Um escritor em busca de um estilo por Luiz Manfredini

ENSAIO VOLUME 5 NÚMERO 2



Nos quase vinte anos em que conviveu com Bueno, Fernando Karl percebeu no amigo “uma colossal ambição literária” que o lançava ao pretensioso sonho de superar seus mitos, Guimarães Rosa e Machado de Assis, para ele “os dois gênios da literatura brasileira”. Bueno costumava dizer que havia se cansado de si mesmo, esgotado seu estilo. Muitos garantem que em apenas dois livros – o primeiro, Bolero’s Bar, e o último, Mano, a noite está velha – Bueno foi essencialmente Bueno. Nos demais, esteve sempre em companhia de outros, cuja influência parecia inelutável. Segundo Fernando Karl, “em suas obras Bueno não copiava seus mitos, mas fazia uma releitura deles e a isso juntava o que se poderia considerar seu próprio estilo. No fundo, disse-me várias vezes, desejava alcança-los e superá-los”.


Para ocupar um lugar à frente de Rosa e Machado não bastava lê-los, indispensável penetrarem seus textos de modo a receber, como por osmose, o influxo de ambos os estilos. “Ando, como um perseguidor sem descanso, em busca de um estilo. Sendas, caminhos, atalhos – o estilo me consome as noites, a forma me causa insônia ou noites mal dormidas”. E assim, Bueno preenchia cadernetas de bolso, copiando capítulos inteiros de Rosa e Machado. Foram mais de cinquenta, por ele chamadas de canhenhos (caderno de notas) e, com maior sofisticação, de cahier d’ècrivant. Os canhenhos serviam também para o registro de ideias. Não se separava deles. “Eu os escrevo nos ônibus, nas filas, nas salas de espera, nos parques, no quarto, na cozinha e até no banheiro. Me embalo nos caderninhos sobretudo no ritmo dos ônibus. As marchas dos ônibus expressos de minha cidade determinam estilo, ritmo, cadência, pausas, filigranas e pirações várias de muitos dos meus escritos”.


O fascínio exercido sobre Bueno por seus mitos literários fez com que ele, em seus livros, procurasse isitar textos e autores escolhidos, em torno dos quais sideravam, tanto o enredo, como a linguagem. Miguel Sanches Neto identificava traços de João Antônio em Bolero’s Bar, mesmo sendo esse livro inaugural considerado por muitos como genuinamente bueniano. Em Manual de Zoofilia e Jardim Zoológico, Sanches percebia a presença de Borges e, em Mar Paraguayo, do cubano Lezama Lima, assim como de “poetas orientais e diluidoresem Pequeno Tratado de Brinquedos. “E não se pense que Bueno derivou para esses estilos de forma passiva e acidental”, acrescenta Sanches, “ele os buscou como instrumentalizadores, como filtros de seu olhar e manejar linguístico”. Quase todos os críticos percebem, na obra de Bueno, o que chamam, generosamente, de “diálogoscom outros escritores.


O primeiro diálogo de Bueno em Mar Paraguayo é, na interpretação de Antônio R. Esteves, com José de Alencar, que traz a cultura tupi para o centro da sua obra, embora com as limitações de seu tempo. “Vários elementos do romance Iracema, de Alencar, foram trazidos por Bueno para seu romance, onde são lidos de modo dialógico”. Esteves também identifica, em Mar Paraguayo, algo de Macunaíma, de Mário de Andrade: “Da mesma forma que o herói de Mário nasceu lá no fundo da mata virgem, ou seja, num mundo primitivo, a protagonista de Bueno, também nasce ‘al fondo del fondo del fondo de mi país’”. O professor da Unesp aponta outro diálogo estabelecido por Bueno em Mar Paraguayo, desta vez com Guimarães Rosa: “Da mesma forma que um dos temas da obra máxima de Rosa é a existência ou não do diabo e do inferno, o mesmo ocorre em Mar Paraguayo, que dedica boa parte do relato em discutir o que é o inferno e qual a diferença entre o inferno e o mundo em que se vive”. Esteves vê a presença de Guimarães Rosa não apenas em Mar Paraguayo, mas também em outras obras. Meu tio Roseno, a cavalo, por exemplo, dialoga, desde o título, com várias obras de Rosa. No conto Meu tio o Iauaretê, Rosa vale-se da mistura de línguas com forte presença do tupi.


