ASIYA ZAHOOR por Mauricio Vieira

Atualizado: Jan 24

TRADUÇÃO VOLUME 5 NÚMERO 1


HISTÓRIA DE UM VELHO CHINAR,

O PLÁTANO DA CACHEMIRA,

APAIXONADO POR UMA MENINA


Tenho visto seus olhos buscando minha sombra verde

no verão quando os alces emergem da floresta


A menina oculta no oco de meu ventre, no papel de

Zooni ansiando por Yusuf. Fui do verde


ao vermelho ao amarelo ao marrom ao açafrão em chamas

enquanto ela aguardando seu amor folheou estações.


Gargalhadas ao brincar de lakad lakad:

canções de ninar nascidas sob meus galhos—tantas


histórias de infância. Agora mulher curvada,

pele enrugada como o primeiro rascunho de um poema


descartado como reflexão posterior, espiou pela janela o pai,

que descanse em paz, rufando com as mãos pele de ovelha


esticada na boca do longo tambor de barro:

‘Em Farsi, Che significa Que. Nar é Fogo. Chenar


Chinar – Que Fogo –a quem pertence o som?

Eu, lendário fogo. Chinar.’


Seu sorriso amolecia rugas. Fiquei enciumado

quando beijou seu amado sob meus galhos.


Roubei sua sombra, ocultei-a no meu bojo

decidido a nunca mais a devolver.


Agora, ela a procura por toda parte. Enraivecida

quer me queimar – como ousa!


Sou a memória invisível de suspiros, de beijos

furtivos. Sou ou não um elo com os fios de seda


que ela atou às tulipas de madeira em templos Sufi?

Não queimariam comigo fios oníricos?


Desapareceria ou não o travo dos beijos?

Sei que persigo o surreal, sonhando


a estranha consumação de uma menina por um velho Chinar sombrio.

Estou montando guarda no arqueado paraíso


enquanto a História desdentada ronca sob minha sombra.

As raízes da minha história estão na Cachemira.


A história da Cachemira nas minhas raízes.

O sol acaricia meus galhos. Oferto ao sol


Minhas mechas douradas. Muitos vagam à minha volta:

Quem gravou ‘AMNESIA’ no meu tronco?


Lentamente os cortes saram. Árvores não se recordam

de suas raízes. Feridas abertas libertam faíscas,


provocam Zooni a cantar gazals apaixonados.

Entoo a nênia para seu idioma cujas letras


foram escravizadas, papel arrancado da árvore ofendida.

Jhelum lança suas ondas contra embarcadouros,


Rompe as margens para afogar Srinagar no Dilúvio

do Século a cada três décadas.


Remadores impulsionam românticos shikaras,

remos com formato de coração ondulam a lua cheia.


O anelamento descarta a memória. Os homens não podem ser

meus heróis. Meu perigo não incita bravura.


Aguardo homens com motosserras para me degolar.

Ah, a inutilidade da violência—um Chinar


acéfalo ainda diz, RESISTENCIA.

Estar ereto é meu dharma. Uma vez abundante,


Agora sou Propriedade Registada do Estado.

Uma floresta rodopia. O vento acalma rochedos montanhosos.


Sob um céu de chumbo, uma pedra se dispara

cruza picos de turbante branco, cruza feridas


purulentas em toco após toco após toco amputado

ricochetando nos capacetes de coturnos que marcham


impulsivamente em fila indiana sobre a firmeza de seios murchados.

A partir da Árvore da Vida, adeus a uma vida.


Chinar, febre e cura. Che-Naar, Che-Naaar.

Que fogo é este? A quem pertence? O Fogo é.



STORY OF A GRAND PLD CHINAR,

KASHIMIR’S PLANE TREE,

IN LOVE WITH A YOUNG GIRL


I have seen her eyes searching my green shade

in summer when elks emerge from the forest,


the girl hid in the hollow of my womb, playing

Zooni yearning for Yusuf. I turned green


to red to yellow to brown to saffron on fire

as she flicked seasons waiting for her love.


Peals of laughter playing lakad lakad:

lullabies born under my branches –so


many stories of childhood. Now a bent woman,

flesh crumpled like the first draft of a poem


discarded as an afterthought, peeked through

windows at her father,


peace be upon him, pounding with bare hands

sheepskin stretched across


the belly of long-necked clay tumbakner: ‘In

Farsi, Che is What, Nar Fire—Chenar


Chinar—what Fire—whose lilt?

I, proverbial fire. Chinar.’


Her smile softened furrows. I was a tad jealous

as she kissed her lover under my branches.


I stole her shadow, hid it deep within me,

resolved never to give it back.


Now, she looks for it everywhere. Enraged,

she wants to burn me down—how dare she!


I am the invisible memory of sighs, of truant

liplocks. Am I not a link to silk threads


she tied to wooden tulips at Sufi shrines?

Will not dream threads burn down with me? Will not


the after taste of kisses vanish? I know

I’m stalking the surreal, dreaming


of an odd consummation of a young girl

by a shady old Chinar.


I am keeping watch at the arched paradise

while toothless History snores under my shade.


The roots of my history are in Kashmir.

The history of Kashmir is in my roots.


