Rodrigo Briveira

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



PARA ENFRENTAR OS SEUS MEDOS



ratos miram-me dentre os livros alguém diz que devo enfrentar meus medos aranhas com feições humanas ocupam a cozinha alguém diz que devo enfrentar meus medos uma cobra me persegue veloz feito um cachorro alguém diz que devo enfrentar meus medos perco-me em lugares onde nunca estive alguém diz que devo enfrentar meus medos quando chove quase sempre estou na rua e só alguém diz que devo enfrentar meus medos corro de ladrões sem sair nunca do lugar alguém diz que devo enfrentar meus medos as noites são turvas lentas solitárias perigosas alguém diz que devo enfrentar meus medos às vezes sou atropelado por um veículo alguém diz que devo enfrentar meus medos três crianças sem rosto entraram no meu quarto alguém diz que devo enfrentar meus medos algum peralta passa por debaixo da minha rede alguém diz que devo enfrentar meus medos um homem alto e encapuzado me olha no escuro alguém diz que devo enfrentar meus medos uma pessoa me espreita pela janela do quarto alguém diz que devo enfrentar meus medos paralisia do sono não não consigo me mexer alguém passa pelo mesmo pesadelo e eu digo você precisa enfrentar os seus medos

O ESPELHO



olhei no espelho o rosto que não mais era o meu ele deitara fora todas as expectativas e fui obrigado a olhá-lo

o espelho virou a minha máscara ele esperou por este momento por tanto tempo em que teria sua vingança

o ar de verdade mesmo fingida era a última fisionomia

que me restava máscara que nada reflete ou transluz mas onde tudo se dissipa

pisco os olhos e o espelho ri de mim e devolve-me ao mundo com um ar de estrangeiro




SE NECESSÁRIO



abandone qualquer estúpido estoicismo

masturbe sua língua more num hospício seja o pedaço destroço entulho desastre escombro

antes prefira tormenta a calmaria fel pode ser leite um dia lamba a lâmina morda a fala beije a agonia

troque o mel pela abelha enfurecida

permita-se ter uma perversão mesmo pequena ou indefinida

só não seja o cão tolerado pela gerência por ser inofensivo

se necessário morda




OFERENDA


Para Izabela Leal


noite banquete profanação santos azuis e anjos nus sentam-se à mesa

o festim famigerado é servido meu corpo é templo de insetos e deuses

sou oferenda em minha própria carne sou sacrifício dado ao mundo seus dentes latejam na boca de um cão

líquida a lua sobe ambrosia entre cio e sono visto a vigília

feras genuflexas nos ares gritam depois descem em silêncio sobre mim e lhes digo comei e bebei

o canibalismo é permitido e consanguíneos beijamos a mão da mesma mãe

mas em vez de mão lembramos sua ausência e beijamos a sua faca

esta hóstia hostil




Rodrigo Briveira. Belém (Pa), 1985. É poeta, professor, performance em projetos de videoarte e videoartista, além de organizar saraus com outras poetas no coletivo “Povo da Noite”. Colaborou em algumas revistas literárias e, recentemente, na Revista Zunái com a tradução de dois poemas da poeta argentina Laura Yasan. Possui um poema no livro A Hora do Pesadelo: Paixões Distópicas em Educação (Edições Sulinas, 2018). É autor dos livros artesanais Deve Ter Fim (Edições ¼, 2017) e O Pecado de Voar (Edições do Escriba, 2018); e dos zines Escombros (2019) e Plumas (2020). Possui alguns videopoemas publicados na internet, em especial A minha altura gravado pela TV Cultura em 2019. Website pessoal

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