Ricardo Carranza

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 1


Tantas horas gastas à perfeição:

eu me embriaguei de todas as fontes

enquanto a beleza era a única fonte.


Folhas delineadas, uma a uma, pelo sol,

e negras, unidas ao anoitecer,

de todas eu ouvi o arrastar do vento.


Tantas horas gastas à perfeição:


vingará a delicada chama da primavera?


* * *


Manhã de inverno.

Meus passos roçam nos passos das estações.


O céu é gaze cinza rasgada de azul

e o sabiá laranjeira escurece no telhado.


O esmalte do asfalto

se esfrega nos meus pulsos

como escamas de salmão.


Na esquina

a cascata de ouro e verdura

se enrosca na ferrugem do poste.


Da escória vertical

o rosto de mulher

é um túnel de luz.


(Através do silêncio

vejo beija-flores incandescentes

e sempre-vivas em combustão.)


Dias de tinta roxa na carcaça –

não basta olhar,

a vida quer tocar e ser tocada –

então os dedos fundos

no rosto de manteiga.


Rastejo em câmara lenta,

escavo com as unhas

o útero do labirinto.


* * *


Depois de uma vida, o casal desperta:

grão de sol gravidade zero,

a abelha adejou no café da manhã.


Saem de casa

com o sol zumbindo

nos bolsos, nas casas dos botões, nas dobras da blusa.


* * *


Um dia qualquer

a morte acena no horizonte,

e o parafuso de aço –

porca e contraporca,

se atarraxa

na espinha do homem todos os homens.


Pão dourado em fogo brando,

celebra-se

a beleza do contraste.

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