MUNDO EXTERIOR X MUNDO INTERIOR: ATONIA E DEGRADAÇÃO EM CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA, DE DALCÍDIO J

ENSAIO VOLUME 5 NÚMERO 1


por Me. Jonathan Pires Fernandes e Profa. Dra. Marli Tereza Furtado


Resumo: Este trabalho é um recorte de minha dissertação intitulada Atonia e Degradação em Personagens de Dalcídio Jurandir[1], defendida na UFPA, em 2018. Minha monografia analisa de que forma as temáticas da atonia e da degradação se manifestam nos personagens Eutanázio, de Chove nos campos de Cachoeira (1941); Edmundo Meneses, de Três casas e um rio (1958); e Virgílio Alcântara, de Belém do Grão Pará (1960). Contudo, por se tratar de um recorte, este artigo focaliza apenas no personagem Eutanázio, orientando-se por esta perspectiva: o conflito entre mundo exterior e interior que o personagem vivencia e como esse dilema se relaciona com as temáticas da atonia e da degradação. Entre os principais trabalhos que fundamentam esta pesquisa estão os de Candido (1964) e Lukács (1920).


Palavras-chave: Atonia. Degradação. Mundo Exterior x Mundo Interior.



INTRODUÇÃO


Atonia, na medicina, advém do vocábulo tônus. O tônus muscular, de acordo com Lent (2010, p. 429), é um estado permanente (e mutável) de contração dos músculos que permite ao ser humano enfrentar a gravidade e manter determinadas posturas do corpo. A situação na qual o indivíduo está extremamente fraco e debilitado e que não apresente esse tônus muscular – seja em razão de problemas neurológicos, tremendo esforço físico, desmaio ou morte –, é chamada de atonia. Note-se que o prefixo a representa uma negativa, ou seja, a ausência do tônus.

Alguns dicionários, no entanto, informam que a palavra também pode ser usada fora da medicina. O dicionário Aurélio (1986, p. 195), por exemplo, define atonia como sinônimo de frouxidão e inércia. Outros, como o dicionário Houaiss (2001, p. 123), define atonia como inércia moral ou intelectual, relaxamento, enfraquecimento. Partindo dessas definições, pode-se dizer que alguém em estado de atonia manifesta passividade, desinteresse e fraqueza, elementos que estão relacionados à inércia (moral ou intelectual) e à “frouxidão”.

Assim, o indivíduo em estado de atonia não possui o “tônus” necessário que permite a ele sair da inércia e ter a força necessária para ser ativo tanto socialmente quanto intelectualmente. Assim, atonia pode ser entendida como languidez: “uma disposição para relaxar-se e não se movimentar, que é sentida em todos os membros.” (DESCARTES, 2005, p. 108).

Na literatura, a atonia pode ser entendida como um traço marcante de determinado personagem de uma prosa de ficção ou de um eu-lírico de um poema. Como exemplo, podemos citar Oblomov, protagonista do romance homônimo de Ivan Goncharov, publicado em 1859.

Podemos considerar que um dos principais traços desse personagem é a atonia, tendo em vista que ele é acometido de uma inércia extrema que o faz permanecer, por várias horas e até dias, prostrado em seu leito, sem qualquer ânimo de participar de convenções sociais. Não se interessa por matrimônio e nem por negócios financeiros, apesar de se encontrar em decadência econômica.

Considerando a atonia um traço marcante de Oblomov, certamente ela precisa de uma razão para existir, uma origem, um motivo que leva o indivíduo a manifestá-la. No exemplo de Oblomov, a origem estaria na inadaptação do personagem a sua própria realidade. Afinal, na tipologia de Lukács, apresentada em A Teoria do Romance (1920), Oblomov é citado como um personagem pertencente ao Romantismo da Desilusão, tipos de romances em que os heróis possuem a consciência maior que a do mundo exterior e entram em conflito com ele, pois são incapazes de se adaptar a esse mundo e até de sobreviver nele de forma adequada: seguir um ofício, se envolver nas relações sociais ou conhecer o matrimônio. A consciência deles é grandiosa demais para encontrar algum sentido satisfatório nessas ações.

De acordo com Lukács (1920), um traço comum nesse tipo de personagem é a passividade, a falta de interesse em tentar se adaptar ao mundo exterior, visto por ele como insatisfatório. Embora o ensaísta húngaro não utilize o termo atonia, ele destaca, em personagens como Oblomov, a inércia, um dos sinônimos para a atonia, conforme visto anteriormente.

