Sofia A. Carvalho

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



ARS POETICA INCONCLUSA


Por dentro

as mãos libertam o lixo

e a alma que tem fome de isqueiros

e mais não sei o quê

não sei da sobra das espinhas

e dos membros morrendo

sobre a página carbonizada


: as sílabas queimando

e tu

costas voltadas para o sol

sem rosto

escondendo o céu aberto sobre

a lâmpada – a mesma que cobre

a pele perfurada.




SOPRO INOCENTE


Há uma espécie de renascimento estranho

que começa do lado certo do nome.


O mesmo é dizer breve

como um sopro a descer

a solidão

e a povoá-la de gente.


Sente-se continuamente

e pode rebentar

a qualquer momento

nada a fazer senão

deixar os líquenes escorrer

pele abaixo

enquanto o corpo aumenta

as asas

o que pode acontecer

quando as ruas desertas

já não tiverem nada para dizer

e as árvores

suspenderem o voo até

à última nota.




BESOURO DE TRAZER POR CASA


Porque não sou besouro

a trazer no estojo a asa

deito fora as membranas

num gesto lépido de guardar

o esqueleto rígido.


Ficam as antenas

espécie mandibular de bico

conhecido também por rosto

à distância certa entre a cabeça

e o abdómen, ampliando os graus:

soube da estrutura receptora

variar mediante o tipo sanguíneo


diz-me


porque ao sistema respiratório,

de índole lisa e circular, convém

provocar o nervoso, que lhe é par,

sem estarem fundidos.


Não lhe dei resposta

e sem desprezar o argumento

troquei o bicho pelo poema


hábil a mostrar a luz polarizada.




A IGNORÂNCIA É UMA QUESTÃO DE CORDAS


Não o sabia

no entanto sabê-lo seria

inverter as cordas do piano

e a sua suave melodia

que tem muito de concreta se

bem lembro a lição dos quatro

minutos e trinta e três segundos.


Agora

só o som das cadeiras

ajeitando o corpo a favor

e os pulmões cheios de ar


não me incomoda isso

o silêncio sem margens


talvez

o ritmo seja outro

uma outra lucidez

possivelmente sonora

e os sentidos subam

um pouco mais

até o martelo beliscar

a garganta

verticalizando-a.




PALÍNDROMO LENTO


Governa-me a experiência simples

esculpida lentamente pelo grito.


Arrasa

não saber o que encontrar

na opacidade imediata do sonho –

se o que limita o passo se

o que atravessa a mentira

e os casos supridos do real.


Ando assim

alma nua e revelada

que das coisas se destaca

seja por dentro inventada

e por fora um nome

que não sei dizer

– o mesmo nome a sós.


Mas não espero do desejo

o osso

sem rasar a manhã e o corpo

oco.




ROUBO QUALIFICADO DE LISLE A DEBUSSY


Como se um detalhe desaparecesse

ao longe e o roubasse

como quando era criança

ao ver uma vitrina de gomas

ou quando subia aos telhados

com um segredo fechado nas mãos

feito de açúcar e pão.


Ia sempre pela manhã

defendendo o aspecto sagrado

da desobediência e a sua legítima alegria

– durante a subida furtiva

o vento e o antegozo passavam

desmedidos ora fazendo avançar

ora desautorizando o corpo.


Ninguém daquela altura

o céu cada vez mais perto

escaninho

ninguém sabia da liberdade simples

a transpor a terra

que não era deste mundo

ainda.


Ainda os tectos altos e o cheiro doce

excedendo-os como se

a rapariga dos cabelos de linho.




BOCCA DEL LUPO


Tão cedo não é possível um corpo,

uma cidade, um infinito mutilado,

um pouco mais baixo,

a carne.


Tudo isto já sabes, se preferes

a simplicidade e a solidão,

sem acidular as mãos.

E se a mão

transparente e lúcida,

cada vez mais lúcida,

a mesma que colhe uma flor

e castiga o verso,

a que excede o corpo a leste,

aumentasse o abismo a metade,

disputando-o? Talvez

sem saída o faro das coisas e o cair

da manhã.


A luz assim a passar, com o corpo desatento,

não atormenta e é como se tivesse acontecido.




UM MENOS ANTES DE ALGUMA COISA


Julgava que te tinha dito tudo

e agora as janelas

são o único espaço aberto

em que se pode respirar sem medo.


O mês de Abril chega assim

feito vidro

de tanta respiração lustrada

por detrás da vida que ninguém

sabe contar porque

nascemos num outro lugar

em que as coisas eram simples

e ninguém supunha um menos

antes de alguma coisa

assim tão subitamente

e o mar aberto em vau

sem ter pés

e um pouco de eternidade

aquela que leva o corpo à frente

sem duvidar da tormenta.


Eu sei

eu sei que o sono diz que é mentira

e qualquer manhã diz haver resposta

apesar disso.




UM GESTO SEM COISA NENHUMA LÁ DENTRO


Um gesto apenas


sobre o colo

um braço esquecido

sem pressa de cingir

coisa nenhuma


só ele e os nomes de deus

a lume

para que as almas

fiquem maiores deste lado


cada vez maior a noite

excedendo o seu peso

sem suspeitar do verbo

a repousar na atmosfera

inventada dos teus ombros

inadvertidamente.




Sofia A. Carvalho é doutoranda no Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa e bolseira da FCT, com um projeto sobre a obra e o pensamento de Teixeira de Pascoaes. Tem uma paixão pelo teatro que a levou a sair do lugar de espectadora e a frequentar o Curso de Formação de Atores. Escreve poemas, textos, ensaios e dança: coisas que gosta de fazer, tanto quanto de ler.

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