O enigma das ondas por Silviano Santiago

ENSAIO VOLUME 5 NÚMERO 2



Palavra/surfista, prancha/verso, em movimento. A página em branco é uma onda vivaz e espumosa, a caminho do túnel. Importa isto: o aéreo reverso, assim como importa, para o poema metalinguístico de João Cabral, a capa vermelha. A dançar entre o poeta e o touro. Domar não é domesticar. É acarinhar o risco. Poéticas do arrisco e não do aprisco.


Não há filiação, a não ser a admirativa no trato da vida em movimento – achtung! mas debruce na janela – do surfista sobre as ondas. “Quando imitava os grandes mestres / era quando ele / era mais / ele”. O paradoxo de Maximus é o sentido da comunicabilidade entre o aéreo reverso e Arnaut Daniel. Bom poeta fala bem de outro bom poeta, se frente a frente.


No entanto, o poema é uma cena de crime. Os poetas são detidos e algemados. Esvaziam as aventuras de vida para serem ocupadas pelo leitor, um coprodutor de sentido. E também da própria vida que se deslancha por surfada plena ou vã toureada.


“Você levou ou trouxe, / durante o crime, / alguma coisa de mim”.


Poeta e seu leitor procuram dar sentido democrático e universal às palavras num tempo destemperado. Elas se esboroam na falta de significado das leis, ou se agigantam na boca de juliocésares liliputianos. “Aqueles que falam / sabem muito bem / pois eles sempre calam alguém / enquanto falam”. Não há como escapar ao reino de Pandora: “Pânico, pandemia, pandemônio”.


Será é o tempo de verbo: “O espelho nunca esteve tão sozinho. / Mas tudo vai dar certo”. No momento do S, o surfista perde o equilíbrio, a onda arrebenta em simultaneidades absurdas. Enumerações se sucedem caóticas. A força deste mundo pandêmico controla indiscriminadamente O enigma das ondas, seu fatal desafiador. “Começa hoje o maior festival de folhas falsas se esvaindo no vento úmido de março”.



Silviano Santiago é poeta, professor, crítico literário, contista e romancista . Em 1996, participou em Toronto da conferência sobre o projeto de História da Literatura Latino-americana, originado de Bellagio. Em 2013, recebeu o prestigioso Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Em 2015 venceu o Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa. Em 2020, recebeu o Prêmio Ezequiel Martínez Estrada, conferido pela prestigiosa Casa de las Américas.

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