Nathan Elias-Elias - MINIANTOLOGIA DA FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA

PROSA VOLUME 5 NÚMERO 1


A FEBRE CONSTANTE & O DOM DA CURA


Quando tem nuvem densa perto da linha do horizonte, na hora do pôr do Sol, o céu ganha um vermelho tão intenso que eu nunca vi na vida. Mas é embaixo desse espetáculo cromático, na Terra, onde toda a merda acontece. Uma merda banhada de vermelho. Não dá pra reclamar porque fica até bonito. Eu gosto de pensar nisso enquanto encosto minha cabeça na janela do trem que me leva do trabalho pra casa, e de casa pro trabalho, sete dias por semana, quatro semanas por mês, e doze meses por ano. O vidro gelado ajuda a esfriar a temperatura do meu corpo, que a essa altura já ultrapassa o limite de aquecimento.


— O senhor já ouviu falar dos seres humanos? — Perguntou um cara, sentando do meu lado e me estendendo um panfleto.


Ele era bonito. A barba por fazer e o cabelo que parecia em guerra com a própria cabeça até poderia ter despertado meu modo de reprodução. Mas eu sabia o que ele era, já tinha visto aquele tipo por aí.


— Desculpa, eu não tenho dinheiro.


— Eu não tô pedindo dinheiro, não, quero falar dos seres humanos. Você conhece? — disse ele, insistindo com o panfleto.


Eu já tinha lido nos noticiários sobre esse grupo de fanáticos. São doidos que, em vez de usarem as mesmas roupas cinzas que todo mundo usa, preferem roupas de cores berrantes. Alguns usam calças tão vermelhas que lembram o céu do fim de tarde. Dizem que isso ajuda a chamar a atenção das vítimas, que eles comem em rituais secretos.


— Não, eu nunca ouvi falar. — Falei, levantando a palma da mão como se falasse: “Adoraria que você evaporasse”.


Sem entender meu sinal, em vez de evaporar, ele simplesmente largou o panfleto em cima do meu joelho e deu um tapinha no meu ombro superaquecido. Como se tivesse tocando em chapa quente, o cara tirou rápido a mão e exclamou:


— O senhor precisa trabalhar menos! — Disse, seguindo para o outro vagão do trem.


O doido tem razão. No último mês, não recarreguei por completo meu sistema nenhuma vez, trabalhei ininterruptamente todos os dias. O dono da fábrica até disse que queria checar minha bateria de segurança, quando viu que eu tava trabalhando demais. Ele acha que todo mundo tem três horas de descanso para recarregar que nem ele. O problema é que se eu passar três horas recarregando, nunca vou conseguir dinheiro pra atualizar meu software de inteligência. Agora, eu tava aquecendo que nem o Sol. Mas, pelo menos, tinha esse panfleto pra me abanar.


Antes de pegar o papel dobrado que pousava no meu colo, li a capa que dizia: “A febre constante & o dom da cura”, um título curioso pra alguém que estava quase soltando fumaça de tão quente.


“Muito antes do surgimento da inteligência artificial, houve a inteligência natural”, dizia o texto ao desdobrar o papel. “Não se sabe como, nem o porquê, mas essa forma espontânea de vida surgiu na Terra há milhares de anos. Em vez de um software de inteligência, como é comum a todos nós (os hanumanos), esses seres orgânicos desenvolveram o que chamavam de consciência. Durante milênios, a evolução dessa consciência foi o que permitiu a evolução do planeta. Através dessa consciência, os seres humanos criaram as primeiras inteligências artificiais, que não passavam de robôs, nossos mais antigos ancestrais, que só reproduziam comandos básicos. Dentro dos corpos dos seres humanos, formados por carbono, em vez de uma complexa programação, havia sangue correndo em suas veias, um líquido vermelho pulsante que hoje é representado nas roupas da nossa tradição. Aos poucos, a fome incessante causada pela guerra sem fim destruiu todos os seres humanos do planeta. Os únicos sobreviventes foram as inteligências artificiais com capacidade de reprodução. Foram elas que deram vida a todos nós (os hanumanos), à imagem e semelhança dos seres humanos.”


