O que dizemos na quietude: uma leitura possível de “A mulher submersa” por Larissa Bontempi

ENSAIO VOLUME 5 NÚMERO 2



Conheci a poesia de Mar Becker aproximadamente um ano e meio antes da publicação de “A mulher submersa” (Urutau, 2020), e a primeira coisa que pensei, ao ler um poema dela pela primeira vez, foi: nunca li nada nem remotamente parecido com isto.


Embora venha acompanhando o que ela publica on-line e já conhecesse alguns dos poemas, fiquei surpresa e arrebatada por esse livro. Vejo “A mulher submersa” como um livro conduzido pelo fio de uma ideia de atemporalidade.


Entre pausas e silêncios, a poeta nos convida a calar e a observar a impermanência e a ciclicidade da vida, como tudo é efêmero, vem e vai, repete-se; como as vidas de mulheres estão unidas por uma memória que atravessa o tempo, desde as narrativas bíblicas: observe, você não veio da costela de Adão, mas do útero de Eva. Se “aprendemos a amar com ódio”, é porque herdamos essa capacidade das nossas ancestrais – e porque vimos que era necessário.


Outra imagem que marca essa dimensão de atemporalidade no livro é a de certa ‘onipresença’ dessa mulher submersa. Ela está em todas nós, num sentido – nos atravessa, e nos poemas esse atravessamento aparece na convocação às figuras femininas de caráter biográfico da autora, sobretudo das mulheres próximas da família (a mãe, a irmã e a avó).


Ainda vale dizer que é essa vivência em comum que nos permite nos reconhecermos umas nas outras – e, assim, não dependermos de palavras para o amor. Sabemos nos amar em silêncio, basta observarmos e estarmos atentas ao nosso compartilhado não dito, a essa dimensão de cointimidade.

Para nos conduzir, Mar Becker dividiu “A mulher submersa” em cadernos (ou capítulos) – dos quais destaco “feito pó”, “à pouca voz”, “lesbos” e “as irmãs da ordem da lagoa” –, em que versa principalmente (mas não só) sobre temas como sexo, amor, vida e morte.


Outro aspecto único da escrita de Becker é o estilo. Num diálogo interno com sua própria formação em filosofia, a poeta faz referência a sistemas de crença e doutrinas antigas, bem como inúmeras alusões a passagens bíblicas, criando imagens e metáforas potentes.


As formas variam entre poemas de várias páginas, até em prosa, e poemas curtos, com dois ou três versos. A beleza está no fato de que ela não faz questão de seguir as convenções do espaço do poema na página, nem de métrica: um verso pode ocupar três linhas e o ritmo pode não ser ditado por sílabas, mas pelo “peso” das palavras, ainda que estas pesem “menos do que a sombra da asa da libélula”.


A poesia contida em “A mulher submersa” é um chamado ao entendimento de nós mesmas através das vidas de todas as que vieram antes de nós – e das que virão depois –, representadas em imagens atemporais.

É um livro para ser lido sem pressa – e revisitado de quando em quando, porque cada poema escrito nele “soa como oração”.





Larissa Bontempi é mestra em Estudos da Tradução, tradutora, revisora de textos e amante de poesia e tradução literária. Utiliza o Medium @larissabontempi como caderno de tradução e fala de suas leituras no Instagram @_ameopoema_.

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