Venus Brasileira Couy
- REVISTA ZUNĂI
- 18 de dez. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de jan. de 2021
POESIA VOLUME 5 NĂMERO 2

LIĂĂO DAS COISAS
As horas se desprendem dos ponteiros dos relĂłgios
como nos livros de Bruno Schulz,
ou nos quadros de Dali,
cujos relĂłgios rasuram a paisagem
e se dependuram em galhos secos.
Do avesso,
o relĂłgio estĂĄ repleto de formigas,
putrefato,
como os cadĂĄveres fechados em
ambulĂąncias,
containers,
que dizem adeus Ă s ruas,
Ă s cidades,
Ă s casas,
aos rostos desconhecidos.
O tempo estĂĄ suspenso,
os dias sĂŁo longas noites,
as noites sĂŁo dias de espera
e solidĂŁo
A janela olha o dentro e
o fora
a borda estĂĄ alhures,
onde?
Ouço o cão que late lå fora
a flor do manjericĂŁo atrai os insetos na cozinha,
o antĂșrio, outros tantos.
O céu nunca esteve tão azul,
o ar enche os pulmÔes
e os versos que
em tempos de peste
teimam em se escrever
em meio Ă s miudezas do cotidiano,
Ă s covas rasas,
aos corpos superpostos,
Ă terra vermelha que nĂŁo tem fim.
Em tempo de horror e
desespero
o vĂrus parece nĂŁo escolher a quem
e é longo o percurso até o começo.
A ARTE DE PERDER
AgnĂšs Varda documentou as viĂșvas do bairro que perderam seus maridos,
eram muitas,
hoje nĂŁo pode mais fazer filmes,
foi-se no ano passado aos noventa anos,
âo acaso Ă© meu melhor roteiristaâ, costumava dizer.
Acidental, a construção de um filme?
Incerta parece ser também a vida.
Definitivo Ă© o poema,
que nĂŁo se deixa abater e se firma na pĂĄgina:
pleno,
peremptĂłrio,
severo como as circunstĂąncias
e os fatos
exigem.
O QUE Ă QUE SE PERDE MESMO QUANDO SE PERDE ALGUĂM?
Lota também perdeu,
um amor de quase duas décadas
e de muitos poemas.
A casa na mata de uma escarpa do sĂtio em Samambaia,
o pente de prata perfeito para os longos fios,
os postes de luz que alcançam o céu no parque do aterro do Flamengo
também se perderam
no tempo
e na memĂłria.
As definiçÔes se desprendem do verbete
e vocalizam as vogais do verbo vĂĄrio,
perder: âdeixar, largar, esquecer, falhar, malograr, privar-se, desaprender,
deslembrar, esquecer, olvidar, obliterar, abandonar, desfazer-se, livrar-seâ.
O conceito preciso e
a certeira expressĂŁo
que o poema consentiu
nĂŁo saberemos.
âSou uma viĂșva tristeâ
de olhos escuros
que alimenta os påssaros e os pombos no terraço.
2020
O contĂĄgio do vĂrus,
o contĂĄgio da palavra,
Susan Sontag parecia antever
âa doença como metĂĄforaâ,
aquela que durante muito tempo
nĂŁo podĂamos pronunciar o nome.
Como nĂŁo nos lembrarmos do poeta Augusto dos Anjos que
por meio do carbono,
do amonĂaco,
do verme,
dos aromas da decomposição,
nos apresenta a âfrialdade inorgĂąnica da terraâ?
No ano que traz a escrita de
um nĂșmero duplicado,
algarismos que se fazem traço,
outra doença se espraia
algoritmamente
e se mostra
nas telas,
TVS,
macas,
corredores de hospitais,
UTIS,
calçadas.
INVISĂVEL, O VĂRUS?
Como ficarĂŁo
as escaras,
os membros tĂșrgidos,
as hemorragias,
as Ănguas,
as sequelas,
o andar,
a voz,
as palavras nĂŁo ditas?
A tuberculose, a gripe espanhola, a varĂola, a aids, o ebola,
a febre aftosa,
a pele das palavras viraliza.
A lĂąmpada do poste estĂĄ quebrada,
quem passou?
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Leio no jornal:
âAbandono de animais se multiplica na pandemia e atinge cavalos e coelhosâ,
As ruas choram o aumento dos cĂŁes.
AlguĂ©m disse que âos animais sĂŁo ardilososâ,
serĂĄ mesmo?
A boca do cĂŁo tem fome,
a do homem
estå coberta por um pedaço de pano e
nĂŁo se furta Ă dor
e à desolação dos tempos.
âTodos os dias agora sĂŁo finais de semanaâ,
ouço de um morador que habita a rua.
A marquise nĂŁo acalenta a fome
tampouco a solidĂŁo
Quid in limine scriptum est?
O que estĂĄ escrito na soleira da porta?
âA boca tambĂ©m Ă© um tipo de covaâ,
alguém escreveu,
alguém.
Venus Brasileira Couy Ă© poeta e ensaĂsta. Doutora em Teoria da Literatura pela UFRJ, publicou, entre outros livros, Mural dos nomes imprĂłprios (Rio de Janeiro: 7Letras, 2005) e Inverno de baunilha: (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004).