Essa atonia, se for levada ao extremo, pode fazer com que o personagem seja levado à degradação, pois a inércia insensata e a ausência de ânimo para realizar qualquer coisa demonstra que a vida já não faz muito sentido para esse ser atônito, de modo que ele poderá não se importar se essa vida for degradada. Aparentemente, é o que ocorre com determinados eu-líricos da poesia de Charles Baudelaire:


Tanto quanto se possa falar de uma fonte de inspiração em Victor Hugo, ela é fundamentalmente distinta da de Baudelaire. A Hugo é estranha a capacidade de atonia que — se for admissível um conceito biológico— se manifesta centenas de vezes na poesia de Baudelaire, como uma espécie de mímese da morte.

(BENJAMIN, 1989, p. 82).


Nesse sentido, a atonia na poesia de Baudelaire representaria uma inércia advinda da percepção de uma realidade frágil e sem perspectivas, provocando um estágio de letargia no eu-lírico que poderia levá-lo ao aniquilamento, se levarmos em conta a ideia de mimese de morte, exposta acima. Em Oblomov, a atonia também está associada à degradação.

A imobilidade do personagem principal acaba gerando um estado de degradação que traz consequências graves a ele, entre as quais estão a sua derrocada financeira definitiva e a morte, provavelmente provocada por problemas cardíacos em decorrência de seu sobrepeso.


EUTANÁZIO: ATONIA, MUNDO INTERIOR X MUNDO EXTERIOR, DEGRADAÇÃO


Este artigo propõe que Eutanázio, protagonista do primeiro romance dalcidiano Chove nos campos de Cachoeira (1941), tem a atonia como um de seus principais traços e que vive o dilema: mundo interior x mundo exterior. A comparação entre Eutanázio e os chamados heróis do “romantismo da desilusão” – de acordo com a tipologia lukácsiana – visa a mostrar um caráter mais universal do personagem, uma vez que seus traços permitem o diálogo com personagens de obras produzidas séculos atrás, transcendendo o tempo e afastando uma possível ideia de que ele seria apenas um reflexo da figura do fracassado[2] do Romance de 30. A atonia de Eutanázio e seu conflito com o mundo exterior rendem comparações com os heróis do chamado Romantismo da Desilusão, portanto podemos utilizar a tipologia de Lukács para contribuir com a análise do personagem em questão.

Antes de mais nada, cabe a nós discorrermos um pouco sobre a trajetória e alguns traços do personagem dalcidiano em questão. Eutanázio tem 40 anos, não possui ofício algum e vive encostado na casa do pai: Major Alberto. Sua rotina se resume a visitar a casa de Seu Cristóvão onde habita uma moça (neta do dono da casa) pela qual ele nutre sentimentos antitéticos de amor e ódio: Irene. A família de Irene, que vive em situação de extrema pobreza, alimenta o interesse de Eutanázio na moça, pois o considera um homem diferenciado.

Ironicamente, porém, não há nele nada de diferenciado, em termos socioeconômicos. Como não possui oficio, nunca tem dinheiro: “Sua vida foi sempre marcada por esse epitáfio: NÃO TEM DINHEIRO” (JURANDIR, 1976, p. 41). As coisas que ele fornece para a família de Irene, que causam a falsa impressão de sujeito abastado, são, na verdade, fiadas nas mercearias: “Ia pedir fiado no Ezequias. Tem já uma conta grande.” (op. cit). Talvez por esse e outros motivos, Irene não respeita Eutanázio e o despreza profundamente.

Ela escarnece da aparência dele – afinal, o narrador o descreve como “feio e azedo” (Idem, p. 75) – e dos presentes que ele traz para ela: “– Axi que eu uso essas porqueiras! Axi! Axi! Ele quer eu sei o que é...” (Ibidem, p. 34). Irene entende que a família tenta prostituí-la para Eutanázio em troca de migalhas e, por essa razão, o despreza e ri dele sempre: um riso de escárnio decorrente do ridículo da situação de sua família ser tão miserável economicamente que chega ao ponto de tentar entregá-la a um homem de aparência torpe e que só consegue fornecer coisas pequenas: “podemos considerar o fato de que Irene ri para se libertar da opressão da miséria humana do meio em que ela vive e que Eutanázio personifica” (MORAES, 2011, p. 59).

