Tributo a Melo e Castro (1932-2020) por Jorge Luiz Antonio

Atualizado: Jan 3


Melo e Castro por Ninil Gonçalves



Luís Serguilha, poeta português, no dia 29 de agosto de 2020 me informou que o ex-professor e amigo Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro falecera pela manhã em São Paulo. Nascido em 19 de abril de 1932 em Covilhã, Portugal, muitas vezes eu o cumprimentei no dia do seu aniversário. Terminada a conversa com o Serguilha, que me telefonara da cidade do Recife (PE), o sentimento de tristeza me fez relembrar os bons momentos que compartilhamos desde o ano de 1996, quando eu conheci Melo e Castro numa palestra no curso de pós-graduação lato sensu de Literatura (PUC SP COGEAE).


A ideia de escrever um tributo ao poeta experimental português começou a tomar forma. Depois de muitos projetos imaginados, optei por fazer um registro dos encontros com o Melo e Castro. Como tinha escrito dois grandes artigos (ANTONIO, 2006; 2014), resenhas e comentários sobre aspectos de sua obra (idem, 2000a; 2008c), valeria a pena ressaltar aspectos da sua personalidade, a sua atuação como professor e palestrante.


Devo ao Melo e Castro a escolha do estudo da poesia contemporânea[1] e, por intermédio do que fruí da Poesia Experimental Portuguesa, cheguei ao estudo da infopoesia, criação dele, e, posteriormente da poesia eletrônica e poesia digital, que passei a denominar posteriormente de tecnoartepoesia, a partir das pesquisas de pós-doutorado. E pude observar que outros alunos, como a Maria Virgília Frota Guariglia, autora de “Soneto: Polígono Agônico” (2006, p. 277-289), também foram motivados pela paixão pela poesia que ele sempre demonstrou. De todo o convívio, só tenho ótimas recordações e nenhum desentendimento conceitual, mesmo tendo opiniões diferentes, especialmente pelo respeito mútuo que sempre tivemos. Só me lembro de poucas opiniões diferentes. Nossas conversas se tornaram sempre registros muito interessantes, que repeti muitas vezes nas conversas com alunos durante todo o meu tempo de ensino de Letras, principalmente. Já tinha lido O Fim Visual do Século XX (1993) e estava com Poética dos Meios e Arte High Tech (1988) em mãos, quando assisti a sua palestra na PUC SP COGEAE. Nossas aulas eram aos sábados[2] e o tema foi sobre Poesia Experimental Portuguesa no dia 29 de junho de 1996. Foi motivador ouvir a ótima explicação de Melo e Castro. Num determinado momento, ele leu o poema “Soneto Soma 14X”, da obra Poligonia do Soneto (1963) e obteve aplausos dos alunos. Durante a pesquisa para a dissertação de mestrado[3], que resultou no livro Cores, forma, luz, movimento: a poesia de Cesário Verde (ANTONIO, 2003) contei com a ajuda dele para a compreensão de alguns versos de Cesário Verde (1855-1886), aspectos da cultura portuguesa, indicações de pessoas e locais de Portugal para realizar pesquisas. O livro teve o prefácio do poeta experimental português. Infelizmente não pude contar com Melo e Castro na comissão examinadora de mestrado em 1999 e nem no doutorado em 2005.

Visão Visual: 1961-1993 (1994) foi uma coletânea de poesias de várias fases que me fascinou[4]. Ao ler “Medidas (Poemetrias)” (1994, p. 184-185), que fez parte da PO. EX / 80[5], na Galeria Nacional de Arte Moderna (Lisboa), apliquei a “fita létrica” nas aulas de Redação, buscando novas estratégias: usei uma fita métrica que, a partir de uma lista numerada de palavras-temas, permitia que o aluno fizesse um texto de forma mais lúdica. Melo e Castro mostrou-se satisfeito e agradeceu essa aplicação.





