Treze poetas brasileiros do Maranhão

Atualizado: 19 de Dez de 2020

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



A ESPERA

Adriana Gama de Araújo


saudade

coisa que cheira a sangue

como o céu rebelado do poente

espero que a guerra acabe

teu corpo mina

o meu semente.



FUMÊS AO CREPÚSCULO

Antonio Aílton

Reinventar a vida é redimi-la de toda a sua crueza não de suas mediações É preciso desculpá-la em seu teatro cósmico e reconhecer que nós continuamos a ser tão ranzinzas, tão mesquinhos William Carlos Williams deveria estar vivo para ver este crepúsculo Diante do mar nós tiraríamos calmamente os nossos óculos



A MESMA QUÍMICA

Bioque Mesito


[A Nara Ferreira]

ao caminhar sozinho

aprendi que o amor

é uma simbiose de bocas

o que amamos gruda em nós

felicidade me parece

uma revoada de interrogações

lembro que saudade

não é uma escolha

abre fronteiras em meus amanhãs

meu destino

é beijar as flores

da planta de teus pés



ARARUTA

Carvalho Junior


somos feitos das mesmas fomes dos nossos pais,


das mesmas lenhas que os guardaram do frio súbito das noites caseadeiras de exílios.


de vez em quando, ouço de longe a voz da lágrima do meu pai e de minha mãe.


um quintal de ararutas nasce dentro do chão cansado dos meus olhos.



TESTAMENTO

Celso Borges


só sobrei minhas palavras

só réstia em suma perdas

certas partidas inacabadas

cactos

só sobraram cacos

fundas em voo

ácido parado


palavras

fado ou enfado

carreguei nos neurônios

na alma nos sonhos

nuas as vi nascer em mim

assim

palavras inteiras eternas primeiras


soçobrei

só sobrou espanto

breu brabo ás de baralho

brilha cesária bombril

palavra

a puta que me pariu



INVERNO, 2020

Dyl Pires


Um a um

estão indo todos

Pássaros que migram

no inverno

nunca retornam


Colorir a morte que havia em todas as coisas

foi a pulsação de uma vida

Mas ainda se faz necessário

antes que os coveiros sumam

preparar o funeral

dos velhos hábitos

se ainda almejamos dar ao coração

a flor de um outro mundo




O ESTADO DAS COISAS

Fernando Abreu

o que se pode esperar de um poema:

que fique de pé e ande sem muletas

mesmo sendo coxo como byron

que não faça ver o pior cego

mesmo sendo um glauco mattoso

que não tenha pena de seus leitores

como dylan thomas

mas que também não seja sádico com eles

como ninguém que eu lembre no momento

que aceite seu lugar no aqui agora

se houver um para ele

e que o tempo faça o resto

se der tempo

o que não se pode esperar de um poema:

lamentações em cima do muro

napalm em embalagem de sorvete

finalizações relâmpago para

comentaristas de UFC

isso até se pode esperar

considerando o “estado geral das coisas”

mas não se deve

ou deveria.



Voos

Franck Santos

Não tentei

Mas sei

Nós, aves, morremos dos voos

que não os demos.

[a serena possibilidade do abismo]



PUNK

Lúcia Santos

fuck it

a vida não é fake book

comercial de margarina

pose e look

mesmo fina

a dita dura da felicidade

só entra com vaselina




A CABAÇA

Luiza Cantanhêde


Sou essa terra de chão batido

Esse sertão da língua de cinza


A fome alada, o Carcará


Sou esse deserto de poeiras

longínquas

Sou água na cabaça, o arame

Farpado, cercando o latifúndio

De sol e estrada


Sou esse fruto no avesso da

Terra plantada.



REMANESCENTE

Neurivan Sousa


como profecia de outro recomeço

ainda resta um galho de oliveira

suspenso

pelos dedos dos céus sem clero


em meio à desolação radioativa

sob um sol sangrando a ira

de palestinos e judeus

pulverizados


um ateu no glade do êxodo

escapa ileso ao apocalipse.



SINGULARIDADES

Paulo Rodrigues


o céu preparava

a chuva

com a violência

de uma mulher

parindo

no temporal.



EGO SUM CORPUS MEO

Ricardo Leão


A Helena Russano Alemany


“Água é o meu próprio corpo,

simplesmente mais denso.

E meu corpo é minha alma,

e o que sinto é o que penso.”

Cecília Meireles


Meu corpo é minha alma

Atrás do espelho da face.

Ou talvez só um fantasma

Das alimárias do charme.


Meu corpo arqueja e fala

Além do riso e do alarde.

Quem sabe ao fim da farra

Com que gozamos de fraque.


Meu corpo soluça e brada

Às vésperas do voo da ave.

Ou à beira de tudo ou nada,

Quando amamos sem classe.


Meu corpo de gozo e alarma

Agarra as fímbrias da tarde.

As mãos ardentes em brasa,

O sexo em chamas e sabres.


Meu corpo de curvas magras

Às vezes é só a metade

Do êxtase que há no magma,

Da volúpia que há na carne.


Meu corpo dança sem farsa

Um flamenco que não cabe

Nas janelas de Alcobaça

Ou nos lábios da verdade.


Meu corpo não veste farda,

Nenhuma roupa de praxe.

Qualquer tecido de gala

Nas rubras noites de Marte.


Meu corpo arde em palavra

Ao longo da eternidade.

Logo abaixo das sandálias

Ouço o silêncio dos vates.