É esse riso que provoca em Eutanázio os sentimentos antitéticos de amor e ódio por Irene, pois: “o seu riso escarnecedor e debochado diminui o grau de seriedade dos motivos que, para ele, justificariam seu sofrimento” (Idem, p. 58). O fato curioso a ressaltar é que mesmo tendo consciência de que sua relação com Irene não dará futuro – afinal, ela prefere se relacionar com Rezendinho, filho de um rico fazendeiro – e que as suas idas e vindas à casa de Seu Cristóvão só lhe fazem mal, o herói dalcidiano não deseja mudar essa situação.

Sua vida no tempo presente se resume a ficar sozinho em uma saleta no chalé onde mora e ir à casa de Seu Cristóvão ser espezinhado por Irene, sem a mínima reação. Assim percebe-se que o personagem é acometido pela atonia: há nele uma inércia e uma frouxidão que o fazem não responder às provocações de Irene, não tratar da doença venérea que o consome, não procurar ofício e permanecer horas entregue às reflexões e análises interiores, completamente alheio ao mundo exterior, chegando ao ponto absurdo de não ligar para hábitos básicos de higiene como o de tomar banho para lhe lavar o suor:


Seu sofrimento continua feito de pequenas torturas domésticas, dos risos de Irene, a doença imunda, a falta de dentes, as comichões pelo corpo, o desejo e sem ânimo para tomar um banho. Não terá mais confiança em mais nada? Pode se considerar um simples idiota escravizado pela casa de Seu Cristóvão, o Pandemônio? (...) Eutanázio sente uma fadiga nas pernas, um peso no peito, nos rins. O suor envenena-lhe o pensamento. Sente o mundo através daquele suor e daquela fadiga. O suor das mesmas marchas solitárias, à noite para a casa de seu Cristóvão. A fadiga do regresso, do eterno regresso àquela saleta do seu pai.

(JURANDIR, 1976, p. 42-43).


A atonia do personagem, ao que consta, foi uma constante durante toda a sua vida. Ele mesmo procura algo que tenha feito no passado – alguma realização ou algum ofício – e não encontra nada:


Um mundo de incoerências flutuava nas suas fatigantes e infinitas auto-análises. (...) Mas o seu passado? Por exemplo, o que foi que fez aos vinte anos? Qual foi o acontecimento aos vintes anos? Tudo enfim entulhado naquele vagaroso e inevitável desabamento. Queria identificar alguma coisa de sua vida no passado. Não pode destacar nada, tudo é irreconhecível.

(op. cit).


Nesse trecho, já podemos observar um certo conflito de Eutanázio com a realidade que o cerca ou, simplesmente, um conflito entre ele e o mundo exterior. Isso fica mais perceptível no fato de que todos os ofícios, atividades e ocupações que o personagem tentou resultaram em fracassos. A saber: militar, enfermeiro, poeta e encadernador. Nenhuma delas veio a se realizar. A aspiração à enfermaria é tratada comicamente: Eutanázio tenta curar a asa quebrada de um frango e este o belisca; o ofício de encadernador é veementemente rechaçado pelo pai: “– Queres morrer de fome?” (Idem, p. 37); e quanto à poesia, Eutanázio não consegue desenvolver poemas aos moldes dos autores que leu como Gonçalves Dias, Olavo Bilac e Raimundo Correa: “Impotente, incapaz até de fazer um soneto. Um sofrível soneto na vida.” (Ibidem, p.39).

Todavia, todas as atividades descritas acima não chegaram a se configurar como objetivos concretos ou sonhos. Foram breves devaneios que não resultaram em nenhum grande projeto de vida e que logo foram abandonados por Eutanázio. Ora, considerando que o personagem tem a consciência maior que a do mundo exterior – à maneira dos heróis do romantismo da desilusão –, ele é capaz de enxergar aquilo que as pessoas a sua volta não percebem: que o mundo exterior é degradado e todo e qualquer sonho é irrealizável na prática porque a realidade é insatisfatória e mesquinha aos olhos do herói.