Durante o mestrado, fiquei sabendo do Curso de Infopoesia e Poesia Sonora: Teoria e Prática, organizado por Melo e Castro e Fernando Segolin (1941-2016) para o doutorado (primeiro semestre de 1997). Pedi autorização ao orientador de mestrado, para me matricular. As aulas teóricas e as aulas práticas foram excelentes. O professor E. M. de Melo de Castro tinha uma boa oratória e a clareza necessária de quem gosta de ensinar e conhece o ofício. Durante as oficinas de infopoesia e de poesia sonora, enquanto trabalhávamos em grupos, ele contava a história de sua vida, num diálogo constante com o prof. Segolin. Dentre os bons colegas desse curso, destaca-se a Maria Virgília Frota Guariglia, cuja amizade com o mestre permaneceu até o passamento dele. Outro colega, Won Bock Park, coreano, que fez parte do meu grupo de aulas práticas, também se destacou, especialmente porque, num dado momento do curso, falou que o tema do curso deveria ser a “poética do pixel”, o que Melo e Castro registrou na introdução de Algorritmos (1998). Minutos antes do início do curso, encontrei o Melo e Castro na secretaria da pós-graduação e lhe disse que era a primeira vez que iria fazer um curso de poesia com um poeta (e cometi o equívoco de usar o adjetivo “vivo”). Logo depois, no início da aula, ele se referiu à minha fala e usou da dialética característica do povo português, brincando: “se estivesse morto, não poderia dar o curso”.


Durante as aulas práticas, ouvi muitas histórias das relações interpessoais de Melo e Castro em Portugal, especialmente sobre as vindas de Abraham Moles (1920-1992) a Portugal e o estudo de Jacinto do Prado Coelho (1920-1984), autor de Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, estudioso de Fernando Pessoa. O dinamismo do Prof. Melo e Castro era admirável: a cada aula ele aparecia com uma novidade. Tudo era meticulosamente planejado. De 18 a 27 de julho de 1997, os alunos do Curso de Infopoesia e Poesia Sonora[6], sob a coordenação de Melo e Castro, participaram de uma Exposição de Infopoesia no Ponto 2 - Biblioteca (Térreo: Prédio Novo), Espaço Videoteca. Além do curador, participaram: Claudia Braga Teixeira, Cristina Marques, Jalver Bethônico, eu, Maria Virgília Frota Guariglia, Nicole Wexler Blanc, Ronaldo Bispo, Soraya Ferreira Alves e Won Bock Park. Cada aluno colou suas infopoesias nos cavaletes disponíveis. O nosso professor acompanhou atentamente o trabalho sendo feito pelos alunos. Lembro-me que, à distância, ele me pediu para rever as proporções incorretas, enquanto colava uma das minhas infopoesias.




Os contatos de Melo e Castro com editores brasileiros e estrangeiros eram muitos. Algum tempo depois do término do curso, Melo e Castro contatou seus alunos e os convidou para participar de um dossiê de infopoesia na Dimensão Revista Internacional de Poesia[7], editada por Guido Bilharinho em Uberaba, MG, sob o título de “Novos Infopoetas de São Paulo” (1999, p. 259-301):

Uma já nova categoria de poetas. Um já diferente tipo de poema. Uma sinergia já outra, no triângulo interativo: poeta + hardware + software. Infopoesia = complexidade hipervisual, transformação anamórfica, virtualidade do virtual (idem, p. 261). Cada aluno escolheu um infopoema e fez um texto. O conjunto de infopoemas e textos se tornaram um manifesto. Nesse dossiê estavam os seguintes alunos: Cláudia Braga Teixeira[8], Cristina Marques, Jalver Bethônico, eu, Maria Virgília Frota Guariglia, Priscila Farias, Ronaldo Bispo e Teresa Labarrère. Em 1998, encontrei, na livraria da PUC SP que frequentava, uma revista que continha uma entrevista com o Melo e Castro (1994, p. 11-26)[9]. Além de compreender o percurso de formação e de criação de Melo e Castro, uma passagem me chamou a atenção:


Acabei por me formar em Engenharia, correspondendo às expectativas da família. Por acaso, até gosto de ser engenheiro, gosto das minhas “engenhoquices”. Exerci essa profissão e foi com ela que me aguentei e me aguento ainda financeiramente, quanto todo o império família ruiu. Costumo dizer que tenho um “irmão”, o engenheiro[10], que tem a mania terrível de me copiar em tudo, mas tem uma virtude: paga-me as contas, paga as contas do poeta. É ele que paga os livros que compro, é ele que paga algumas das viagens que eu faço. Enfim, paga todos os luxos de que os poetas gostam de se revestir, como seres excepcionais, seres alados que pairam sobre as vicissitudes da vida (CASTRO, 1994, p. 12).


