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SOBRE A TERRA DESOLADA DE T. S. ELIOT por José Arnaldo Villar


T. S. Eliot (1938), Percy Wyndham Lewis. Durban Art Gallery. © The Wyndham Lewis Memorial Trust/Bridgeman Images


Thomas Stearns Eliot, ou simplesmente, T. S. Eliot, nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos, em 1888 e faleceu em Londres, em 1965, aos 77 anos de idade. Norte-americano de origem, recebeu a cidadania inglesa, por ser, em suas palavras, monarquista em política, anglicano em religião e neoclássico em poesia. Assim como Ezra Pound, seu contemporâneo e amigo, foi um dos principais poetas de vanguarda em língua inglesa na década de 1920, embora profundamente conservador em matéria política, além de ser misógino e anttisssemita. Eliot se sentia desconfortável no mundo moderno, da democracia liberal, da economia capitalista e da separação entre Igreja e Estado: ele defendia um retorno aos valores clássicos da cultura europeia e sua visão de mundo era teocêntrica. Assim como Pound, Pessoa ou Mishima, desprezava o século XX e sentia nostalgia da Idade Média e do Renascimento. Paradoxalmente, em sua primeira fase criativa, foi um dos expoentes do modernismo nas letras norte-americanas, adotando o verso livre, a linguagem coloquial, citações intertextuais e sobretudo a montagem de fragmentos, à maneira da estrutura ideogrâmica de Pound. Montagem, no cinema, significa a sequência de diferentes planos ou cenas, intercalados por cortes; em poesia, quer dizer a sucessão de versos, estrofes ou partes do poema sem um nexo lógico aparente entre si. Nos Cantos de Pound, por exemplo, o poeta norte-americano intercala citações e episódios da Grécia clássica, da Idade Média europeia ou da China Imperial, em saltos espaciais, temporais e linguísticos. Eliot faz algo semelhante em seu poema, intercalando passagens descritivas, diálogos, episódios proféticos, citações de versos de outros poemas, em outras línguas, referências a diversos conteúdos culturais do Oriente e do Ocidente, mudanças abruptas de narrador, localidade e tempo numa única macroestrutura. O poema longo, em Pound como em Eliot, significa, à maneira de Edgar Allan Poe, a sucessão de poemas breves.


A influência da literatura francesa na poesia de Eliot é imensa. Após a I Guerra Mundial, o poeta residiu algum tempo em Paris, onde leu não apenas a poesia de Baudelaire, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé, mas também os poetas da vertente coloquial-irônica do simbolismo, como Jules Laforgue e Tristan Corbière, que exerceram profunda influência em sua poesia, pelo uso da ironia, da sátira, do verso livre, da temática prosaica, da linguagem coloquial e daquilo que Ezra Pound definiu como logopeia, ou “dança do intelecto entre as palavras”. O poeta também sentiu o impacto da leitura de Flaubert. Eliot sentiu, nas palavras do crítico norte-americano Edmund Wilson, que “a vida humana é ignóbil, sórdida ou doméstica. (...) Os burgueses têm medo de abandonar os seus impulsos. (...) Muito tarde na vida dão-se conta, tristemente, de que estiveram a viver de maneira cauta e mesquinha demais. O medo à vida, em Henry James, está intimamente vinculado ao medo da vulgaridade”. Na poesia de sua primeira fase, e sobretudo em seus dois poemas mais conhecidos, The waste land / A terra devastada e The hollow men, Os homens ocos, essa percepção da banalidade e mediocridade da vida cotidiana assumirá o primeiro plano. De Paris, o poeta viajou para Londres, onde foi atraído pelas religiões orientais, em especial o hinduísmo, tendo estudado sânscrito – há citações do Bhagavad Gita em The waste land. Foi discípulo do místico armênio Gurdjieff, autor do livro Encontros com homens notáveis, até por fim converter-se à religião anglicana, decisão que influenciou em seu pedido de cidadania inglesa. A crítica à banalidade da vida cotidiana, o desconforto em relação à modernidade, a inclinação para a espiritualidade e a cultura enciclopédica de Eliot deram origem ao poema capital do século XX, The waste land, publicado pela primeira vez no jornal The Criterion em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, e também da publicação de Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade, Ulisses, de James Joyce e Trilce, do peruano César Vallejo.