Essa relação do personagem com o mundo exterior se reflete em um dos momentos em que ele está entregue à atonia, na prostração da saleta do chalé:


Para que enterra assim? Tudo foi entulhado pelas náuseas de si mesmo. Os sonhos vieram abaixo como paredões desabados. Mas nem tudo parece que está morto. No meio dos sonhos mortos, dos desejos extintos, das esperanças abortadas, haverá algum tímido desejo palpitando, algum sonho, alguma esperança com sinal de vida. O certo é que os desejos apodrecem e por medo da contaminação era melhor deixar tudo enterrado para acabar mais depressa. Porque, enfim, os que ainda mostrassem sinais de vida, tarde ou cedo morreriam inevitavelmente. (JURANDIR, 1976, p. 31).


Os sonhos e os desejos devem ser enterrados, pois nenhum deles é passível de realização na realidade em que Eutanázio habita. Todos apodrecem porque são frágeis e sucumbiriam ao peso da realidade e, por isso, deve-se mantê-los sob os escombros para que não haja contaminação, ou seja: alimentar esses desejos e sonhos é algo negativo, pois, na concepção de Eutanázio, todos eles redundarão em fracassos, causando mais sofrimentos. Isso tudo é resultante de sua consciência maior que a do mundo exterior.

É a consciência hipertrofiada que faz com que o personagem enxergue a fragilidade, a impossibilidade de realização de qualquer coisa: “a renúncia de toda a luta por sua realização no mundo exterior – uma luta encarada já a priori como inútil” (LUKÁCS, 2009, p. 119). Assim, Eutanázio passa a vida inteira sem ofício, planos, objetivos ou sonhos, chegando aos quarenta anos sem ter feito nada, ainda que seu pai –detentor de várias ocupações na vila de Cachoeira: tipógrafo, intendente, jornalista de Cachoeira e advogado – tenha lhe proporcionado oportunidades de prosperar. Contudo, desde quando era jovem, o filho já se recusava a se adaptar ao mundo exterior:


Como estudante, sempre descuidado dos sapatos e da roupa. Aprendia com aborrecimento ou com indiferença, frieza ou desapontamento. (...) Eutanázio acabou não adivinhando a utilidade de saber ler e escrever. Tudo seria a mesma coisa. A vida teria a mesma cara e a mesma coroa, quem era rico e os que eram pobres, o almoço e o jantar (...) Queria aprender para mudar de sol. O sol nascer na meia-noite. Mudar de rumo. Em vez de sentar no poente desaparecer no meio-dia. Que a gente não dormisse. Enfim saber ler e escrever para mudar a face das coisas. (JURANDIR,1976, p. 36).


No trecho supracitado, observa-se não apenas a incompatibilidade do herói com a sociedade civilizada e seus lemas de ter que aprender a ler, escrever, adquirir um ofício: “uma síntese de leis alheias ao sentido, nas quais não se pode encontrar nenhuma relação com a alma” (LUKÁCS, 2009, p. 119). Também se observa a criação de uma realidade própria, puramente interior. Uma realidade na qual o sol nasce à meia-noite e, por essa razão, as pessoas não dormem. A criação de uma realidade própria por parte do herói, que o afasta ainda mais do mundo exterior, é outro traço que permite aproximá-lo dos protagonistas do Romantismo da Desilusão:


uma realidade puramente interior, repleta de conteúdo e mais ou menos perfeita em si mesma, que entra em disputa com a realidade exterior, tem uma vida própria rica e dinâmica – que se considera, em espontânea e autoconfiança, a única realidade verdadeira, a essência do mundo –, e cuja inútil tentativa de realizar essa equiparação confere à composição literária o seu objeto. (...) Ora, o descompasso entre interioridade e mundo torna-se, assim, ainda mais forte. (Idem, p. 118).


Em um dos vários momentos em que Eutanázio está na saleta do chalé, ele divaga novamente sobre seu mundo interior perfeito, sumptuoso e esplêndido, acrescentando-lhe novos elementos: Irene, nessa realidade, lhe ama ternamente e lhe serve de alento para a angústia que o aflige:


Irene vem através da chuva lhe trazer uma roupa macia, limpa, cheirando a roupa guardada em baú de mulata. Cheirando a cama arrumada, a carne de mulher saindo dum banho. Irene vem contar quantos cabelos brancos ele tem, quantos desesperos há na sua solidão. Irene, por que não atravessas a chuva, não vens correndo pelo aterro e pelos campos para embalar esta rede parada, acender um candeeiro na sala, e ficar em silêncio, como um anjo da guarda? (JURANDIR, 1976, p.80).