Uma grande lição de vida explicada com muito humor. Isso me fez lembrar a biografia de outros literatos. Fernando Pessoa (1888-1935), em seus diários, sempre mostrou preocupação em trabalhar o suficiente para sobreviver, morar em pensão e ter tempo para a literatura. Cesário Verde (1855-1886) foi comerciante de ferragens e pioneiro na exportação de frutas em Portugal, o que lhe permitiu fazer uma poesia inovadora, mesmo com uma obra pequena. Machado de Assis (1839-1908), verificando que o jornalismo lhe dava pouco salário, tornou-se funcionário público e pôde, assim, realizar o seu projeto literário com mais tranquilidade.

Algorritmos: Infopoemas (1998) ganhou um artigo bem elaborado de Norma Couri (1998) e é uma obra que aparece logo após o curso de infopoesia e poesia sonora da PUC SP. Li-o várias vezes, especialmente a introdução “Uma poética do pixel” (1998, p.19), pois ela se mostra como o resultado de tudo o que estudamos e fizemos como alunos.


Muitas pessoas foram presenteadas por mim com esse livro. Lembro-me que pedi uma dedicatória ao Melo e Castro para quatro estrangeiros: Sandra Guerreiro (portuguesa estudando em Buffalo, EUA), Jim Andrews (Canadá), Komninos Zervos (Austrália) e Fatima Lasay (Filipinas). Todo brincalhão[11], o poeta disse que faria uma mesma dedicatória em português e explicou: “Se algum dia nos encontrarmos em Marte, descobriremos que todos recebemos a mesma dedicatória”. Em 1999/2000, quando iniciei o doutorado, a primeira incumbência da orientadora, Profa. Dra. Irene de Araújo Machado, foi participar de um congresso. Escrevi o artigo “Um conceito de infopoesia”, criei coragem e mostrei ao Melo e Castro, que se mostrou interessado na leitura panorâmica que fiz da obra dele. A mesma coragem me fez apresentar esse texto no GT Criação e Poéticas Digitais do IX Compós (Encontro Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação) na PUC RS no dia 1º de junho de 2000[12], sob a coordenação do Prof. Dr. Gilbertto Prado. Em 20 de maio de 2001, Maria Virgília Frota Guariglia e eu entrevistamos o “nosso guru”[13] em seu apartamento na Avenida Angélica, São Paulo. Nessa época ele tinha terminado o doutorado na USP e encerrava o curso que ministrou naquela universidade em vários semestres, pois iria mudar-se para Lisboa. Essa entrevista foi gravada e transcrita por Maria Virgília, revisada por Melo e Castro e publicada no site Pop Box de Elson Froes em 2004[14], onde permanece até os dias de hoje. Depois, recebeu revisão para fazer parte de O caminho do leve (2006) e de Máquina de trovar (2008). Considerando que houve duas transcrições e revisões por iniciativa do mestre português, Maria Virgília e eu, que buscamos sempre entender as relações entre poesia e tecnologia na obra de Melo e Castro, nos sentimos muito felizes com esse fato.


Em outubro de 2001, durante o I Congresso Internacional Todas as Letras – Língua e Literatura[15] – participei com a apresentação do estudo “Cristais-textos-em-ações” e foi a primeira vez que fiz um comunicado sobre Cesário Verde (1855-1886) num congresso[16]. Pouco antes de iniciar a minha fala, Melo e Castro apareceu (ele veio a São Paulo para uma série de palestras, uma delas nesse evento) na sala, assistiu à apresentação e teceu comentários sobre a estrutura da comunicação que fiz. Depois fomos para a II Mostra Interpoesia, sob a curadoria de Wilton Azevedo (1956-2016). Em 2001-2002, recebi a revista russa Visual World Poetry e comecei a conversar com o editor Ether Panji em inglês. Em 2002, obtive de Melo e Castro a autorização para traduzir uma seleção de infopoemas de Algorritmos (1998) para o inglês, que foi retraduzido para o russo por Ether Panji, para a coleção “Visual World Poetry”.