Para escrevê-lo, Eliot tirou uma licença do Banco Lloyds, onde trabalhava, e passou um período de convalescência em Lausanne, na Suíça. O poeta se encontrava fatigado pelo trabalho excessivo e preocupações familiares que afetavam sua saúde física e emocional. Há uma referência a isso no verso "Junto às águas do Léman sentei-me e chorei..." Eliot provavelmente trabalhou no texto que se tornou The Waste Land por vários anos antes da sua primeira publicação em 1922. Em uma carta de maio de 1921 ao seu advogado em Nova York e patrono do modernismo John Quinn , Eliot escreveu que tinha "um longo poema em mente e em parte em papel que desejo escrever". O poema foi desenvolvido num período em que Eliot se encontrava em crise conjugal – sua esposa, Vivienne, sofria de distúrbio psiquiátrico, sendo posteriormente internada em um manicômio, talvez sem diagnóstico preciso – ela sofria com menstruação pesada e irregular, que causava alterações de humor, desmaios e enxaquecas. Sua mãe dizia que a filha sofria de “insanidade moral” e um médico a diagnosticou como “histérica”, prescrevendo para ela brometo de potássio, para sedá-la durante as crises. O casamento com Eliot não melhorou as coisas para Vivienne e o casal tinha constantes discussões, por exemplo, sobre ter ou não filhos. Este episódio biográfico aparece em diversas passagens do poema, inclusive em reproduções de falas de Vivienne – “por que casou, se não queria filhos”? O poema de Eliot é, ao mesmo tempo, um registro pessoal e de época, revelando o desencanto do autor com a situação da Europa após os horrores da I Guerra Mundial, tema também presente no poema de Ezra Pound Hugh Selwyn Mauberley. Neste sentido, podemos dizer que o poema é uma alegoria, em que se entrecruzam a confissão autobiográfica, o desconforto com a história e ainda a dimensão metalinguística, uma vez que a linguagem adotada por Eliot é também uma crítica à linguagem poética convencional dos autores de seu tempo – assim como acontece na poesia de Jules Laforgue e Tristan Corbière. É um poema de ruptura radical com a lírica de seu tempo, que indica, já na materialidade verbal, outros caminhos possíveis para a poesia.


O poema contou com a importante revisão crítica efetuada por Ezra Pound, que o leu e sugeriu diversos cortes -- a parte IV, Death by Water, foi reduzida de noventa e duas linhas para apenas dez linhas. Eliot não apenas aceitou a revisão feita pelo amigo como dedicou o poema a ele, com as seguintes palavras: a EP, il miglior fabro, numa alusão ao verso 117 do Canto XXVI do Purgatório de Dante, que assim chamou o trovador provençal Arnaut Daniel. The waste land – ou A terra devastada, arruinada, desolada –em sua versão final, é um poema longo dividido em cinco partes: O enterro dos mortos, Uma partida de xadrez, O sermão do fogo, Morte por água e O que disse o trovão. O texto do poema é seguido por várias páginas de notas, que pretendem explicar suas metáforas, referências e alusões. O poema é antecedido por uma epígrafe de Petrônio em grego e latim, que diz: “Pois com meus próprios olhos vi em Cuma a Sibila, suspensa dentro de um vidro, e quando as crianças lhe diziam ‘Sibila, o que queres?’, ela respondia: ‘Eu quero morrer’.” O plano geral do poema parte da narrativa de um moderno cavaleiro do Graal pela terra contaminada pela esterilidade do Rei Pescador, personagem dos romances de cavalaria do ciclo arturiano. Este rei era o último de uma linhagem responsável pela proteção do cálice que Cristo utilizou na Santa Ceia, mas, ferido nas pernas e nas virilhas, incapaz de se locomover por conta própria, ele se tornou impotente, e assim a própria terra se tornou estéril – a terra e o rei são um só. Nada mais resta ao rei senão pescar no rio próximo a seu castelo, à espera da chegada de um cavaleiro que possa curá-lo e prosseguir com a sua tarefa. Em alguns dos romances do ciclo do Graal, este cavaleiro destinado à redenção do rei e do reino é Parsifal, cuja saga é contada nos romances medievais de Chrétien de la Troyes e Wolfram von Eschenbach. Eliot retoma o mito medieval, mesclando-o a outras referências culturais europeias e orientais, de diferentes tempos históricos, para criar a sua nova jornada arquetípica, onde o cavaleiro, talvez o narrador no poema, não encontra, no final da saga, o cálice sagrado, mas a desolação do nada. O impacto da obra foi enorme, a ponto de o próprio autor assustar-se com sua audácia e escrever a seu amigo Richard Aldington, no mesmo ano de publicação do poema: "No que diz respeito a The waste land, esse poema ficará no passado, pois agora estou trabalhando com formas e estilos diferentes", declaração que prenuncia sua futura adesão a uma estética neoclássica, presente em poemas como Quatro quartetos.