Como já mostrado acima, para Lukács, a “inútil” tentativa de equiparar as duas realidades – a interior (dócil) e a exterior (mesquinha) – é o que serve de objeto para a criação literária no gênero romance, segundo afirma Lucien Goldmann ao refletir sobre a teoria de Lukács, em A Sociologia do Romance (1963): “O romance é a história de uma investigação degradada (a que Lukács chama “demoníaca”), pesquisa de valores autênticos em num mundo também degradado” (GOLDMANN, 1976, p. 8).

Entretanto, os valores autênticos aos quais Goldmann se refere são, segundo ele próprio, “específicos de cada romance e diferem de um romance para outro” (Idem, p. 09). Nesse caso, quais seriam então os valores autênticos que Eutanázio buscaria?

No mundo exterior, Irene despreza o herói não apenas pela sua ausência de beleza, mas também pela ausência de dinheiro. Para obter o amor de Irene nesse mundo, ele teria que conquistá-la com dinheiro e status como faz Rezendinho, filho de um rico fazendeiro com quem Irene se envolve. No mundo interior de Eutanázio, no entanto, Irene seria uma simples moça que o amaria puramente, sem dar importância para coisas materiais.

Eles viveriam no chalé com ela lhe embalando a rede e desempenhando o papel de um ser que traria paz ao herói, fazendo jus ao seu nome, que deriva de irênico: “relativo à paz, conciliação ou entendimento, ou à ausência ou cessação de conflitos, querelas, disputas etc (...)” (HOUAISS, 2001, p. 1350). Todavia, no mundo exterior, seu nome vem a ser uma antítese irônica do que ela representa para Eutanázio: dor e sofrimento. Para o herói, Irene vem a ser a autêntica representação desse mundo degradado que ele despreza terminantemente: “um ódio em Irene que abrange todo o gênero humano. Irene é a espécie humana. É a maldade natural do homem” (JURANDIR, 1976, p. 72).

Assim sendo, as idas e vindas à casa de Seu Cristóvão para ver Irene seriam então uma tentativa de submeter a realidade exterior ao seu mundo interior: fazer com que Irene o ame da mesma maneira que ela o ama na realidade imaginada por ele (mundo interior)? Ao que tudo indica, a reposta é negativa, pois quando está diante da moça, sua aparência é sempre ridícula – ora está ensopado pela chuva, ora está mal vestido e exibindo seus cacos de dentes – e seu estado é sempre de inércia (atonia), deixando que ela faça chacota dele a todo instante.

Não obstante, os fatores descritos no parágrafo anterior ocorrem no tempo cronológico que corresponde ao presente da narrativa. No passado, é provável que Eutanázio tenha tentado converter o mundo exterior ao seu mundo interior, mas desistiu em algum momento crucial: quando mais uma vez a sua consciência grandiosa o fez perceber que todas as tentativas seriam inúteis.

Provavelmente, o referido momento é no dia em que ele se deita com a prostituta Felícia, descrito neste trecho por meio de lembranças do personagem:


Felícia tinha sido aquela dolorosa circunstância. Foi uma vingança contra si mesmo. Foi uma sede de degradação. E logo lhe apareceu a imunda moléstia. Sim, que ele teve quase certeza de que iria adquirir o mal de Felícia. Estava fora de si como nunca esteve. Tinha chegado de Belém. Tanto tempo afastado de Irene e Irene tratara-o daquela maneira. (Idem, p. 121).


Esse é o momento da consciência absoluta do malogro que seria tentar converter a Irene real na Irene imaginada em seu mundo interior. Se em algum momento houve, seguindo a concepção de Lucien Goldmann, alguma busca de Eutanázio por valores autênticos em um mundo degradado, ela termina nesse episódio. Esbarra na consciência absoluta de que Irene seria sempre esse ser degradado e cruel. Assim, resta-lhe apenas a atonia que sempre esteve presente em sua vida, tornando as suas idas e vindas da casa de Seu Cristóvão apenas um reflexo dessa inércia.

