Matheus Guménin Barreto

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



CERTO PASTOREIO



Não saber se o bicho-morte

pasta estes campos

bebe estes olhos

se caga este morno peito se cheira uns cheiros de rosa brava

nestas mãos

agora.

Não saber se é hora

se a mesa está posta se estará

se chega algum próximo domingo estirado de sol se.

Não saber se chega.


*


, o tempo, que é um só e que todo se toca

(o rosto do primeiro homem, o braço da última mulher

o esperma que seca no dia primeiro, as fezes que esfriam na última noite)

como o beijo na palma é o beijo nos dedos

como o beijo nos pés é o beijo no lábio

como o amor é a véspera do amor


*




TEMPO



Aquilo que possuo e me possui,

e que, se cerco, ergue cercos outros

em torno aos muros fracos, muros poucos,

que ergui; aquilo que constrói e rui

meu corpo; que já traz numa só mão

meu corpo e aquela morte que é a sua

(se cada corpo nasce já com uma),

meu corpo e aqueles beijos que serão

os seus (se morre sempre sem dar todos);

aquilo, ainda, que me tira tudo

e tudo dá a mim; o que procuro,

mas que me encontra sempre e eu não encontro.

Aquilo, enfim, que dá-me o amor de um homem

de sexo em riste – e nos apaga os nomes.




Matheus Guménin Barreto (1992) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs - subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas seus traduzidos para o inglês, o espanhol e o catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal.

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