Vamos agora apresentar, brevemente, uma análise das cinco partes do poema.


I – O ENTERRO DOS MORTOS

O título sugere uma néquia, ou descida ao mundo dos mortos, como acontece na Odisseia de Homero, na Eneida de Virgílio ou na Comédia de Dante. O verso inicial, “Abril é o mais cruel dos meses”, diz respeito à estação do ano, assim como o kigo, ou signo sazonal, na poesia japonesa. Conforme Vamberto de Freitas, “em Terra Devastada, T. S. Eliot elege o mês de abril como ‘o mais cruel dos meses’ porque é o tempo da morte presente dando lugar ao renascimento da vida, a podridão da terra transformando-se no campo de cheiro e brilho primaveril, a semente e a flor prometendo a visão de todos os paraísos perdidos”. Nesta seção do poema, encontramos imagens da natureza que representam a desolação, como “agônicas raízes”, “lilases da terra morta”, “secos tubérculos”, “imundície pedregosa”, “feixe de imagens fraturadas”, “pedra seca”, “árvores mortas”. Há várias vozes narrativas no poema, femininas e masculinas, na primeira e na terceira pessoa, e a passagem de uma voz para outra não é sinalizada no poema. A dimensão espacial é múltipla, variando de Munique, na Alemanha, para Londres, na Inglaterra, bem como a dimensão temporal, situada ora na época da Grécia Clássica, ora na idade medieval, ora na contemporânea. O tom emocional que predomina no poema é o de medo – “Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó”. Há poucas personagens femininas no poema, a Menina dos Jacintos, uma lembrança do passado, e Madame Sosóstris, a cartomante, além da citação da Senhora Equitone. Na consulta que o consulente faz com a cartomante, para saber o seu destino, o jogo de cartas aconselha-o a temer a morte por água, logo, a evitar viagens marítimas. Há citações de versos de Tristão e Isolda, de Wagner, em alemão, e das Flores do mal, de Baudelaire, em francês; esta última citação, o poeta se identifica com o leitor.


GLOSSÁRIO

O lago de Starnberg (em alemão Starnberger See) é um grande lago situado ao sudoeste de Munique na alta Baviera (Alemanha).

Hofgarten (O Jardim da Corte) é um jardim de estilo italiano construído no século XVII no centro de Munique.

Bin gar keine russin, Stamm aus Litauen, echt Deutsch, “Eu não sou russo, mas lituano – um verdadeiro alemão”

Linhas 5-8 do Ato I de Tristão e Isolda, de Richard Wagner. Tradução:

Fresco sopra o vento

para casa

Meu irlandês criança

onde você está agora?

Oed 'und leer das Meer

Verso de Tristão e Isolda - linha 24 do Ato III, traduzindo como:

Desolado e vazio é o mar!

King William Street é o núcleo histórico e moderno do centro financeiro de Londres.

Mary Woolnoth é uma igreja anglicana construída em Londres.

Mylae foi o local de uma antiga batalha naval entre Cartago e Roma.


