A POESIA REBELDE DE NAMDEO DHASAL por Francis Kurkievicz



Gosto de me descobrir. Fico feliz quando escrevo um poema e fico feliz quando estou liderando um protesto de prostitutas que lutam por seus direitos.

Namdeo Dhasal



O DIA EM QUE ELA SE FOI


O dia em que ela se foi,

Pintei meu rosto de preto.

Dei um tapa forte no rosto selvagem esquizofrênico do vento.

Peguei pequenos pedaços da minha vida

E fiquei nu na frente de um espelho rachado.

Permiti que eu me vingasse de mim mesmo.

Olhei condescendente para o Sol e disse: 'Seu maluco!'

Derramei maldições preferidas sobre todos os artistas que pintam sonhos;

Caminhei do Leste para o Oeste;

Peguei pedras no caminho e as atirei em mim,

Como essa água flui ruidosamente em seu ataque de riso

Por montanhas e desfiladeiros,

Que oceano ele está procurando encontrar?

Ou vai vazar

No solo ao nível do mar?

Eu mesmo pertenço a mim?

Eu não pude nem abraçar seu cadáver

E chora meu coração.

O dia em que ela se foi,

Pintei meu rosto de preto.



THE DAY SHE WAS GONE


The day she was gone,

I painted my face black.

I slapped the savage schizophrenic wind hard in its face.

I picked up small pieces of my life

And stood naked in front of a cracked mirror.

I allowed me to wreak vengeance upon myself.

I stared condescendingly at the Sun and said, 'You screwball!'

I showered choice curses upon all artists who paint dreams;

I walked from the East towards the West;

I picked stones I found on the way and hurled them at myself,

How boisterously flows this water in its fit of laughter

Through mountains and gorges.

What ocean is it seeking to meet?

Or will it seep

Into the soil at sea-level?

Did even I belong to myself?

I could not even embrace her dead body

And cry my heart out.

The day she was gone,

I painted my face black.





CRUELDADE


Sou uma ferida venérea no íntimo da linguagem.

O espírito vivo olhando para fora

de centenas de milhares de olhos tristes e lamentáveis

Abalou-me.

Estou estilhaçado pela revolta explodindo dentro de mim.

Não há luar em lugar nenhum;

Não há água em lugar algum.

Uma raposa raivosa está rasgando minha carne com os dentes;

E uma terrível crueldade parecida com veneno

Alastra-se pelo meu esqueleto de macaco.


Liberte-me de minha identidade infernal.

Deixe-me apaixonar por essas estrelas.

Uma violeta em flor começou a rastejar em direção aos horizontes.

Um oásis está brotando de um rosto fendido.

Um ciclone está girando em vulvas irredutíveis.

Um gato começou a pentear os cabelos da agonia.

A noite criou espaço para minha raiva.

Um cachorro de rua começou a dançar no olho da janela.

O bico de um avestruz começou a perfurar o lixo.

Uma cenoura egípcia está começando a saborear a realidade física.

Um poema está despertando um cadáver de seu túmulo.

As portas do ser estão sendo fechadas rapidamente.

Há uma corrente de sangue fluindo por todos os pronomes agora.

Meu dia está subindo além da parede da gramática.

A merda de Deus cai no leito da criação.

Pain e roti estão sendo assados ​​na mesma fogueira do tandoor.

A chama do sem roupa habita nas mitologias e no folclore.

A rocha da putaria é encontrar raízes vivas;

Um suspiro está de pé sobre as pernas aleijadas;

Satanás começou a tamborilar no extenso vazio.

Uma tenra folha verde está começando a bater na porta do desejo.

O cadáver da frustração está sendo costurado.

Uma musa psicopata está dando um empurrão na estátua da eternidade.

A poeira começa a lacerar a armadura.

O turbante da escuridão está saindo.

Você abra os olhos: todas essas são palavras antigas.

O riacho está ficando cheio com a maré alta;

As ondas estão tocando a costa.


No entanto, uma crueldade semelhante ao veneno se espraia pelo meu esqueleto de macaco.


É claro e límpido: como as águas do rio Narmada.



CRUELTY


I am a venereal sore in the private part of language.

The living spirit looking out

of hundreds of thousands of sad, pitiful eyes

Has shaken me.

I am broken by the revolt exploding inside me.

There's no moonlight anywhere;

There's no water anywhere.

A rabid fox is tearing off my flesh with its teeth;

And a terrible venom-like cruelty

Spreads out from my monkey-bone.


Release me from my infernal identity.

Let me fall in love with these stars.

A flowering violet has begun to crawl towards horizons.

An oasis is welling up on a cracked face.

A cyclone is swirling in irreducible vulvas.

A cat has commenced combing the hairs of agony.

The night has created space for my rage.