Meu corpo é minha água

Pelos desertos de jaspe.

De sua ânsia mais galaica

Toda nudez é um disfarce.


Meu corpo geme em valsa

Numa sala sem a chave.

Às vezes o amor não basta

Ao desejo que me parte.



AUTORES & PUBLICAÇÕES


I. Adriana Gama de Araújo [São Luís/MA]. Poeta e editora. Autora de Mural de nuvens para dias de chuva [poemas, Penalux, 2018] e TRaNSiTo [poemas, Olho D’água Edições, 2019].


II. Antonio Aílton [Bacabal – MA, 1968]. Poeta e professor. Autor de Cerzirlivro dos 50 (Poesia, Penalux, 2019), Martelo & flor: horizontes da forma e da experiência na poesia brasileira contemporânea (Tese-ensaio, EDUFMA, 2018), Os dias perambulados e outros tOrtos girassóis (Poesia, Fundação de Cultura do Recife, 2008), Compulsão Agridoce (Poesia, Paco Editorial, 2015), Humanologia do Eterno Empenho (Ensaio sobre a poesia de Nauro Machado, FUNC, 2003), As Habitações do Minotauro (Poesia, FUNC-MA, 2001).


III. Bioque Mesito [São Luís/MA]. Poeta. Autor de A inconstante órbita dos extremos (Editora Cone Sul-SP, 2001), A anticópia dos placebos existenciais (Edfunc-MA, 2008), A desordem das coisas naturais(Editora Penalux-SP, 2018) e Odisseia do nada registrado (Editora Penalux-SP, 2020).


IV. Carvalho Junior. Poeta e professor. Autor de Mulheres de Carvalho (Café & Lápis, 2011), A rua do sol e da lua (Scortecci, 2013), Dança dos dísticos (poemas, Patuá, 2014), No alto da ladeira de pedra (poemas, Patuá, 2017) e O homem-tijubina & outras cipoadas entre as folhagens da malícia (poemas, Patuá, 2019).


V. Celso Borges. Poeta, jornalista e letrista. Autor de, entre outros, NRA (1996), XXI (2000), Música (2006), Belle Époque (2010), Rimbaudemônio (Pitomba, 2014), O futuro tem o coração antigo (2013), A árvore envenenada (2018) e Carimbo Carinho (2019).


VI. Dyl Pires [São Luís/MA, 1970]. Poeta e ator. Autor de Queria falar do deserto dos dias apressados (Chiado books, 2019), Éguas (Pitomba, 2017), O Torcedor (Pitomba, 2014), O Perdedor de Tempo (Pitomba, 2012) e O Círculo das Pálpebras (Func, 1999).


VII. Fernando Abreu [São Luís/MA]. Poeta e letrista. Autor de Contra todo alegado endurecimento do coração (7 Letras, 2018), Manual de Pintura Rupestre (7 Letras, 2015), Aliado Involuntário (Exodus, 2011), O Umbigo do Mudo (Clara Editora, 2003) e Relatos do Escambau (Exodus, 1998).


VIII. Franck Santos [São Luís/MA]. Poeta e ficcionista. Autor de Fogo Fátuo [prosa poética, Aquarela, 2011], Quando o azul não desbotava (prosa poética, Penalux, 2014), Poemas para dias de chuva [poesia, Patuá, 2015], Do lado de cá do Atlântico [romance, Penalux, 2017] e Os mapas sinalizam ilhas submersas [contos, Penalux, 2018].


IX. Lúcia Santos [Arari/MA, 1964]. Poeta, atriz e letrista. Autora de Quase Azul Quanto Blue (1992), Batom Vermelho (1997), Uma Gueixa Para Bashô (2006) e Nu Frontal com Tarja (2016).

X.Luiza Cantanhêde [Santa Inês-MA]. Escritora/poeta. Autora de Palafitas (poemas, Penalux, 2016), Amanhã, serei uma flor insana (poemas, Penalux, 2018) e Pequeno ensaio amoroso (poemas, Penalux, 2019).


XI. Neurivan Sousa [Magalhães de Almeida-MA]. Poeta e professor. Autor de Lume (2015), Palavras sonâmbulas (2016), Minha estampa é da cor do tempo (2018) e da trilogia infantojuvenil O pequeno poeta.


XII. Paulo Rodrigues [Caxias/Santa Inês/MA]. Poeta e jornalista. Autor de O Abrigo de Orfeu (poemas, Penalux, 2017), Escombros de Ninguém (poemas, Penalux, 2018) e Uma Interpretação para São Gregório (poemas, Penalux, 2019).


XIII. Ricardo Leão [São Luís/MA]. Poeta, ficcionista, ensaísta e crítico literário. Autor de Simetria do parto (2000, poesia, Editorial Cone Sul), Tradição e ruptura: a lírica moderna de Nauro Machado (2002, ensaio, SECMA), Primeira lição de física (2009, poesia, SECMA), Os dentes alvos de Radamés (2009, 1ª. edição, SECMA; 2016, 2ª. edição, Benfazeja), No meio da tarde lenta (2012, poesia, Paco Editorial) e Os atenienses e a invenção do cânone nacional (2011, ensaio, 1ª. edição, Ética; 2013, 2ª. edição, Instituto Geia), A plumagem do silêncio (2015, poesia, Nobres Letras), Minimália ou O Jardim das Delícias (2017, poesia, Penalux), A episteme do efêmero (2020, poesia, Patuá).

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