II – UMA PARTIDA DE XADREZ

A segunda parte do poema inicia com a descrição de um cenário luxuoso, aristocrático, e logo surge a referência a Filomela, personagem da mitologia grega, filha de Pandião I, rei de Atenas. Filomela foi violentada por seu cunhado Tereu, rei da Trácia, casado com sua irmã, Procne. Para impedir Filomela de denunciar a violência sofrida, Tereu corta-lhe a língua. Apesar disso, Filomela consegue informar sua irmã sobre o acontecido, bordando uma mensagem numa tela. Ao saber do crime do marido, Procne mata o filho do casal, Ítis, e serve a carne da criança em almoço a Tereu. Para escapar da perseguição de Tereu, as duas irmãs pedem ajuda aos deuses, que as transformam em pássaros. Filomela é transformada em rouxinol, e sua irmã, numa andorinha. Tereu é transformado em uma poupa. Temos aqui, portanto, um episódio de metamorfose, ao gosto de Ovídio. Este episódio mitológico também é referido por Dante na DivinaComédia. Em seguida, num corte brusco de cena, Eliot nos apresenta a um diálogo entre um casal entediado, Albert e Lil, possivelmente uma alusão ao seu relacionamento difícil com a esposa, Vivienne. Não existe mais comunicação entre eles, que mal se suportam. Um outro diálogo é apresentado, em tom mais coloquial e prosaico, entre Lil e uma amiga, com referências a tratamentos odontológicos e abortos. Uma frase se repete várias vezes, em letras maiúsculos, como um refrão, DEPRESSA, POR FAVOR É TARDE. Se na primeira parte do poema houve referência ao jogo de cartas do tarô, aqui há uma referência metafórica ao jogo de xadrez. Em ambos os casos, a palavra jogo remete às ideias de divertimento lúdico, regras que devem ser seguidas pelos jogadores, um prêmio que é o objetivo do jogo e sobretudo a relação entre o pensamento lógico e o acaso, que regem a vida humana. O jogo pode ser uma metáfora de nossa existência, de nossas escolhas e daquilo que colhemos por nossos atos – o que se resume na palavra Destino.


III – O SERMÃO DO FOGO

A terceira parte do poema é ambientada em Londres. O rio Tâmisa, poluído com detritos da civilização industrial, perde sua aura mítica, as ninfas partiram. A imagem do rio que flui sem cessar simboliza o tempo e a impermanência de todas as coisas; o devir temporal, comparado por Tales de Mileto à água, e representado por Heráclito de Éfeso como o fogo, que consome todas as coisas, daí talvez o título O sermão do fogo, que também parodia o Sermão da Montanha. Em uma mudança de cena, o narrador agora encontra-se sentado às margens do Lago Leman, na Suíça, pescando solitário, como o Rei Pescador da saga arturiana. Ele se recorda de seu pai e irmão, ambos reis e já falecidos. Essa imagem arquetípica logo é interrompida pelo rumor de buzinas e motores, por uma citação de um verso de Verlaine e por uma sequência onomatopaica. Em seguida, há um episódio em que Eliot introduz um personagem, o Senhor Eugênides, mercador de Smyrna, antiga cidade grega localizada hoje na Turquia. Embora o personagem nos remeta ao antigo mundo grego – ele carrega passas coríntias no bolso e fala francês com sotaque demótico --, a cena se passa em Londres, no século XX, e o estranho personagem convida Eliot para um almoço no Cannon Street Hotel. Em seguida, o narrador se identifica como Tirésias, o adivinho cego da mitologia grega, mas ele se locomove na Londres do século XX e fala sobre o cotidiano de uma datilógrafa que sai do trabalho para cuidar das tarefas de casa e encontra o seu amante, que ela recebe meio entediada, uma antiodisseia que Eliot compara com o retorno de Odisseu a Ítaca e aos braços de Penélope, numa releitura que dessacraliza o mito. A perambulação do narrador por Londres e as comparações com eventos e personagens mitológicos recorda o périplo de Leopold Bloom no Ulisses de James Joyce e o de Cesário Verde, em seu poema O sentimento dum ocidental, que parodia as aventuras de Vasco da Gama em Os lusíadas.