A stray dog has started dancing in the window's eye.

The beak of an ostrich has begun to break open junk.

An Egyptian carrot is starting to savour physical reality.

A poem is arousing a corpse from its grave.

The doors of the self are being swiftly slammed shut.

There's a current of blood flowing through all pronouns now.

My day is rising beyond the wall of grammar.

God's shit falls on the bed of creation.

Pain and roti are being roasted in the same tandoor's fire.

The flame of the clothless dwells in mythologies and folklore.

The rock of whoring is meeting live roots;

A sigh is standing up on lame legs;

Satan has started drumming the long hollowness.

A young green leaf is beginning to swing at the door of desire.

Frustration's corpse is being sewn up.

A psychopathic muse is giving a shove to the statue of eternity.

Dust begins to peel armour.

The turban of darkness is coming off.

You, open your eyes: all these are old words.

The creek is getting filled with a rising tide;

Breakers are touching the shoreline.


Yet, a venom-like cruelty spreads out from my monkey-bone.


It's clear and limpid: like the waters of the Narmada river.




NOVA DELI, 1985


A agulha sonda a artéria;

Inimigos da poesia se reúnem em sua cidade.


Sua cidade está condenada pelo poder;

Rosas manam neste fluxo de sangue;

Estão expostas as águas do seu Yamuna.


Portão da Índia:

Ali, o Rashtrapati Bhavan.

Quão impiedosamente esta cidade foi escovada e arrumada!

Elefantes brancos oscilam no portão do passado.

Ourives plasmam réplicas de pavões.

Sua glória bem-realizada.

Longos tapetes da Caxemira são deitados em suas ruas.

Regimentos armados em alerta;

O prurido vistoso da cultura;

Cortejar convidados, dançar diante deles;

Cavalaria desfilando;

Armas antiaéreas;

Mísseis nucleares impondo temor aos inimigos;

O Presidente aceita a saudação daqueles que estão pendentes entre o céu e a terra;

O primeiro-ministro apertando as mãos

Com a desonra glorificada.

Bravo!

Que solenidade espetacular.



NOVA DHELI 1985


The needle probes for the artery;

Enemies of poetry gather in your city.


Your town is cursed with power;

Roses flow in this stream of blood;

The waters of your Yamuna stand exposed.


India Gate:

Over there, the Rashtrapati Bhavan.

How ruthlessly has this city been combed and groomed!

White elephants sway at the gate of the past.

Goldsmiths mould replicas of peacocks.

Your well-carpentered glory.

Long Kashmiri carpets are rolled out in your streets.

Armed regiments on alert;

The showy itch of culture;

Wooing guests, dancing before them;

Parading cavalry;

Anti-aircraft guns;

Nuclear missiles to frighten off enemies;

The President accepting a salute from those hanging between the sky and the earth;

The Prime Minister shaking hands

With the glorified blemished.

Bravo!

What a spectacular festival.




KAMATIPURA


O porco-espinho noturno reclina aqui

Como um sedutor buquê gris

Trajando as feridas sifilíticas de séculos

Afastando o calendário para longe,

Para sempre sumido nos próprios sonhos.


O ​​homem perdeu seu verbo

Seu deus é um esqueleto cagado,

Será que esse vazio alguma vez encontrará uma voz, se tornará uma voz?


Se quiser, fique de olho nele para saber,

Se houver uma lágrima, retenha-guarde também,

Basta olhar para sua forma sedutora, qualquer um enlouquece;

O porco-espinho acorda com um sobressalto,

Com suas cerdas afiadas ameaçam você

Fere você por toda parte, e mais e mais,

À medida que a noite se prepara para seu noivo, as feridas começam a florescer

Oceanos infindáveis ​​de flores desabrocham,

Pavões dançam e fodem continuamente.


Isso é o inferno

Um vórtice vertiginoso

Uma agonia abissal

É a dor usando guizos de uma dançarina.


Tire sua pele, troque sua pele desde as entranhas

Esfole-se,

Deixe esse útero eterno tóxico se desencarnar.

Não deixe que deste naco entorpecido de carne germine membros,

Prove isto:

Cianeto de potássio!

Enquanto você morre na fração infinitesimal de um segundo,

Escreva os pequenos 's' que estão sendo escasseados para sempre.


Aqui se amontoam aqueles que querem provar

o sabor doce ou salgado do veneno.

A morte se junta aqui, como as palavras,

Em apenas um minuto, começará a se derramar.


Ó Kamatipura! Enfiando

todas as estações debaixo da axila!

Você chafurda na lama aqui

vou além de todos os prazeres e sofrimentos da putaria

e espero que seu lótus floresça.

— Um lótus no lodo.



