Sapatos de camurça azul por Nelson Lourenço

PROSA VOLUME 2 NÚMERO 5



Os sapatos de Elvis nunca foram lá grande coisa, mesmo nos tempos em que ele era o Rei. Tinha, é verdade, manias, caprichos. Era capaz de gastar milhares de dólares em macacões de camurça, anéis extravagantes e cinturões de boxeadores cravejados de pérolas. Mas não se importava muito com os sapatos.

Quando despertou naquela manhã, ao lado de uma garota magricela, um tanto estremunhado, camiseta branca e sunga estampada, Elvis observou o par de mocassins azuis reunidos no chão, ao lado da cama, e pensou que era hora de arranjar um calçado novo.

Vestiu o mocassim, sem perceber que estava sendo observado pela garota, ergueu-se e olhou pela janela para checar se o Mustang prateado ainda estava intacto na entrada da casa, do modo que o deixara estacionado na noite anterior. Era sábado, primeiro dia de novembro. As folhas soltas do outono se reviravam lá fora, tocadas pelo vento, em torno do automóvel.

Voltou então seus olhos para o interior da casa. Sua Graceland naqueles dias não passava de uma construção em madeira, a cerca de dois quilômetros da estrada e perto de um estacionamento de trailers, nos arredores de Las Vegas. Uma casa modesta pintada de branco e atulhada de lembranças do tempo de quando ele era o soberano do rock´n´roll. Algumas daquelas velharias ele ainda usava em suas esporádicas apresentações de cover de si mesmo.

— Já é a milésima vez que você olha esse carro – resmungou a garota, correndo os dedos pelos cabelos, ainda enfiada na cama.

“Qual o nome dela mesmo?”, pensou Elvis. Não lembrava ao certo se era Winnie ou Wendy. Resolveu arriscar:

— Wendy, benzinho, deixe que eu me preocupe com o carro.

Wendy – aposta correta – deu de ombros e se revirou na cama, que ocupava quase por completo uma das paredes acolchoadas do quarto.

O dono do estacionamento vai acabar te despedindo – disse Wendy, antes de se virar novamente para Elvis. Era quase um espectro, enrolada no lençol. Alguma estimulante que eles haviam partilhado na noite anterior estava fazendo efeito contrário naquele exato momento.

“Com os diabos, sou o Rei. Posso conseguir qualquer outro emprego”, Elvis pensou, num arremedo de grandiosidade.

Teve a chance de admirar novamente o Mustang quando saiu gingando para deixar o lixo na calçada. A vizinhança tranquila era composta de poucas casas e permitia que ele ouvisse o farfalhar do vento agitando as palmeiras no final da rua.

Apesar dos quilos a mais, ele permanecia ativo. Ensaiou alguns golpes de caratê no ar, contra um inimigo imaginário. Depois assobiou uma melodia – Suspicious Minds – para rebater a calmaria daquela manhã. Silêncios prolongados o deixavam incomodado.

Olhou então o interior da caçamba de lixo e viu o prospecto. “O melhor dos anos 60. Um grande musical de Frank Alvarado. Somente hoje no cassino Foxwood“, dizia o papel amarrotado, com a imagem de uma cantora platinada ao microfone.

— Filho de uma puta.

Voltou à casa, arrastou o corpanzil até a sala, colocou o prospecto na mesa de canto e acomodou-se no sofá de veludo púrpura, ainda olhando para o anúncio. Ligou a tevê. Aquela continuava sendo sua distração predileta.

Passou rapidamente pelos noticiários. Uma missão espacial enviara imagens nunca vistas do chão vermelho de Marte, e agora estava sem comunicação com a Terra. Elvis sorriu ao ver o robô percorrendo o solo inóspito. Muitos achavam que ele era um extraterrestre.

Depois, informações urgentes do mundo do show business. Um empresário de uma banda grunge fora encontrado morto em sua casa, em Los Angeles. Metera uma bala na cabeça. Os ratos da imprensa estavam explorando o caso, os sórdidos detalhes.

Mas Elvis, um sobrevivente, não prestou atenção. Ele pensava no show que ia acontecer naquela noite, no cassino Foxwood. Tinha tantas ideias para aquela volta triunfal e agora uma loira platinada e desconhecida havia tomado o seu lugar.

Pense, Elvis, pense. Você ainda é o Rei...

O show de Frank Alvarado, aquele maluco dono de cassino em Vegas, era a chance de ele brilhar novamente, sem as rédeas do coronel Parker.

Olhou mais uma vez o prospecto que recolhera na caçamba de lixo e deixara sobre a mesa. Ele fizera testes para o papel de si mesmo. Elvis cantando O Sole Mio e outros standards. Mas havia falhado na execução do ato final. Impossível reproduzir, depois de tantos anos, o gingado que exibira em Bossa Nova Baby. Tentou em vão convencer Nick Sullivan, o produtor, de que não era preciso balançar o corpo todo. Bastava mover o músculo certo, e o público viria à loucura.

Mas agora Elvis tinha uma carta na manga para um novo teste. Um truque das antigas. Um número em que ele começa a cantar com voz suave, meio em falsete, girando o quadril e dobrando o pescoço com energia para a esquerda e depois para a direita, a cada verso:

You look like an angel

Walk like an angel

Talk like an angel

But I got wise

Então, no último verso, ele passa a chacoalhar todo o corpo, como se estivesse tomado por um espírito ruim:

You´re a devil in disguise

Oh yes, you are

Devil in disguise.

Hey, baby, não estou me sentindo bem – disse Wendy no outro cômodo, ainda na cama, interrompendo os pensamentos do Rei.

— Vou preparar algo pra você, honey – anunciou o Rei, erguendo-se de repente.

Não quero mais provar as suas misturas – protestou a garota.

Mas não havia como detê-lo. Elvis se considerava um expert em medicamentos.

Foi até a cozinha, abriu algumas cápsulas de comprimidos e moeu pacientemente o conteúdo em um copo grande. Depois despejou um pouco de água sobre a mistura para formar um caldo viscoso. Dando-se por satisfeito com seu elixir, voltou ao quarto e fez Wendy sorver tudo em grandes goles.

Ele esperou que a garota finalmente adormecesse. Em seguida, levantou-se e procurou no armário seu macacão mais extraordinário, de gola alta e adornado de brilhantes e franjas, na cor azul-celeste. Depois de vesti-lo, ainda teve tempo de dar uma boa espiada em Wendy, antes de sair.

Desligou o alarme do Mustang, entrou no bólido e deu a partida ruidosamente.


Sapatos de camurça azul é um excerto de Paraíso Selvagem, romance do autor em finalização.



Nelson Lourenço é escritor e jornalista. Publicou os contos Homem-Placa na Folha de S. Paulo (2008) e Uma Última Dança, na coletânea “Mecanismos Precários”, Editora Terracota (2010). Foi curador da FLAQ – Festa Literária de Aquiraz e ministrante de oficinas literárias no Centro Cultural Eldorado, em Diadema. Vive em São Paulo.

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