PANTHALASSA (Fragmento) por Isadora Salazar






DIA 0

Primeira Estrela


A vida comprimido.

Naquele dia, braços em riste,

rodei Mulher Maravilha de seriado.


“Tira essa criança daqui”,


gritou meu pai, Esgar Borges, boca espumosa e já travado no escape da mira do meu único e último laço da verdade. E eu, mão na cintura, em meio a ação de ser afastada de meu alvo por MãePrimido e outros braços mais mandados ou submissos do que os meus, continuei valentia enquanto ele força e tapa “some com essa criança da minha vida!” fez-se fel e confesso sob a crueza da minha primeira e grande laçada. “Vou mudar para a casa da minha tia no Rio de Janeiro, pelo menos lá eu tenho amor, família e carinho”, sentenciou MariaGata. “Vai te embora logo daqui filha da puta”, vaticinou Esgar. “Pelo menos lá não vou ter nenhum pai para passar a mão na bunda das minhas amigas!” despejou MariaGata

E dito isso

Esgar passos firmes e muito e muito ódio nas mandíbulas e bochechas

levantou rápido demais em direção ao quarto do casal

tocou na arma

alto no maleiro

bateu

e a arma caiu para detrás do guarda-roupa


“Foge!” Gritou MãePrimido

E Esgar começou a esmurrar a porta

quebrar e arrastar a parte detrás do

arm

ár

i

o

!

f og e

!


Perder minha irmã, quase uma década e meia mais velha do que eu, para um tempo de paz no Rio de Janeiro, talvez nem tenha sido a primeira de minhas saudades mais intensas, mas talvez tenha sido a saudade mais decisiva para o começo da construção dessa CasaBarcoNauArcaBaleiaPeixeGaiola que, feita dos muros, comprimidos tarja pretas, agulhas, linhas, lixas de unha, senhas de cofre, cristais e paralelepípedos da minha infância, ora nos acolhe e ora nos afoga sobre as águas sem correntes desse OceanoCasa — Panthalassa, mar ancestral de todas as vidas que trocam químicos sobre a Terra.

— IgluPupunhaMariadaRocaMaracajáeCia, tens certeza de que vais inscrever no livro da vida outra história sobre feminicídios, vinganças, ódios, mortes e ainda mais e muito mais desamor e dor? — Questiona-me ordinaSrodruigueZ, o Enfrentador de Trilobitas e Baratas de Além Mar e meu, para sempre, Guardião das Terras do Norte.

Mas eu nada respondo.

Essa é uma história de mulherespássaro e também de todas as suas filhas, reafirmo em silêncio.

— Vais?

VAIS? — Essa é uma história de muitas mulheres e também de todas as suas filhas, reafirmo a ordinaSrodrigueZ e a mim mesmo enquanto a memória de TroikaDonte, minha cadela pastor envenenada pelo meu pai um pouco depois daquela briga de Heroínas dC e braceletes de sonhos, aquece-se sob meus pés e acalenta minhas vitórias nesses processos em que defendo MãePrimido de morar embaixo da ponte e Ana MariaVidaDeLoretta de ir a júri popular e acabar por morar em uma cadeia.

— Isso, princesinha, abre a perninha para o papai poder pegar o peixinho lá dentro, abre

Mar aberto

— Isso, princesinha, abre a perninha para o papai poder pegar o peixinho beeeem lá lá dentro, abre

— ai, papai, isso dói um pouquinho — falo entre líquidos, respiração em arfo e risadinhas de desconforto

— Tá vendo? Achei o peixinho


Choc choc choc

Huuuum ... Toda meladinha


Hummmm

hummm


choc


Mar aberto

Simbora

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