Durante a fase final do doutorado (2003-2005), o amigo dedicado leu o projeto de pesquisa, me orientou, forneceu informações, indicou contatos e esclareceu pontos importantes do enfoque. Poesia Eletrônica: Negociações com os Processos Digitais (2005, tese; 2008, primeira publicação) e Poesia Digital: Teoria, História, Antologias (2010) são dedicadas a ele, tiveram seu prefácio e contaram com suas infopoesias para ilustrar a quarta capa (2008) e capa (2010). Não foi possível trazê-lo para a banca examinadora, daí pedi que ele aceitasse ser suplente. Tive a grata surpresa de participar da mesa-redonda de O Caminho do Leve, exposição que se tornou uma nova obra de Melo e Castro, exposta no Museu de Serralves (Porto, Portugal), no período de 2 a 9 de abril de 2006. Sobre a exposição e as atividades realizadas na cidade do Porto e região, escrevi “Melo e Castro e o seu caminho para o leve”, que está na Antologia de Textos Teóricos (DVD) de Poesia digital: Teoria, História, Antologias (ANTONIO, 2010). Fui presenteado com um vídeo sobre toda a exposição O caminho do leve (JACOBETTY; CASTRO, 2006a) e passei a divulgar o evento. Quando estive no Encuentro de Poesía Experimental, sob a curadoria de Clemente Padin, em Montevideo, Uruguai, pedi autorização para apresentar o vídeo em um momento das apresentações e comentá-lo. Solicitei, depois, ao João Fernandes, diretor do Museu de Serralves, alguns exemplares de O caminho do leve (obra-catálogo) e os presenteei nos eventos que participei na Cidade do México, onde Melo e Castro desenvolveu Poética dos meios e arte high tech em 1988[17]. Quando estive no II Avant Writing Symposium, em Columbus, Ohio, EUA, em 2010, deixei exemplares de O caminho do leve para fazer parte do Avant Writing Collection da Ohio State University, arquivo sob a curadoria de John M. Bennett, poeta experimental norte-americano. Levei muitas publicações sobre o Melo e Castro para que ele pudesse fazer um arquivo sobre o poeta português.


Participei de um projeto intertextual e do posfácio da obra Hangares do Vendaval (SERGUILHA, 2007), que foi publicado pela Intensidez, editora de Évora, Portugal. Serguilha e eu pedimos autorização ao Melo e Castro para compor a capa e ilustrar partes da obra poética com dezesseis infopoesias.



O livro ganhou duas dedicatórias: um poema do Melo e Castro e a frase do Serguilha:



O evento Trajetória Infopoética, realizado em 4 de dezembro de 2007 na Academia de Ensino Superior, em Sorocaba, sob a curadoria de Maria Virgília Frota Guariglia, com a participação de Felipe Richter, alunos e ex-alunos da Academia de Ensino Superior e eu, foi uma homenagem muito especial da qual participei com um depoimento sobre a importância dos encontros com o Melo e Castro. Toda a cerimônia foi registrada em vídeo. A capa do cartaz é um infopoema de Maria Virgília Frota Guariglia, em homenagem ao “nosso guru”, como carinhosamente ela o chamava. Eis o cartaz da exposição e o marcador de livro, frentes e versos:







Um projeto de ensaios, que deveria ser publicado por uma editora de São Paulo, acabou indo para a Intensidez, em Évora: o conjunto de ensaios Máquinas de Trovar: Poética e Tecnologia[18].




Ouvi várias vezes o Melo e Castro se referir às máquinas de trovar, obra apócrifa de Meneses / Mairena / Machado, ou seja, do poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939), que, um pouco antes de Fernando Pessoa (1888-1935), também produziu poetas apócrifos, semelhantes aos heterônimos de Pessoa. Nessa época, ele estava preparando uma atualização de Poética dos Meios e Arte High Tech (1988), cujo tema central era a questão das máquinas de trovar, a partir da ideia pioneira do poeta espanhol.


