estĂĄ em ocultar a arteâ.
De maneira semelhante, Lee cultiva nos aforismos de primazia comparativa, metafĂłrica e alegĂłrica o estabelecimento da preferĂȘncia pela indicação o mais concreta possĂvel, por exemplo, neste trecho (LEE, 2007, p. 127): â[...] NĂŁo-intelecto Ă© utilizar a mente toda como usamos os olhos quando os dirigimos a vĂĄrios objetos sem nenhum esforço, sem nos fixarmos em nenhum deles.â. Tal predileção leva a apontar nas propostas de Lee a sugestĂŁo de uma perda de energia proveniente da superestima da racionalização no ser humano (Lee, 2007, p. 110): âO aspecto imediato na arte â Se pudĂ©ssemos pintar diretamente com os olhos! No longo do caminho que sai do olho, passa pelo braço e vai atĂ© o lĂĄpis, quanta coisa se perde!â. Assim, em Lee, essas duas operaçÔes composicionais se associam (ou derivam dos) aos tĂłpicos taoistas da Ação natural (Wu-wei) e do NĂŁo-intelecto (Wu-hsin).
A combinação dessas duas operaçÔes composicionais nas criaçÔes de Lao-Tzu e de Bruce Lee podem ser vistas na EstĂąncia I e no aforismo âUnir-se ao Tao â uma experiĂȘncia pessoalâ, respectivamente, nos quais a tese de unidade de opostos busca apresentar a uma possibilidade de efetivação. Começamos pela estĂąncia de Lao-Tzu:
O Tao que pode ser pronunciado
nĂŁo Ă© o Tao eterno.
O nome que pode ser proferido
nĂŁo Ă© o nome eterno.
Ao princĂpio do CĂ©u e da Terra chamo âNĂŁo-serâ.
Ă mĂŁe dos seres individuais chamo âSerâ.
Dirigir-se para o âNĂŁo-serâ, leva
à contemplação das limitaçÔes espaciais.
Pela origem, ambos sĂŁo uma coisa sĂł,
diferindo apenas no nome.
Em sua Unidade, esse Um é mistério.
O mistério dos mistérios
Ă© o portal por onde entram as maravilhas.
(LAO-TZU, 1995, p.37).
Nessa estĂąncia Lao-Tzu levanta a perspectiva da busca da unidade dos contrĂĄrios (âNĂŁo-serâ e âSerâ) e sinaliza no adiamento da determinação das oposiçÔes a emergĂȘncia da compreensĂŁo e da incorporação. Inicialmente, de maneira alegĂłrica, e, depois, de forma abstrata, Lee realiza essa operação de combinação de aspectos metafĂłricos e antitĂ©ticos no aforismo a seguir:
Unir-se ao Tao â uma experiĂȘncia pessoal â Deitei no bote e senti que havia me unificado com o Tao: havia me tornado uno com a natureza. Simplesmente fiquei deitado e deixei o bote deslizar livremente de acordo com sua vontade. Naquele momento havia atingido um sentimento interno no qual a oposição tinha se tornado mutuamente cooperativa, em vez de mutuamente exclusiva, um estado no qual nĂŁo mais existia conflito algum em minha mente. O mundo todo para mim era unitĂĄrio. (LEE, 2007, p. 163).
No aforismo Lee realiza dois movimentos: um de Ăndole figurada e outro de carĂĄter abstrato. No andamento figurado expĂ”e-se na construção comparativa um reforço e um contraste, por meio do ato de entrega junto ao percurso do bote em ação junto Ă s correntezas imprevisĂveis da ĂĄgua. JĂĄ no andamento abstrato, Lee sintetiza conceitualmente o que supostamente seria contraditĂłrio, e, estabelece um Ă©thos filosĂłfico, funcional e vivencial.
3. CONSIDERAĂĂES FINAIS
A abrangĂȘncia deste artigo se dimensionou pela atuação em distintas frentes de trabalho acadĂȘmico. Com o intuito de ampliação dos debates teĂłricos e crĂticos, inicialmente, esta pesquisa almejou uma apresentação dos universos da cosmogonia dos versos de Lao-Tzu e da coletĂąnea de aforismos de Bruce Lee, mostrando-os pela dupla face de pensadores e escritores. Adiante, este estudo situou o trabalho na zona de intersecção dos saberes, por meio de associaçÔes com as atividades realizadas pela literatura comparada e pela interdisciplinaridade. Por Ășltimo, este artigo efetuou uma comparação entre trechos dos escritos de Lao-Tzu e de Lee, evidenciando aspectos relacionados ao teor das obras e a algumas operaçÔes composicionais.
O estudo possibilitou a apresentação de certa sobreposição das diretrizes dos textos (cosmolĂłgica, existencial, didĂĄtica), e buscou uma discussĂŁo sobre o carĂĄter interdisciplinar das atividades de ensino e de pesquisa, tentando levar a uma perspectiva integradora e de viĂ©s independente voltada ao encontro entre os ramos dos saberes, pois esses textos discorrem sobre intersecçÔes amplas como, por exemplo, a interação entre instĂąncias de poder e efetivação da linguagem. Nesse caminho, o trabalho pretendeu discutir em quais prismas se deu uma ampliação das possibilidades de incidĂȘncia artĂstico-filosĂłfica.
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