Após as estrofes de versos mais longos, próximos ao ritmo da prosa, Eliot insere duas estrofes de versos mais breves, como se fosse uma canção, com o estribilho Weiala leia / Wallala leialala, palavras abstratas – sendo que Wallala pode ser uma deformação de Wahalla, a morada dos deuses nórdicos. A melodia dos versos contrasta com as imagens prosaicas da sociedade industrial – petróleo, alcatrão, barcaças que transportam toras de madeira. Após a perambulação do personagem por diferentes localidades de Londres, ele finaliza a seção do poema com um lamento, associando Londres com a antiga cidade fenícia de Cartago, destruída nas guerras púnicas.


GLOSSÁRIO

Lago Léman ou Lago Lemano, que se chama Lac Léman na França e na Suíça, mas que é conhecido nalguns países como Lac de Genève, é um lago situado na França e na Suíça. É o maior lago da Europa.

A Queen Victoria Street é uma rua em Londres batizada em homenagem à monarca britânica que reinou de 1837 a 1901.

Leicester foi um conde inglês que teria tido relações amorosas com a rainha Elizabeth.

Highbury, Richmond e Kew são distritos e bairros da cidade de Londres.

Moorgate é o centro de Londres e importante distrito comercial.


IV – MORTE POR ÁGUA

A sessão mais breve do poema, composta por apenas dez versos, dispostos em três estrofes, cujo título remete à previsão da cartomante Madame Sosóstris, em O enterro dos mortos. Temos aqui um breve relato sobre a morte de Flebas, comerciante fenício, em um acidente marítimo, que termina com a frase “Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu”, verso que nos faz pensar na brevidade da vida humana.


GLOSSÁRIO

FLEBAS, referência e um ritual que consistia em jogar a imagem de Flebas nas águas do Nilo, arrastá-la e depois recuperá-la, simbolizando a ressurreição do deus, o fim de uma estação e a renovação da terra. A água aparece aqui pela primeira vez no poema, que tratou de terra e fogo.


V – O QUE DISSE O TROVÃO

Nas primeiras estrofes desta seção do poema, do verso 331 ao 369, o poeta nos apresenta a imagem de uma montanha, na qual ele não encontra água para matar a sede. Nas estrofes seguintes, pergunta a um interlocutor, não nomeado, sobre a identidade de seu companheiro de viagem; ouvem um som que não sabe definir e apresenta a imagem apocalíptica de cidades destruídas – Jerusalém, Atenas, Alexandria, citando ao lado delas as cidades contemporâneas Londres e Viena. Uma mulher misteriosa de longos cabelos negros canta, numa paisagem de morcegos. Agudas vozes emergem de poços exauridos e cisternas vazias, como se fosse uma imagem dantesca. A atmosfera fúnebre é reforçada pelas imagens de covas, túmulos, uma capela vazia sem janelas, ossos secos e uma rajada úmida que traz a chuva. Nas estrofes finais, o poeta faz diversas referências a Coriolano, personagem de uma peça de Shakespeare, à ponte de Londres, que aparece caindo – queda que possui valor simbólico --, a versos do Canto XXI do Purgatório de Dante e de Gerard de Nerval. Há também referências à cultura védica da Índia. Cita o rio Ganges, personificado na deusa Ganga, e Himavant, divindade das montanhas dos Himalaias. Na última estrofe, reaparece também o Rei Pescador – “Sentei-me junto às margens a pescar / deixando atrás de mim a árida planície”. Mais adiante, ele diz “Com fragmentos tais foi que escorei minhas ruínas”. O Rei Pescador aguarda a vinda do cavaleiro do Graal que irá curá-lo de sua ferida e redimir a terra, mas ele não vem. A terra permanece arruinada, desolada ou devastada.


GLOSSÁRIO

DAYADHVAM, compaixão em sânscrito.

DATTA, caridade em sânscrito

DAMYATA, autocontrole em sânscrito.

SHANTI SHANTI SHANTI é um mantra hindu, que repete três vezes a palavra paz.

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