Em 2010, encontrei Objecto Poemático de Efeito Progressivo (1962) e comuniquei o fato ao amigo, que me contou a história do seu trabalho, quando eu me referi a Cent mille milliards de poèmes, de Raymond Queneau (1906-1976), que me pareceu um projeto semelhante: em Paris, num encontro com o poeta sonoro Henri Chopin (1922-2008) – relatou que, ao presentear Henri Chopin com Objecto Poemático de Efeito Progressivo, este apreciou o trabalho e o levou a uma livraria, localizada em frente ao ateliê de Chopin, e lhe presenteou com Cent mille milliards de poèmes, de Raymond Queneau, que é de 1961.


Isso prova a honestidade de Melo e Castro e o avançado de suas ideias.


Várias vezes eu o ouvi falar da construção de Roda Lume (1968), que foi perdida na RTP, e, em 1986, foi reconstruída e passou a ser Roda Lume Fogo. Essa obra é considera a primeira videopoesia. O alemão Klaus Peter Dencker se julga o primeiro a fazer videopoesia. Mantive contato com ele, que me enviou as suas criações, que são cinepoesias, outro tipo de arte digital, com base em intervenções em filmes. Até o presente momento, não encontrei nenhuma videopoesia anterior à de Melo e Castro. Em 2 de novembro de 2011, Pipol (José Waldery Manigieri Pires) (1961-2015), Luiz Antonio Garcia Diniz e eu fomos à casa de Melo e Castro para uma entrevista, que ficou denominada de Tempestade de Ideias com E. M. de Melo e Castro. Foi um encontro interessante: Pipol veio com a sua filmadora Sony 3D e fez ótima filmagem e edição. O Diniz, com a máquina fotográfica Canon de alta qualidade, fez boas fotos. Foi a segunda entrevista que ele me concedeu. O evento ficou na TV Cronópios e felizmente foi para o YouTube, pois, após o falecimento do Pipol, o site foi desativado e os arquivos apagados. Os diálogos com o poeta português foram riquíssimos, como sempre: https://www.youtube.com/watch?v=pqRvyXf_-jo&t=952s.




Iniciei o diálogo a partir da obra O paganismo em Fernando Pessoa e Sua Projeção no Mundo Contemporâneo (2011), tema da sua pesquisa de pós-doutorado na UFMG, sob a supervisão da Profa. Dra. Vera Lúcia de Carvalho Casa Nova. Essa obra desenvolve outro aspecto dos estudos feitos em Poética dos Meios e Arte High Tech (1988), Livro de Releituras e Poiética Contemporânea (2008), Máquinas de Trovar (2008b) e Poética do Ciborgue (2014). Pipol cuidou de intercalar outras obras do Melo e Castro numa ordem cronológica que permite compreender o percurso da obra do poeta experimental português. Ainda em 2011, nos dias 26 e 27 dezembro, houve o IV Encontro Nacional de Hipertexto e Tecnologias Educacionais na Uniso (Universidade de Sorocaba). Fui convidado para participar como coordenador de uma mesa-redonda, que foi denominada de “Processos criativos hipertextuais em literatura e poesia”. Convidei Edgard Robert Kirchof (ULBRA), Luiz Antonio Garcia Diniz (UFScar, pós-doutorando), Isabella Vieira de Bem (ULBRA), E. M. de Melo e Castro, Murilo Jardelino da Costa (FASB) e meu aluno e orientando Werner Garber Elias Pereira[19] de Oliveira (UNICAMP). Nossas conversas nos intervalos ensejaram muitas contribuições para a obra Novos Horizontes para a Teoria da Literatura e das Mídias: Concretismo, Ciberliteratura e Intermidialidade, organizado por Edgar Roberto Kirchof (2012). Quando o livro ficou pronto em 2013, fizemos duas mesas-redondas: uma na Semana de Letras da Uniso e outra no Memorial da América Latina, para a apresentação do livro. Nesse evento, estavam presentes: Edgar Roberto Kirchof (mediador), E. M. de Melo e Castro, Luiz Antonio Garcia e eu. Várias vezes Melo e Castro me contou de uma Antologia do Conto Fantástico Português, organizada por ele e na qual publicou o seu único conto, sob o título “Eu Índice N”. Ele perdeu o seu exemplar e não conseguiu encontrá-lo em alfarrábios portugueses. Graças ao amigo português Diogo Marques, pude comprar dois exemplares dessa obra e surpreendi o poeta experimental com a cópia do texto e, depois, quando fui à casa dele em São Paulo, o presentei com a antologia.


