Sonia Nabarrete - MINIANTOLOGIA DA FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA

PROSA VOLUME 5 NÚMERO 1


AMANTES DE SHAKESPEARE


Arnaldo, sabe quem eu encontrei hoje? A Telma e o Renato. Lembra deles? Ela era uma alta, tetuda e bunduda e ele, um cara boa pinta, moreno jambo. Os dois faziam parte daquele grupo em que rolava troca de casais e umas surubas.

Lembrou? Claro, você não esqueceria, como eu não esqueci. Eles eram bonitos e gostosos. Agora, estão de dar dó: o Renato, todo encurvado, dá uns passos curtinhos e deve achar que pinto só serve para mijar. A Telma, tão linda, virou uma pelanca só, imagino que com uma buceta engruvinhada e seca. Mas isto não é o pior. Ela está com a memória prejudicada e achou que eu fosse uma antiga colega de faculdade. Esqueceu das nossas brincadeiras tão divertidas e de muitas coisas mais. Coitados. E a gente poderia estar fudido como eles se não tivesse entrado no Projeto Anti-envelhecimento.

Agora, aos 80 anos, conservamos a aparência e a disposição que tínhamos aos 30, quando fomos escolhidos como voluntários. O fato do nosso filho ter acabado de nascer foi a principal motivação. Quando vi aquele serzinho sair de mim para a vida, fiquei aliviada porque ele era perfeito, mas também noiada. Puta medo de morrer antes que ele crescesse. Toda mãe tem essa neura.


Sabe, Arnaldo, acho que fizemos bem em participar do projeto. Não tivemos doenças nem nada associado à velhice. Nada de reumatismo, Alzheimer, rugas, cabelos brancos ou flacidez. E o melhor de tudo é que continuamos trepando como dois jovens cheios de tesão. O problema é que o projeto foi suspenso por força da sociedade religiosa e conservadora, essa gente que diz que só Deus pode dar e tirar a vida, e do governo, que mesmo limitando o número de filhos a um por família, temia a superpopulação.

É, Arnaldo, o tempo passou para todos, menos para nós. Os amigos e parentes estão velhos e estrupiados, muitos já morreram. Nosso filho é um senhor de 50 anos. Quando estamos juntos, o Junior passa por meu pai ou um tiozinho que se engraçou por uma gatinha, vê se pode? Eu fico angustiada só de pensar que ele provavelmente vai morrer de velhice antes da gente, já que nossa expectativa de vida é de 200 anos.


Arnaldo, eu me sinto só e deslocada neste mundo. Tenho aparência de 30 anos, mas quando converso com gente dessa idade, lembro que tenho 80 anos. Já quando converso com gente da mesma idade, não me identifico porque não tenho os mesmos problemas. Eu só consigo me sentir bem de verdade com os outros voluntários do projeto.

Conversei com eles e surgiu a ideia de morarmos todos os 40 em uma casa no campo. Já pensou, Arnaldo? Vamos reviver o sonho dos hippies: plantar, colher, tocar violão, cantar, andar nu, em comunhão com a natureza. Todos juntos em uma relação poliamor, ninguém é de ninguém, todo mundo come todo mundo. Muito sexo, drogas e rock and roll. Topa, Arnaldo?

Estou sabendo, a gente já fez isso, foi divertido na época, e você pode não estar a fim de repetir a dose. No fundo, também tenho receio de que a gente fique entediado. Poxa, Arnaldo, a gente já fez tanta coisa, praticou esportes radicais, viajou para tudo quanto é canto, conheceu gente para cacete, leu e estudou muito, às vezes tenho a impressão de que não há mais nada de novo a ser feito. Sabe o que eu acho? As coisas têm hora para acontecer. Há certas loucuras que só têm sentido quando a gente tem vinte e poucos anos. E tem mais: essa certeza de que a gente não morre tão fácil tira o encanto das coisas. Antes, a gente curtia cada momento porque de repente tudo podia acabar. Agora, essa sensação de imortalidade parece que banalizou tudo. Para ser ou não ser tem hora, sacou?

Fala comigo, Arnaldo. Essa tua mania de só ouvir feito coruja às vezes me irrita. Estou te achando estranho. Arnaldo! Ô caralho, não brinca assim. O que você tomou? Ah, que egoísta, seja lá o que for, tomou a porra toda sozinho. Cansou, né, Arnaldo? Quer saber? Também cansei. Mas você poderia ter sido mais elegante comigo. A gente poderia ter combinado uma eutanásia dupla assistida. Mas já que você se antecipou, vou dar uma de Julieta. Você sabe, eu sempre fui meio dramática. Só preciso de uma faca.


– Catarina, que merda você fez? Achou que eu tinha morrido, sua louca. Só exagerei um pouco no álcool e quando você começou a falar para cacete, acabei dormindo pesado. Mas não vou deixar você pagar esse mico sozinha. Dá aqui essa faca.


Paulista de São Caetano do Sul, Sonia Nabarrete é jornalista profissional e atualmente trabalha como freelancer na produção e revisão de textos. É autora da novela Eretos e de Contos Safadinhos, além de ter participado de várias antologias, de contos e poemas, no Brasil e em Portugal. Foi selecionada cinco vezes para a coletânea do Concurso de Microcontos do Salão de Humor de Piracicaba. Participa do Coletivo KriptoKaipora, que reúne autores de ficção científica e lançou a coletânea de contos “Era de Aquária - A Grande inundação”.

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