The sun caresses my branches. I give

the sun my golden streaks. Many loiter by me:


So, who has carved ‘AMNESIA’ on my bark?

Leisurely notches heal. Trees don’t remember


their roots. Open wounds free sparks, stirring

Zooni to sing loll ghazals. I hum


the dirge for your language whose letters

were enslaved, paper having left the tree


in a pique. Jhelum flings her waves at piers,

breaks banks to drown Srinagar in the Flood


of the Century every three decades.

Shikara wallahs row amorous shikaras,


heart-shaped oars undulate a full moon.

I shed memory girdling. Men can’t be


my saviours. My distress won’t bestow daring.

I await men with chainsaws to behead me.


Oh! the vainness of violence—a headless

Chinar still says, RESISTANCE.


Standing tall is my dharma. Once bountiful,

I am now Registered State Property.


A forest swirls. Wind calms mountain crags.

Under a gunmetal sky, a stone pelts itself


across white-turbaned peaks, across festering

wounds of amputated stump after stump


after stump, ricocheting on helmets

of jack-boots who troop brashly in single file


on the firmness of shrivelled breasts.

From the Tree of Life, goodbye to a life.


Chinar, fever and cure. Che-Naar, Che-Naaar.

What fire is this? Whose fire is that? Fire is.



Fala a Amendoeira Insone


Florações

Trazendo sua promessa fedem igual mato molhado.

Mutucas circundam minha cabeça.

Mulheres me contornam rumo

ao Hospital Psiquiátrico morro acima.

“Pétalas caem da amendoeira,” cantam,

“espalhando à volta a loucura.”

Não consigo respirar, tudo é chuvisco e umidade.

Ligue pro jardineiro, por favor.

Diga a ele para arar o solo sobre meus pés.

Diga a ele que estou doente. Não consigo balançar.

Minhas raízes apegam-se ao perfume evanescente de primaveras passadas.

Por que me fazer esperar tanto?

Por favor não me deixe regredir.

Eu disse que minhas feridas irão enferrujar

Se expostas por demasiado ao ar.

Querido Jardineiro, espero que logo regresses.

Vou comparar minha memória à sua.

Fiquei acordado todo esse tempo

Para abrigar a história de sua floração.



Insomniac Almond Tree Speaks


Blooms

Bringing your promise stink like dank weeds.

Horseflies circle my head.

Women bypass me on their way

to the Psychiatrist Hospital further up the hill.

« Petals fall from almond trees, » they sing,

« spreading madness all around. »

I can’t breathe, it’s all drizzly and damp.

Ring the gardener, please.

Tell him to plough the soil over my feet.

Tell him I’m sick. I can’t sway.

My roots cling to the fading scent of springs past.

Why keep me waiting long ?

Please don’t let me regress.

Didn’t I tell you my wounds will rust

if exposed for long to air.

Dear Gardener, I hope you will return soon.

I’ll match my memory against yours.

I stayed awake all this while

to shelter the story of your blossoms.


Medusa de Burca


Corro com o véu cerrado entre os dentes

enquanto seus farejadores de bombas latem para mim


Sobrevoo o céu em sandálias aladas

mastigando neoliberalismo de um pacote de batata frita.


Helicópteros espalham civilização sobre minha cabeça.

Você mira minha burca com armas inteligentes


mas não ousa me olhar nos olhos

pois vou transformar você em pedra.


Sou uma Medusa do Milênio

serpentes sob meu véu



Medusa in a Burkha


I run with the hem clenched between my teeth

as your bomb-sniffing dogs bark at me


I sail on winged sandals across a sky

munching neo-liberalism from a packet of chips.


Helicopters fan civilisation on my head.

You stamp my Burkha on smart guns


but dare not look into my eyes

for I will turn you into a stone.


I am a Millennial Medusa

serpents under my veil.


Leveza do Ser numa Região Insustentavelmente Militarizada


antes que estiquem arame farpado

à volta de nossas línguas

cantemos a floração das amendoeiras


antes que martelem nossas cabeças

para colher pensamentos pensemos

o que queiramos pensar


antes que cerquem nosso sono

sussurremos sonhos

dentro de ouvidos cruéis e frios


antes que nos ceguem

com rajadas de chumbo

espelhemos nossa escuridão


gravemos esta história

com pontas de dedos sobre palmas

antes que apaguem nossas palavras



Lightness of Being in a Heavily Militarised Zone


before they lay barbed wire

across our tongues

let’s sing of almond blossoms


before they hammer our heads to

harvest thoughts let’s think

what we want to think


before they wall our sleep

let’s whisper dreams

into cold cruel ears


before they blind us

with a burst of lead

let’s mirror our darkness


let’s engrave this story

with fingertips on palms

before they erase our words




Tadução: Mauricio Vieira


Asiya Zahoor é poeta, linguista, cineasta e professora. Estudou psicolinguística em Oxford e literatura da diáspora do Caribe na Universidade da Cachemira. Autora de livros, artigos e poemas sobre a política do lugar, da diáspora, do exílio, a identidade muçulmana e a psicologia do aprendizado de idiomas. Seu filme The Stitch foi premiado e exibido em diversos festivais de prestígio ao redor do mundo. Leciona atualmente literatura numa faculdade na Cachemira.

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