A atonia de Eutanázio, aliada ao seu conflito entre os dois mundos e a sua consciência hipertrofiada que lhe provoca perturbações e análises interiores, acaba levando o personagem à auto-degradação, uma vez que ela seria uma maneira de fugir dessa consciência hipertrofiada, mais ampla que o mundo exterior, que aumenta a sua angústia ao fazê-lo ter a absoluta certeza de que certos atos seus, as pessoas e o mundo ao seu redor são elementos insatisfatórios, ineptos: “Na falência de todos os sentidos e valores, resta só um sentido: o salto mortal para o Nada.” (ROSENFELD, 2013, p. 66).

Vale lembrar que o herói dalcidiano não é o único personagem a manifestar essa sede de auto-degradação. Com efeito, Antonio Candido observa que certos personagens como Luís da Silva, de Angústia (1936) e o Homem do Subterrâneo, de Memórias do Subsolo[3] (1864) desenvolvem um desejo mórbido de degradação física e autoflagelo na busca de alcançarem um estado inconsciente, libertando-os assim do sofrimento provocado pelas análises interiores da consciência:


Como tudo lhes parece voltado contra eles (e tudo neles parece insatisfatório, mesquinho), sentem um desejo profundo de aniquilamento, abjeção, catástrofe; uma espécie de surda aspiração à animalidade, à inconsciência dos brutos, que libertaria do mal de pensar e, ao mesmo tempo, levaria ao limite possível o sentimento de auto-abjeção. (CANDIDO, 1964, p. 108-109).


Eutanázio manifesta tendências destrutivas semelhantes às descritas acima por Antonio Candido. Em certos momentos quer descarregar suas aspirações destrutivas em outrem (agredir seu pai, estrangular Irene ou assassinar pessoas na guerra); e, em outros, decide descarregar em si mesmo: a doença venérea adquirida de Felícia, a recusa em tratá-la e o fato de ele beber, deliberadamente, um café feito com uma água que fora usada para lavar um cadáver.

O herói dalcidiano também desejaria atingir um estado de inconsciência no qual o “mal de pensar” não o dilaceraria. Por isso, inveja o vaqueiro analfabeto João Galinha que ele julga ser inconsciente e bruto, quase animalesco. Afinal, sua vida se resume a trabalhar e a procurar moças para procriar:


Como invejava aquele caboclo que laçava vacas, peava bezerros, gritava em cima da porteira soltando altas gargalhadas, apelidando as vacas com os nomes das moças (...) Foi assim que lhe veio aquele desejo de ser como João, ter uma Ângela, tocar as vacas para o curral. E a inveja arrastou-o para cima, sentindo-se mais desgraçado, mais miserável. (JURANDIR, 1976, p. 179).

O mesmo João Galinha pede a Eutanázio que ele escreva uma carta para Ângela, sua noiva, também analfabeta. Remoído pela inveja e pela vontade de descarregar todos seus sentimentos odiosos e degradantes, Eutanázio enche a carta de desaforos, mas eles acabam não sendo entendidos por Ângela, pois ela não sabe ler. De qualquer forma, isso pode ser considerado um ato degradante.

Outra ação torpe de Eutanázio foi o fato de ele não ter entregue à Felícia o dinheiro enviado por um barqueiro, que seria destinado para a compra de remédios e comida para a prostituta, então faminta e doente. Ele mesmo confessa que tudo isso foram formas de se corromper, uma busca por aviltamento:


Tinha entregue aquela carta infame! Quis correr, arrebatar a carta das mãos de Ângela. Mas era preciso se divertir, se corromper ainda mais. (...) Felícia daqui a uma semana pode saber que ele ficou com os trinta mil-réis, o barqueiro vem lhe cobrar o dinheiro, dirá no mercado, em toda parte saberão. Irene será a primeira a chama-lo de ladrão e a própria D. Dejanira ajudará a falar mal dele pelas casas conhecidas, chamando-o de ladrão também e de quem? Da mais pobre e da mais doente das raparigas de Cachoeira. (Idem, p. 198).


Note-se como Eutanázio desejaria ser humilhado e escorraçado por toda a vila de Cachoeira em razão de atos degradantes desse tipo. É a busca pela “abjeção e catástrofe”, sobre a qual Candido fala acima, como forma de combater o “mal de pensar”.

