Luzia por Wilne Moraes

PROSA VOLUME 5 NÚMERO 2



O Carcará prendeu a Iguana em suas garras no mesmo instante em que Luzia o descobrira voando raso. Parou para ver se o lagarto ia conseguir escapar, mas apressou o passo e caminhou olhando para trás, estava fascinada pela cena, mas sabia que o pai não perdoa distrações nem atrasos.

Quem vê o rosto de Luzia imagina uma mulher mergulhada em um mar de secura, ela era o sertão, bem poderia se chamar Severina, o nome lhe caia bem, vida severina a dela, era mais uma mulher criada sob o jugo da vida. Carinho e compaixão - artigos que não teve o privilégio de receber. O olhar fazia pensar que em seu caminho não tinha sombra ou vento que lhe soprasse no rosto. Tinha a pele curtida pelo sol.


Era a filha mais velha de uma prole de cinco e por isso começou a ajudar na condução dos bois no arado da terra. Os bois eram de grande estima para ela. Eram dois e trabalhavam lado a lado sob o jugo de madeira atrelado à base da cabeça e dessa forma podiam ser conduzidos para toda lida.


Todos os dias Luzia levantava cedo, preparava o café no forno de barro, tomava com cuscuz feito com o arroz semeado, colhido e socado por ela. Saía para levar os bois presos à cangalha e pensava em como eles não tinham liberdade de escolher para onde ir, nem de olhar para os lados, quando se deu conta que também estava atrelada à um jugo preso às costas. Caminhou e ruminou as palavras tomai vós o meu jugo, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve...

O pai de Luzia quase não falava, em silencio ordenava que seguisse os passos dele, pisasse no mesmo rastro, obrigando que ela se esforçasse e alargasse os passos para acompanhar o senhor seco e calado. Não tinha caminho alternativo, sempre o oficial, sempre a estrada que ele abria, nunca um atalho eleito por ela.


Não podia se vestir como as moças de sua idade, não sabia o que era maquiagem, aos vinte e quatro anos não sabia o que era beijar na boca. Aprendeu a ler às escondidas no galpão onde os bois dormem. De domingo a domingo via e cuidava deles, conhecia o cheiro, o suor, a cor, a respiração e o som do ruminar de cada um mesmo no escuro. Os dias eram iguais para os bois e para ela...


Quatro horas da manhã, Luzia levanta, faz café, prepara cuscuz, come, lava o rosto, vai para o galpão dos bois. Nesse dia percebeu que ela e os animais eram iguais. Mesma vida, mesmo jugo, mesma sina. Acordar, trabalhar, comer, dormir, acordar, trabalhar, comer, dormir. Ver e viver os mesmos caminhos.


A cada dia se sentia mais identificada com os bois, passou a visitá-los todas as noites, ouvia o fungar de macho querendo fêmea. Pensava e conversava com eles, e quando o sono chegava desejava boa noite e descanso. Ela os compreendia e sentia que a compreendiam. Viviam a mesma rotina, cansaço, silencio, solidão e dor.


Acordavam, trabalhavam, comiam, dormiam, acordavam, trabalhavam, comiam. Ruminavam grama, sal, pensamento. Luzia cansou de falar. Calada dormia, calada acordava, calada comia, calada trabalhava. Ela fêmea, eles machos. O mais próximo que chegara de um macho foi a distância dos passos do pai quando caminhava atrás dele.


Todas as noites depois que o pai dormia, Luzia ia ao encontro dos bois, deitava próximo a eles, não entendia, mas sentia vontade de acariciá-los. Quando tocava neles parecia entrar em êxtase, um caos interior que a mansidão externa não permitia ver, como o começo de um terremoto que só alguns animais conseguem perceber. O terremoto que revira a terra pacificada e arada pelos bois. Era um desejo de romper com a vida severina de dormir, acordar, comer, trabalhar...


Na noite seguinte Luzia foi ao galpão e embriagada de um desejo maior que o de comer manga verde com sal, como ela sabia ter. Desejo diferente, carnal, que vinha das entranhas num gesto primitivo como sua vida, olhou para um dos bois e viu um espécime macho, se aproximou e acariciou suavemente, deslizando as mãos pelo lombo. Tirou o vestido para que o macho a visse nua. Deitou sobre as palhas e iniciou o conhecimento das sensações do próprio corpo. Ali deu nome aos bois e os imaginou seus machos. Meio homem, meio touro. Fortes e viris, mantendo a suavidade da mansidão. Ela descobriu que tinha poder. O poder da criação, da imaginação. Luzia chegou ao pleno gozo que a mente pode dar, pela primeira vez se sentiu livre. Não tinha jugo em nenhum dos três.


Luzia podia ir embora, e foi... agora sabia que podia voar por céus onde anjos não ousariam.


No dia seguinte, muito cedo o pai acordou e não viu o café pronto na mesa, achou estranho.


Chamou Luzia como sempre fazia.


Luzia não estava mais.




Wilne Moraes nascida em São Luís do Maranhão, psicóloga clínica, tem contos publicados na antologia Mulherio das Letras, Portugal, antologia Admiráveis Mulheres pela Lura Editora e poemas publicados na Antologia Hilstianas volume 1 pela Editora Patuá.

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