Em setembro de 2000, Miguel Sanches Neto escreveu:


“Wilson aplica um processo oriundo de Grande Sertão: veredas [...]. As aventuras vão se dilatando a cada noite até o momento de confronto mítico com o lobisomem, numa cena que retoma o questionamento metafísico do narrador de Grande Sertão. De Rosa vem também a configuração de um gosto pelo constructo linguístico, que em Bueno parece um pouco mais artificial e intelectual por não trazer a carga das experiências vividas que distingue a obra do mestre mineiro”.


Já para o poeta e ensaísta Régio Bonvicino, Meu tio Roseno a cavalo não está conectado diretamente ao trabalho de Guimarães Rosa, “embora ressoe o Iauaretê”. O escritor e crítico José Castello destaca “a presença difusa de Guimarães Rosa atrás de cada sentença”, mas ressalta que “Bueno não é nem um discípulo de Rosa, muito menos um imitador”.


Influências literárias, algumas delas decisivas, Bueno as recebeu à farta desde seus escritos de juventude, a começar pelo conterrâneo Dalton Trevisan. Não há data apurável para o breve conto Elas cinco, certamente obra dos anos 1960, antes de Bueno mudar-se para o Rio de Janeiro. No resumo a seguir, a ruidosa presença de Dalton é implacável.


“Eram ao todo cinco fêmeas radiosas e magras: Lalá, Lili, Lilian, Leila e Luimar. Tudo com L, que era para dar sorte, crescerem felizes e puras”.


“Lalá arranjou noivo, proprietário de banca de revista na Praça Tiradentes. Lia Capricho e Ilusão de graça”.


“Lili, da janela, sorria para todos os moços, tinha mais de cinco namorados”.


“Lilian amava o cinema. Arranjava, dominicalmente, alguém que lhe pagasse a entrada”.


“Leila tinha encontro marcado todos os sábados com cobrador de ônibus e soldado da polícia”.


“Luimar servia de paciente para todos os piás da zona, que eram médicos”.


“Lalá casou com o moço da banca; Lili ficou viúva com sete meses de bebê e nove de casada; Lilian seguiu com uma companhia de circo que ia para Buenos Aires. Lila virou polícia feminina e amante de guardas noturnos. Luimar continuou virgem”.


A tortuosa e incessante busca de um estilo jamais alterou o que em Bueno sempre foi um traço essencial: o culto à linguagem.


Bueno criticava, por vezes acerbamente, os escritores desleixados com a linguagem e aqueles afeitos do que considerava um “naturalismo tardio”. Não via a literatura como algo “comunicante”. “Comunicar”, trovejava, “comunicam os memorandos, as cartas, as entrevistas, os e-mails. Literatura é invenção, é magia; literatura não é funambulismo aventuresco, literatura é ‘desenredo’, literatura não se conta por telefone”.


Considerava-se, portanto, um reescritor, “tanto pela artesania obsessivo-flaubertiana do meu processo de criação propriamente dito quanto pelo reandar caminhos já andados movido por novos pés e, quiçá, olhares”.


Bueno conferia tal importância à linguagem que ela se tornava uma espécie de demiurgo de sua construção ficcional.


Examinando Meu tio Roseno a cavalo, Miguel Sanches Neto afirma que “a história se passa antes na linguagem do que nos fatos”.


“Quase não vemos o Paraná daqueles tempos e seus hábitos nesta novela, tamanha a presença de uma linguagem construída que se sobrepõe a tudo, impondo a figura do narrador como verdade maior, como centro da ficção”.


Bueno reconhece a enorme dimensão da linguagem em sua obra: “Todos os meus personagens são figuras, personas, nascidas da linguagem. É dela, da linguagem, que os personagens se erguem. Gente construída das palavras, de frases arrancadas a fórceps do milagre que é a vida”.


Embora não se considerasse um escritor experimental e recusasse a acusação de esteticismo formulada por alguns, Bueno concedia uma tal importância à linguagem e seus meandros que várias de suas obras pareciam cifradas, impenetráveis.


Mas Bueno insistia que escrever era seu mais radical espaço de liberdade, “onde faço o que quero, do jeito que me dá na telha”, só evitando lugares comuns, fórmulas prontas e já consagradas.

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