Já quase no final do romance, a doença avança cada vez mais e Eutanázio já não consegue ter forças para sair de casa e nem se levantar. Passa a esperar a morte na saleta suja e desarrumada, deitado na rede como se fosse um molusco: mal se mexe, não fala e a presença de pessoas que vêm lhe visitar o incomodam e o exasperam. Entretanto, esse estado de quase animalidade e estupor, para o qual ele mesmo caminhou, vem a ser o rompimento definitivo com o mundo exterior. Já não lhe resta nada desse mundo. Nem mesmo as torturas diárias das caminhadas à casa de seu Cristóvão, as cartas de João Galinha e Ângela ou o dinheiro roubado de Felícia:


Aquele fixos na parede onde mal se desenhava uma teia de aranha. Aquele entorpecimento da saleta que não se varre, não se arruma, não se espana, não se abre ao sol, não se enche de Mariinha, com o mormaço da febre, o abafado e a exalação dos panos e dos remédios, era o mundo escolhido e preferido por Eutanázio, a sua fuga, a abolição da casa de seu Cristóvão, dos trinta-mil réis de Felícia, das caminhadas noturnas. Tudo se enterrara naquela noite, deixara no meio do caminho, quando tombou, no braço de Dionízio que o trouxe para o chalé. (Ibidem, p. 213).


A circunstância para qual confluiu a vida de Eutanázio pode ser considerado uma espécie de descomedimento romântico de que nos fala Lukács:


Descomedidamente, a riqueza interna do puramente psicológico é elevada a única essencialidade, e, com uma inexorabilidade igualmente descomedida, revela-se a insignificância de sua existência no todo do mundo; o isolamento da alma, a sua insalubridade em relação a todo o apoio e todo vínculo, agrava-se até o descomedido (LUKÁCS, 2009, p. 124).


Há descomedimento tanto no caminho de degradação que o personagem percorreu, quanto no estado de atonia que ele alcançou. Não obstante, essa atonia demonstrada nos momentos finais do romance é outra. Já não é a atonia que pode ser entendida como inércia moral ou intelectual, mas sim como um mal físico explicado pela medicina: a ausência do tônus muscular, conforme visto na introdução.

Quando nos é revelado que Eutanázio tombou no meio do caminho já sem forças para andar – foi levado para o chalé por Dionízio – e que não consegue mais se levantar da rede, podemos deduzir que o personagem já não tem mais o tônus muscular: se encontra em atonia: “o indivíduo desaba sobre o solo, perdendo completamente a postura natural porque seus músculos deixam de apresentar esse estado permanente de contração que se chama tônus muscular.” (LENT, 2010, p. 429).



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Como pudemos observar, a atonia pode ser considerada um traço importante do personagem dalcidiano Eutanázio. Este, por sua vez, possui várias semelhanças com os heróis do chamado romantismo da desilusão, entre os quais, o já citado Oblomov. Ambos não conseguem se adaptar ao mundo exterior que os cerca, acabam criando uma realidade própria (mundo interior), mas a impossibilidade de fazer com que uma realidade seja submetida à outra faz com que eles se entreguem à passividade e, posteriormente, sejam levados à degradação.

Oblomov também não se preocupa em ter realizações na vida social, ficando também em um estado de atonia, sem disposição para negócios, ofícios ou matrimônio – Oblómov se recusa até a se casar com Olga, mulher que correspondia ao seu amor. O grandioso impasse que é a sua vida perdura por boa parte da narrativa até que o personagem parece encontrar um ponto de estabilidade quando passa a levar uma vida simples e pobre ao lado de sua companheira Agáfia Matviéievna – com quem tem um filho –, longe das perturbações e degradações da vida social. Por isso, se recusa a sair desse ambiente para ir morar com seu amigo Stoltz, homem de negócios e bem adaptado ao universo social:

Agora era Stoltz que tinha a fisionomia transtornada e revirava os olhos, perplexo, quase idiotizado. Diante dêle acaba de abrir-se o “abismo”; surgira o “muro”: era como se Oblomov se houvesse anulado, desaparecido, como se tivesse volatizado. E Stoltz não sentia mais do que essa angústia que nos queima quando, ansiosos por rever um amigo, depois de longa separação, vimos a saber que êle morreu há muito tempo. (GONTCHAROV, 1966, p. 433).


