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Seis sonetos de Contador Borges




DOS AMORES SÁFICOS


I.


Outro dia, quando voltavas do templo

Após queimar nos altares o incenso

Perfumado, a lua tocou tua fronte

Com os dedos rosados. Eu fiquei tonta.


O deslumbre me ofuscou os sentidos

E nesse instante temi pelo juízo,

Pois o que via não era só beleza,

Mas a tua metamorfose em deusa.


Por certo sou etérea, filha da noite.

Então pensei em me transformar em loba

Para matar com teus beijos minha fome.


Altiva, me ignoras como um espectro

A própria sorte; eu, em troca nos versos

Celebro tua vinda e ao céu te elevo.



II.


Ninfa olhos de pomba cinza grafite,

Me esnobas e não acolhes meu pranto.

Nem donzelas de Pyrha, nem de Metymnia,

As virgens, me deixam com esse quebranto.


Se esta é a minha situação-limite

E nesse amor-perdição sou a vítima,

Vou depor aos pés de Apolo a lira Aônia

Que em meu canto sou apenas uma sombra.


Hoje acordei de um sonho em que eras

Um pássaro que vivia em meus cabelos

Esparsos sobre os ombros. Mero desejo?


Quando esfreguei a vista, pela janela

Entrou uma fúria de ferir rochedos

E atravessou meu peito: Eros? O vento?



III.


Só posso te dizer, criatura, no ar

Marinho em língua grega feita de areia

Que o paradoxo de minha sina é te amar

Às pressas na infinitude das pedras.


E se em tua escuta meu canto é aragem

Saiba que surgiu sombrio ao som da lira

Vindo do exílio dessa estreita margem

Que me fez a Musa para que eu respire.


Desde que vi teus movimentos em passos

De dança emulando em meus olhos o brilho

Das coisas aéreas foi mais que um aviso.


E só quando o solo teus pés de pássaro

Tocaram de novo fizeram sentido

Para mim os mistérios do indizível .



IV.


O que sou agora, alma decifrada

Em papiros milenares, senão parca

Lembrança do que foi em intensidade

Máxima minha exuberante carne.


Como na vez em que os nossos amores,

Num bosque deleitoso de macieiras

E em meio ao vento e às folhas trêmulas,

Voaram juntos para o espanto das flores.


Só sei que onde havia rosas o tempo

Com sua mão filamentosa fez feio

Deserto e na fita do sonho deu nó.


Se hoje gozo da cena em memória,

O registro dessa imagem ilusória

No papiro amarelo é traço seco e pó.



V.


Por que me olhas assim fauno deitado

Em minha sombra durante toda a tarde?

Porque sou híbrida como tu, metade

Carne, metade sonho, os pés alados?

E se sou talhada nessa ambiguidade,

Por que ao fim de uma paixão eu acabo

Ficando em minhas mãos só com uma parte?

Espero que não seja por mau-olhado.


Falando agora a sério como quem brinca

Com a desgraça e troça de seus fracassos,

Eu afirmo isso e assino embaixo:


Se em meu olhar é outra o que cobiças,

Por sinal a mesma virgem que desejo,

Saiba que o recíproco é verdadeiro.



VI.


Quantos corpos não desejei sem conhecer

A dona, só de olhar os ombros saindo

Do peplo ou fora do drapeado quíton

Para ao sol intermitente enrubescer?


O desejo faz a noite em meus desvelos

E desvendo em cada nudez os segredos.

Mas se tenho os corpos que desejo, apenas

Um eu amo em milhares de centenas.


Pudera desse amor morrer tão dócil,

Pois sendo mais intenso ele dura menos

Quanto mais fulgura por ser efêmero.


O inverso disso é minha lira em ossos:

Fracionária, consoante, melífona,

E que afinal de contas para mim é toda.



 

Contador Borges, poeta, ensaísta e dramaturgo tem vários livros publicados. Seus títulos mais recentes são: O Fim da Beleza (ensaio, 2018), e Jeane Birkin no Purgatório (teatro, 2019).

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