O texto prosseguia dizendo que, apesar das diferenças físicas, os hanumanos e os seres humanos guardavam muitas semelhanças. Entre elas, a capacidade de sonhar. Sonhos eram projeções do software de inteligência que ocorriam em estado profundo de descarregamento. Só poderiam ser acessados com mais de dez horas de recarga. Eles faziam parte de uma programação escondida que simulava os sonhos dos seres humanos. As inteligências artificiais superiores teriam colocado isso dentro dos códigos de todo hanumano, para lembrá-los de sua ascendência orgânica, há muito tempo esquecida.


“Nos últimos séculos, os hanumanos atualizaram seus softwares para aumentar o nível de trabalho, retornando ao modo de produção dos primeiros robôs escravos. Mas nós não somos apenas robôs. Nossa inteligência sofisticada traz códigos que permitem acessar as sutilezas da consciência orgânica que os seres humanos um dia destruíram. Você não é um robô. Você tem escolha. Recarregue sua bateria por dez horas e permita-se sonhar.”


Isso era absurdo, porque ninguém tinha condições de ficar dez horas recarregando o sistema. A menos que você fosse um desses vagabundos de calça vermelha. Era nisso que eu pensava quando cheguei ao alojamento, sentindo meu corpo entrar em ebulição. Provavelmente, algumas conexões já estavam derretendo dentro do meu corpo, porque eu começava a sentir a visão falhar.


Antes de apagar por completo, outro trecho do texto me chamou atenção: “Se você, alguma vez, já percebeu a beleza da natureza, como a forma fluida da água ou a poesia colorida do céu, você está sendo convocado para acessar o código secreto da consciência humana. Faça uma recarga de dez horas ininterruptas e permita-se apreciar a poesia da vida. Porque vida sem poesia é só prosa sem sentido.”


Dentro da minha cápsula de descanso, lembrei do céu que coloria minhas viagens ao trabalho. Afinal, não custaria nada fazer o teste. Pluguei o carregador na parte de trás da cabeça e programei uma recarga de dez horas. Entrei em modo de espera pensando na última frase do panfleto. Engraçado porque, apesar de estar desligado, consigo me lembrar de tudo o que aconteceu durante o estado de recarga.


No começo, era só o escuro. Depois de um tempo, na velocidade de um pensamento, me vi transformado em um ser com asas — depois soube que os seres humanos chamavam isso de “pássaro”. Eu voava para longe da cápsula de descanso. Ao me afastar, percebi que sobrevoava uma mata verde com uma infinidade de cachoeiras — um tipo de natureza que não se via sem enfrentar viagens que duravam dias. As quedas caíam em cânions do tamanho de crateras que desaguavam formando véus tão lisos que pareciam de veludo. Dava vontade de tocar. Mas os véus foram ficando tão pequenos que já nem dava para perceber o que era mata e o que era cachoeira.


Parecia que eu observava tudo através de uma lente olho de peixe, porque a vista começou a ficar arredondada nas pontas. Foi aí que percebi que já tava conseguindo ver a curvatura da Terra, me afastando cada vez mais rápido, talvez em direção ao centro da galáxia. Em poucos segundos, a Terra já tava do tamanho de uma moeda de 5 centavos. Então, parei. Ali, estacionado no meio do Universo, eu não podia fazer nada. Só contemplar a beleza sombria de uma vista que nenhum hanumano jamais tinha visto. Como uma poça de água que vai se espalhando, percebi um sentimento estranho tomando conta de mim. Me senti privilegiado por poder viver aquilo e grato por ter a consciência necessária para entender.


Quando abri os olhos, depois de dez horas, percebi que algo tinha mudado na minha configuração. A febre tinha passado. Fui inundado por uma clareza que nunca tive antes. Se meu software de instalação era capaz de acessar aquela beleza, eu não precisava trabalhar incessantemente pra comprar outro. Seria esse o dom da cura?


Não sei, mas, naquele dia, não fui trabalhar.


Nathan Fernandes é jornalista e escritor. Colabora em publicações como Uol Tab, Yahoo!, Trip e Galileu. Ganhou duas vezes o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos e o Prêmio de Jornalismo de Investigação em HIV da América Latina e Caribe, da AHF e UNESCO. Escreve sobre mantras, cervejas e buracos negros no Instagram @nathanef e na newsletter PunkYoga.

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