Esse momento do romance é bastante significativo. Oblomov rompe definitivamente com o mundo exterior, marcado por negociações financeiras e relações sociais, o qual Stoltz era a autêntica representação. O protagonista adquiriu estabilidade ao ficar longe desse mundo, levando uma vida simplória ao lado de Agáfia e resumindo sua existência a comer, ficar prostrado no leito e a brincar com o seu filho, fruto de seu enlace com a referida companheira. Como ele, Eutanázio anseia encontrar essa mesma estabilidade quando pensa em se mudar para a cidade de Muaná e levar uma vida sossegada, livre das paixões e dos conflitos que atormentam sua alma, cuidando de Marialva, sua irmã cega: “Contar histórias à ceguinha. Criar um gato muito bonito para ela (..) juntar nas suas mãos as mãos de sua irmã cega e beijá-las, umedece-las de lágrimas” (JURANDIR, 1976, p. 142).

Entretanto, conforme foi observado ao longo deste artigo, Eutanázio segue um caminho de degradação e aviltamento oposto ao do protagonista russo. Nos momentos finais de sua vida fica prostrado em sua rede, sendo consumido pela doença – quase animalizado – e sem ter encontrado a paz, como demonstra o trecho no qual ele recebe a visita de Irene – grávida e abandona por Rezendinho – pouco antes de morrer:


Tinha um filho, tinha um filho, seu ventre estava alto e belo. E ele no fundo da rede ia morrer sem aceitar a morte, sem ter aceitado a vida. Quando podia se reconciliar com ela, a serenidade daquele ventre humilhava-o, cobria-o de ridículo. (...) Quanto ele não soube sofrer! Morria miserável, ridículo, com aquele medo da morte. Diante de Irene queria se encher de uma coragem imensa para aceitar o seu destino. Irene era o princípio do mundo. As grandes chuvas lhe traziam o filho. Seus peitos cresciam, se enchiam de leite como o das vacas. Ela tão magnificamente animal, que em seu rosto calmo, em seu ventre, em suas mãos só havia inocência, a inocência de todo mistério criador. Só ela era a vida! (Idem, p. 242).


Irene mostrou a Eutanázio que ela foi capaz de abandonar as suas revoltas, seus risos de desprezo, os seus escárnios, o ódio e todos os elementos que constituíam a sua personalidade de antes. Mesmo vista muitas vezes como uma possível moeda de troca por seus familiares, além de ter sido usada e abandonada por Resendinho estando grávida, Irene aceitou sua condição, enquanto que Eutanázio “não soube sofrer”.

Ao mesmo tempo em que a imagem dessa nova Irene – perpetuando a vida ao germinar um novo ser – encanta o herói, ela também “humilha-o” porque entra em contraste com a total incapacidade dele de conviver no mundo exterior. Eutanázio, conforme observamos anteriormente, nunca aceitou nada dessa realidade exterior. Tudo lhe foi insatisfatório, degradado e desprovido de essencialidade. Não tendo encontrado a paz, ele seguiu um caminho diferente de Oblomov, o que confere ao personagem dalcidiano a sua originalidade.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto. 5º ed. São Paulo: Perspectiva, 2013.


[1] Dissertação defendida na UFPA, em 2018, como requisito para a obtenção do título de mestre em Estudos Literários, sob a orientação da Profa. Dra. Marli Tereza Furtado.


[2] De acordo com o artigo com a professora Marli Furtado, em seu artigo intitulado Dalcídio Jurandir e o romance de 30 ou um autor de 30 publicado em 40, o primeiro romance de Dalcídio Jurandir pode ser alinhado à corrente literária brasileira conhecida como Romance de 30 e, naturalmente, pode conter certos elementos que são próprios das obras daquele período, entre os quais, a figura do fracassado, como sintetizou Mário de Andrade: “É estranho como se está fixando no romance nacional a figura do fracassado. (...) que não opõe força pessoal nenhuma, nenhum elemento de caráter, contra as forças da vida, mas antes se entrega sem quê nem porquê à sua própria insolução.” (ANDRADE, 1940, p.181 apud BUENO, 2006, p. 75).


[3] Na edição brasileira desse romance de Dostoievski, publicado em 2000, pela Editora 34, o tradutor Boris Schnaiderman optou por intitulá-la Memórias do Subsolo. Em edições brasileiras anteriores, o romance recebeu outros títulos como “Notas do Subsolo”, Notas do Subterrâneo, “Memórias escritas em um Subterrâneo”, entre outros.


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