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Venus Brasileira Couy

Atualizado: 23 de jan. de 2021

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



LIÇÃO DAS COISAS


As horas se desprendem dos ponteiros dos relĂłgios

como nos livros de Bruno Schulz,

ou nos quadros de Dali,

cujos relĂłgios rasuram a paisagem

e se dependuram em galhos secos.


Do avesso,

o relĂłgio estĂĄ repleto de formigas,

putrefato,

como os cadĂĄveres fechados em

ambulĂąncias,

containers,

que dizem adeus Ă s ruas,

Ă s cidades,

Ă s casas,

aos rostos desconhecidos.


O tempo estĂĄ suspenso,

os dias sĂŁo longas noites,

as noites sĂŁo dias de espera

e solidĂŁo

A janela olha o dentro e

o fora

a borda estĂĄ alhures,

onde?


Ouço o cão que late lå fora

a flor do manjericĂŁo atrai os insetos na cozinha,

o antĂșrio, outros tantos.

O céu nunca esteve tão azul,

o ar enche os pulmÔes

e os versos que

em tempos de peste

teimam em se escrever

em meio Ă s miudezas do cotidiano,

Ă s covas rasas,

aos corpos superpostos,

Ă  terra vermelha que nĂŁo tem fim.


Em tempo de horror e

desespero

o vĂ­rus parece nĂŁo escolher a quem

e é longo o percurso até o começo.




A ARTE DE PERDER



AgnĂšs Varda documentou as viĂșvas do bairro que perderam seus maridos,

eram muitas,

hoje nĂŁo pode mais fazer filmes,

foi-se no ano passado aos noventa anos,

“o acaso Ă© meu melhor roteirista”, costumava dizer.

Acidental, a construção de um filme?

Incerta parece ser também a vida.


Definitivo Ă© o poema,

que nĂŁo se deixa abater e se firma na pĂĄgina:

pleno,

peremptĂłrio,

severo como as circunstĂąncias

e os fatos

exigem.




O QUE É QUE SE PERDE MESMO QUANDO SE PERDE ALGUÉM?



Lota também perdeu,

um amor de quase duas décadas

e de muitos poemas.

A casa na mata de uma escarpa do sĂ­tio em Samambaia,

o pente de prata perfeito para os longos fios,

os postes de luz que alcançam o céu no parque do aterro do Flamengo

também se perderam

no tempo

e na memĂłria.


As definiçÔes se desprendem do verbete

e vocalizam as vogais do verbo vĂĄrio,

perder: “deixar, largar, esquecer, falhar, malograr, privar-se, desaprender,

deslembrar, esquecer, olvidar, obliterar, abandonar, desfazer-se, livrar-se”.

O conceito preciso e

a certeira expressĂŁo

que o poema consentiu

nĂŁo saberemos.

“Sou uma viĂșva triste”

de olhos escuros

que alimenta os påssaros e os pombos no terraço.




2020



O contĂĄgio do vĂ­rus,

o contĂĄgio da palavra,

Susan Sontag parecia antever

“a doença como metáfora”,

aquela que durante muito tempo

nĂŁo podĂ­amos pronunciar o nome.

Como nĂŁo nos lembrarmos do poeta Augusto dos Anjos que

por meio do carbono,

do amonĂ­aco,

do verme,

dos aromas da decomposição,

nos apresenta a “frialdade inorgñnica da terra”?


No ano que traz a escrita de

um nĂșmero duplicado,

algarismos que se fazem traço,

outra doença se espraia

algoritmamente

e se mostra

nas telas,

TVS,

macas,

corredores de hospitais,

UTIS,

calçadas.




INVISÍVEL, O VÍRUS?



Como ficarĂŁo

as escaras,

os membros tĂșrgidos,

as hemorragias,

as Ă­nguas,

as sequelas,

o andar,

a voz,

as palavras nĂŁo ditas?


A tuberculose, a gripe espanhola, a varĂ­ola, a aids, o ebola,

a febre aftosa,

a pele das palavras viraliza.

A lĂąmpada do poste estĂĄ quebrada,

quem passou?

____________________________

Leio no jornal:

“Abandono de animais se multiplica na pandemia e atinge cavalos e coelhos”,

As ruas choram o aumento dos cĂŁes.

AlguĂ©m disse que “os animais sĂŁo ardilosos”,

serĂĄ mesmo?


A boca do cĂŁo tem fome,

a do homem

estå coberta por um pedaço de pano e

nĂŁo se furta Ă  dor

e à desolação dos tempos.

“Todos os dias agora são finais de semana”,

ouço de um morador que habita a rua.

A marquise nĂŁo acalenta a fome

tampouco a solidĂŁo

Quid in limine scriptum est?

O que estĂĄ escrito na soleira da porta?

“A boca tambĂ©m Ă© um tipo de cova”,

alguém escreveu,

alguém.




Venus Brasileira Couy Ă© poeta e ensaĂ­sta. Doutora em Teoria da Literatura pela UFRJ, publicou, entre outros livros, Mural dos nomes imprĂłprios (Rio de Janeiro: 7Letras, 2005) e Inverno de baunilha: (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004).

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