Em 2012, ele publicou uma plaquete com esse conto, com uma série de infopoemas feitas por sua filha e artista Eugênia de Melo e Castro. Essa história está em “Nota do autor sobre as aventuras do seu conto EU ÍNDICE N” (CASTRO, 2012, p. 23-26). Em 2012, a convite do professor universitário romeno e poeta visual Adrian Lesenciuc, escrevi oito textos sobre poesia de vanguarda para a Revista Murala Aisberg, do Centrul Cultural Reduta, de Braşov. Os textos eram escritos em inglês (até 600 palavras) e traduzidos para o romeno por Cosmina Draghici. O número de maio/2002 foi dedicado a Melo e Castro, como lembrança da obra Finitos mais Finitos (1996), que foi a motivadora dos estudos da infopoesia.




A comemoração dos 80 anos, na residência do poeta em São Paulo, foi um evento bastante significativo. Ouvi leituras de poemas por vários poetas. O último evento que participei com o Melo e Castro foi a mesa-redonda de 12 de março de 2014, no Centro Cultural de São Paulo, sob a moderação de Edson Cruz: Melo e Castro, Omar Khouri e eu estabelecemos um diálogo muito válido no evento denominado I Festival de Poesia Nova, sob a curadoria de Claudio Daniel. A qualidade do projetor multimídia era excelente. As três apresentações foram muito válidas e a atuação do moderador foi objetiva e de boa qualidade. A grande parte da obra de Melo e Castro em minha biblioteca tem dedicatórias desde 1996. Escolho duas delas para representar a forma carinhosa e espontânea de expressão de bondade do mestre para comigo. Em 28 de novembro de 2007, Melo e Castro me ofertou um exemplar de A Proposição 2.OI (1965), obra rara, com a seguinte dedicatória:



Em 3 de junho de 2011, O Paganismo de Fernando Pessoa (2011) teve a seguinte dedicatória:




Edson Cruz, na orelha de Poemas tardios, testemunha que o poeta experimental português lhe falou dos “seus dois últimos projetos literários: uma autobiografia e o derradeiro livros de poemas (2021, orelha da terceira capa)”. Essa autobiografia mostraria o percurso do homem e do poeta experimental E. M. de Melo e Castro, à semelhança de suas conversas nas aulas da PUC SP e nos inúmeros contatos que tivemos: a presença constante de Abraham Moles (1920-1992) em Portugal; as declamações de poemas em russo de Vladimir Vladimirovitch Maiakovski (1893-1930) feitas pelo linguista Roman Jakobson (1896-1982) nas festas em casa de Melo e Castro em Lisboa; todas as questões que o envolveram nas perseguições da polícia salazarista; sua primeira vinda ao Brasil; suas conversas com Don Sylvester Houédard (1924-1992), poeta visual britânico; o contato com Umberto Eco (1932-2016) na Itália; e muitos outros aspectos. No dia 28 de outubro de 2021[20], enquanto escrevia este tributo, o poeta, escritor e editor Edson Cruz me enviou o seguinte poema pelo WhatsApp:


MELO E CASTRO E EU


entre ernesto e eu

há uma enorme e simétrica assimetria


eu vivo aqui no brasil minha casa

casa que ele depois escolheu como sua


talvez seja mais exato dizer

que ele sempre esteve por aqui


há uns quinhentos anos ou mais

e nos cruzamos no espaço-tempo da história


na convulsão poética de vidas passageiras

em nosso modo e dicção diferentes de ser


ambos falamos e escrevemos um português siamês

e sobrepomos nele nossas inúmeras e diferentes falas


eu antropofágico e negro e falaz baiano-estrangeiro

ele barroco e branco e mordaz luso-brasileiro.



Obtive autorização do Edson Cruz para incluir o poema neste tributo, pois ele foi moderador da última mesa-redonda em que participei com o Melo e Castro na sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural de São Paulo em 12 de março de 2014, a convite de Cláudio Daniel para o evento I Festival Poesia Nova, com a participação do Omar Khouri.