KAMATIPURA


The nocturnal porcupine reclines here

Like an alluring grey bouquet

Wearing the syphilitic sores of centuries

Pushing the calendar away

Forever lost in its own dreams


Man's lost his speech

His god's a shitting skeleton

Will this void ever find a voice, become a voice?


If you wish, keep an iron eye on it to watch

If there's a tear in it, freeze it and save it too

Just looking at its alluring form, one goes berserk

The porcupine wakes up with a start

Attacks you with its sharp aroused bristles

Wounds you all over, through and through

As the night gets ready for its bridegroom, wounds begin to blossom

Unending oceans of flowers roll out

Peacocks continually dance and mate


This is hell

This is a swirling vortex

This is an ugly agony

This is pain wearing a dancer's anklets


Shed your skin, shed your skin from its very roots

Skin yourself

Let these poisoned everlasting wombs become disembodied.

Let not this numbed ball of flesh sprout limbs

Taste this

Potassium cyanide!

As you die at the infinitesimal fraction of a second,

Write down the small ‘s' that's being forever lowered.


Here queue up they who want to taste

Poison's sweet or salt flavour

Death gathers here, as do words,

In just a minute, it will start pouring here.


O Kamatipura,

Tucking all seasons under your armpit

You squat in the mud here

I go beyond all the pleasures and pains of whoring and wait

For your lotus to bloom.

— A lotus in the mud.




ESPECULAÇÕES SOBRE UMA CAMISA


Atravessando um período de doloroso jogo de amor,

Vamos recusar o jardim tradicional de todos os costumes.


Vamos remover o sexo de Eva!

Vamos emprenhar Adão!

Especulemos para além das ansiedades animalescas.

O atoleiro do inferno!

A Lua trampa como um cafetão

Na história das conexões humanas.

O touro da paixão sexual rumina

Numa charneca desencarnada.

Navegamos em um navio a pique

E nos transformamos em selvagens.

Mesmo o simples cravo queima a nossa língua;

E tememos a luz!

É assim que a libertação pune o ser humano.


Um ser humano não deveria ser tão impoluto.

Deve-se deixar algumas manchas na camisa.

Deve-se trazer consigo um pouco de pecado.



SPECULATIONS ON A SHIRT


Crossing over a period of painful love-play,

Let's reject the traditional garden of conventions.


Let's change the sex of Eve.

Let's make Adam pregnant.

Let's speculate beyond animal anxieties.

Hell's quagmire.

The Moon acts like a pimp

In the history of human bonds.

The bull of sexual passion masticates

On a disembodied heath.

We sail in a sinking ship

And turn into savages.

Even just plain cloves burn our tongue;

And we are afraid of light.

This is how liberation itself punishes a human being.


A human being shouldn't become so spotless.

One should leave a few stains on one's shirt.

One should carry on oneself a little bit of sin.





Namdeo Dhasal foi um notório poeta, escritor, colunista de jornal, editor e ativista dos direitos humanos, de língua marathi, nascido em 15 de fevereiro de 1949, em Puna, estado de Maharashtra, Índia. Pertencente a uma família da casta Dalit [intocáveis] viveu sua infância no bairro Golpitha, um distrito da luz vermelha em Mumbai, onde cresceu na extrema pobreza, convivendo com a prostituição e a violência, experimentando a dura realidade dos excluídos. Como ativista fundou em 1972 o Dalit Panther, organização militante radical dedicada aos direitos da sua casta. No ano seguinte, publicou seu primeiro volume de poesia, Golpitha. Namdeo Dhasal é o mais radical e perturbador escritor da "literatura dalit", e talvez de toda a literatura indiana contemporânea, seus poemas dilaceraram as convenções estilísticas, literárias e ideológicas de sua época, mantendo muito vigor e influência na atualidade. Ele introduziu em sua poesia uma grande quantidade de palavras, expressões, gírias, xiboletes comuns no linguajar dos dalits e também das ruas de Mumbai. O que o torna uma grande dificuldade para os tradutores de qualquer língua. Um bom exemplo está marcado no seu livro de estreia Golpitha, cuja linguagem emula com precisão à linguagem do afamado bairro da luz vermelha. Essa invectiva estilística chocou os leitores e também os literatos da classe média indiana. Numa entrevista em 1982, Dhasal afirmou que “se o objetivo das lutas sociais era a remoção da infelicidade, então a poesia era necessária porque expressava essa felicidade de forma vívida e poderosa”. Em outra ocasião, ele reafirmou: "Poesia é política". Namdeo Dhasal vive esse princípio ético em sua vida privada de forma extrema e profunda, sem conceder desânimo a qualquer obstáculo, a qualquer crítica, a qualquer desafeto ou impedimento. Faleceu em 15 de janeiro de 2014 em Mumbai, Índia.

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