Aprendi muito a apreciar capas de livros com o Melo e Castro e recebi conselhos importantes para as capas dos meus. Isso me leva a apreciar e parabenizar o trabalho da capa e das fotos internas feitas por Ninil Gonçalves, que demonstrou captar a atmosfera poética e as imagens criadas pelo poeta experimental português. A organização de Poemas Tardios, um dos últimos projetos literários de Melo e Castro (2021), também contou com a participação de Edson Cruz, de quem transcrevo o seguinte trecho, como mais uma voz para compor este tributo que presto ao autor de Poética do Ciborgue (2014):


Ernesto, como eu o chamo, era um mestre. Sua inteligência, experiência de vida e de textum, suas criações e seu humorismo ultrapassaram os limites do ser poeta. Ele me ensinava o tempo todo: com suas reflexões, suas histórias infindáveis, seu humor impagável, seu silêncio e seus poemas. Ficávamos horas dialogando, às vezes, sem dizer nada. Única companhia era uma garrafa de bom vinho alentejano (que será para sempre meu vinho preferido) e os salgadinhos que sua, e agora minha, querida Elza nos trazia com a alegria que os brasileiros emanam sem fazer esforço (CRUZ, 2021, orelha da segunda capa).


A excelência das palestras e das aulas pode ser observada nos vídeos que fazem parte das redes sociais. Dentre as qualidades morais e intelectuais do Melo e Castro, vale destacar as seguintes: constantemente atualizado em sua área, era notório seu desejo constante de aprender; correto; moral e intelectualmente comprometido; um desejo constante de ajudar; e muita inteligência e perspicácia. Em “Ken Cox, um ciberneta” (1977, p. 157-163), Melo e Castro faz um tributo ao artista britânico Ken Cox (1927-1968), cujo penúltimo parágrafo diz o seguinte: “- Quando for a Inglaterra, não poderei desta vez falar com Ken Cox (idem, p. 163)”. Quando a artista Regina Célia Pinto fez a Biblioteca David Daniels no portal Museu do Essencial e do Além Disso, fiz um pequeno texto sobre o poeta norte-americano que assim nos agradeceu: “And I will always remember Jorge Luiz Antonio and Regina Celia Pinto.” Parafraseio a frase de David Daniels (1933-2008): sempre me lembrarei de Melo e Castro. Depois de 29 de agosto de 2020, também não poderei falar com E.M. de Melo e Castro, mas continuarei a estudar suas obras e a falar sobre a sua importância em toda oportunidade possível. Ele ficará em minha memória e fará parte da cultura e da literatura internacional, portuguesa e brasileira. “A Amizade sem fim”, de sua dedicatória, é o que nos faz amigos além-tempo, além-espaço e além-vida.



Referências bibliográficas:


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KIRCHOF, Edgar Roberto (Org.). Novos horizontes para a Teoria da Literatura e das Mídias: Concretismo, Ciberliteratura e Intermidialidade. Canoas, RS: Ed. Ulbra, 2012.

SERGUILHA, Luís. Hangares do vendaval. Infopoemas: E. M. de Melo e Castro. Texto: Jorge Luiz Antonio. Évora, Portugal: Intensidez, 2007.

TEIXEIRA, Cláudia Braga. O Martírio do Artista. In: ANTONIO, Jorge Luiz. Ciência, arte e metáfora na poesia de Augusto dos Anjos. São Paulo: Navegar, 2004, p. 121.



Notas:

[1] Outra contribuição importante, especialmente nesse curso, foram as aulas de Teoria da Literatura: Poesia, do Prof. Dr. Omar Khouri e o contato com a poesia visual por ele desenvolvida e estudada. Também não posso deixar de mencionar a disciplina Teoria da Literatura: Narrativa, do Prof. Dr. Fernando Segolin (1941-2016), que foi meu orientador de mestrado. [2] O curso foi inesquecível: na abertura, contamos com a fala do Prof. Dr. Décio Pignatari (1927-2012), sobre poesia concreta, a Profa. Dra. Tania Franco Carvalhal (1943-2006), sobre Literatura Comparada, e Fernando Segolin (1941-2016), a respeito de Fernando Pessoa. [3] O orientador foi o Prof. Dr. Fernando Segolin (1941-2016), excelente pessoa e professor. [4] Pude ver todas essas obras na exposição O Caminho do Leve, no Museu de Serralves, no Porto, em companhia do Melo e Castro em 2006. Fomos três vezes à exposição e foi muito gratificante observar a alegria de menino e o entusiasmo do amigo, relatando a história da montagem da exposição, que se tornou uma nova obra do poeta experimental. [5] PO/EX = Poesia Experimental. Contou-me Melo e Castro que, enquanto estudava um nome para os eventos de Poesia Experimental, Ana Hatherly (1929-2015) criticou o termo “PO/EX”, por lembrar marca de sabonete. [6] Fizemos os projetos de poesia sonora, a partir de um exemplo de Melo e Castro, mas todo esse arquivo se perdeu. Foi um projeto que não vingou. [7] Essa revista, que circulou de 1980 a 2000, é uma antologia internacional de poesias contemporâneas de ótima qualidade. [8] A Cláudia, que foi minha colega também no curso lato sensu de Literatura da PUC SP COGEAE 1995-1996), me presentou com uma excelente criação visual (TEIXEIRA, 2004, p.121), que faz parte do meu livro Ciência, arte e metáfora na poesia de Augusto dos Anjos (ANTONIO, 2004), tema da monografia final desse curso. [9] O evento ocorreu em outubro de 1993, com o apoio do G.E.T.E. P, (Grupo de Estados Técnicos em Psicodrama). [10] Numa conversa com Melo e Castro, depois de ler a entrevista, descobri que ele era filho único. [11] Uma vez, por telefone, ele me disse que não era brincalhão, mas que esse humor era uma forma de reagir para enfrentar os problemas cotidianos. [12] O texto foi reescrito e ampliado com o título de “Melo e Castro: palavra, visualidade, infopoesia” e o submeti ao poeta. Após nova revisão, ele fez parte do livro-catálogo O caminho do leve (CASTRO; FERNANDES, 2006). [13] Era assim que Maria Virgília o chamava carinhosa e respeitosamente. [14] Houve uma publicação no site Versiones, Portugal, ago./set. 2003, nº 51, mas o link deixou de funcionar alguns anos depois. [15] Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Letras, Faculdade de Filosofia, Letras e Educação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 8 a 11 de outubro de 2001. [16] Apresentei, em aulas de Comunicação e Semiótica, na Faculdade Paulista de Artes em várias ocasiões, no período em que lecionei (2003-2009). [17] Esse foi um depoimento interessante do Melo e Castro: quando ele foi à Bienal de Poesia Experimental em 1988, ele recebeu tantos convites para palestras que acabou ficando um mês naquele país. Quando estive lá em 2009, entendi por quê: a recepção dos mexicanos é encantadora. [18] No escritório da editora paulistana, ouvi Melo e Castro contar sobre o conteúdo do livro. Ele explicou que seria uma atualização de Poética dos Meios e Arte High Tech, de 1988. O título nessa época seria: Máquinas de trovar: poética, tecnologia e Aristóteles no computador. [19] Werner foi aluno de todos as disciplinas que lecionei no IEL-UNICAMP no pós-doutorado e foi meu orientando para a elaboração da monografia de graduação. [20] Edson Cruz me informou que o poema tinha sido escrito no dia 29 de outubro de 2021 e faria parte do novo livro dele, no prelo. [21] Esse conto foi publicado em uma plaquete (CASTRO, 2012) e em Textos do Eu Outro (CASTRO, 2018, p.127-139). [22] Essa entrevista foi revisada e publicada em O caminho do leve em português e inglês (CASTRO; FERNANDES, 2006, p. 217-237) e recebeu nova revisão e foi considerada como versão definitiva em Máquinas de trovar: Poética e tecnologia (CASTRO, 2008, p. 177-205). [23] Outros participantes do diálogo: Décio Pignatari (1927-2012), Elza Miné, Fernando Segolin (1941-2016), Lígia Chiappini, Maria dos Prazeres Gomes, Samir Meserani (1936-1999) e Valdevino Soares de Oliveira.

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