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Janaína, de Claudio Daniel

Capítulo 1 de romance inédito



Entrei na capela do Convento do Carmo para assistir à cerimônia. Nunca imaginei que abraçaria meu filho após o dia em que o expulsei da casa azul-turquesa; sim, eu o mandei embora com asco e medo, com medo e raiva, com raiva e a mais profunda vergonha. Como eu podia amá-lo e desamá-lo tão intensamente? E como seria capaz de vê-lo ou não mais vê-lo nos roçados do sítio Alaketu, trabalhando na terra, fumando cigarro de palha, dançando nas festas de santo, namorando as moças bonitas? Para mim, é como se ele estivesse morto, vivo e morto, entende? Como se eu não estivesse em seu casamento, mas em seu funeral, rezando para que ele entrasse nos portais do orum. Porém, ele está vivo, lindo, tão lindo, tão horrível, tão outro e ele mesmo, que não sei como consegui revê-lo, ouvi-lo, tocá-lo, sem desfazer-me em sal doloroso. Ele é o menino que corria com seus manos, tomava banho no rio, sumia nas noites de verão, vivia às turras, mas também é um estranho que não entendo, não ouso entender. Ele pertence a mim, cria de minhas águas, meus escuros, meus dentros, mas agora é de outro, uniu-se ao bicho do mato, ao morto medonho, ao macho fantasma que cheira a água suja, lua negra, demência. Eu não sei suportar essa derrisão, esse escárnio que me humilha, me deixa de joelhos, como a velha louca vestida de xale e touca. É como se apenas os meus dois braços fossem fracos para carregar tanta desonra; eu precisaria talvez de mais braços para lutar com a infâmia. Se eu tivesse três braços, seria mais forte, capaz de lidar com a mácula, convidá-la para dançar? Ou quatro braços, talvez, transformada em deusa hindu de pele azul, seios nus e cabelos cobertos de cinzas, trazendo nas mãos tatuadas a espada, o tridente, a tigela de sangue e uma cabeça decepada. Mas esta não seria eu, a mãe-mãezinha.

Eu sou de água, mulher marinha, e misturo minhas lágrimas à espuma movente do mar, à luz de prata sobre as ondas. Ele me deixou porque já não me tolera, pergunto aos pássaros da lua? Águas de mim, águas de agosto, águas do meu desgosto, respondam com suas línguas líquidas à pergunta que me aflige e afoga em mar de tristeza. Eu o amo tanto, água de minhas mágoas, olho d’água, malva-verde-mágoa que me deixa à míngua, trava na língua, mordida por cachorrinhos-d’água. Ele, o menino das matas, sempre foi o meu amor, o meu mar, o meu mundo. Sinto tanto medo de nunca mais voltar a vê-lo; sinto medo de pensar nele, de não pensar, de esquecê-lo. Suas palavras verdes sempre tão belas, como folhas de flor desconhecida. Quem terá mãos vigorosas como as dele? Seus braços, fortes como troncos de árvore; sua voz, igual à do leão. Meu filho, o caçador, o dançarino, o feiticeiro. Aquele que disparou uma flecha no olho do sol; aquele que acertou uma flecha no olho da lua. Ele sempre foi o meu mar, meu amor, até o dia em que se encantou pelo Rapaz. Isso eu nunca aceitei, imagine a minha dor, a minha desdita, ao ser trocada pelo anão disforme que se esconde nos fundos da mata. Ele, o manco, o roto maroto que tem três pernas, que são uma perna, que são duas pernas, uma mais curta do que a outra. Sempre odiei o Cicatriz. Imagine o meu nojo ao abraçá-lo no altar, ao lado de meu filho. Como foi difícil sorrir se eu chorava por dentro.


Tião, Tiãozinho, conheceu o Cujo, Zanha-Assanha, em uma de suas andanças nas verdes veredas de Santo Amaro; ele, o mateiro matreiro, estava sempre seguindo trilhas em busca de caça ou apenas para ver as neblinas ou o sol vermelho, nas primeiras horas da manhã; ele fazia isso com gosto desde menino, sem medo de cobra verde, cobra vermelha, cobra coral, nem de ficar sozinho com o fantasma da moça do moinho. Em uma de suas andanças, lá longe do aqui bem perto, conheceu o preto mirrado, que estava fumando cachimbo, sentado num banco de madeira na porta de sua casa; eles conversaram sobre isso e chouriço, depois o Cara de Coelho convidou o filho das matas para entrar e beber uma xícara de café, com um sorriso de canhoto capiroto. Tiãozinho aceitou o convite, por educação, para não desmerecer a modéstia do casebre, bebeu o que lhe foi oferecido pelo Rabudo e logo ficou enfeitiçado, em amor de amor; isso é o que dizem os pássaros da lua, com pena de meus olhos lacrimosos. Tiãozinho voltou para casa depois desse encontro e nunca mais foi o mesmo; nunca mais parou de pensar no amante-amarume. Nas noites seguintes, ele saía de casa, às escondidas, para visitar o amásio, e eles passavam horas bebendo cachaça, rindo, jogando cartas, deitados na rede, fazendo toda sorte de coisas, o senhor imagine. Essa história se repetiu por dias e noites e eu fazia de conta que não sabia de nada. Numa manhã de verão, ele voltou para casa, após uma noite de farra no antro do malandro, e contou para mim sobre o seu namorado. Fiquei em prantos, quase morta por dentro, mas fui enérgica; disse a ele que fosse embora, sumisse, nunca mais voltasse; ele não tinha mais mãe, que fosse atrás de seu macho-marido, de seu amigo, meu inimigo. Tiãozinho, meu destino, meu desatino. Amarga, colérica, voltei para dentro de casa, fechei a porta, senti que tudo girava à minha volta, como se não houvesse mais chão; como se eu caísse num poço infinito, num círculo de imagens confusas. Entrei no quarto, afastei a colcha azul-marinho, deitei-me na cama, os braços caídos sobre os olhos, joelhos recolhidos na altura do umbigo, desejando dormir e não mais acordar. Eu mexia o corpo sob a colcha, virava o tronco da esquerda para a direita, esticava e recolhia as pernas e pés, até cair num sono quente e profundo, num sono sem sonhos, que parecia a morte. Minha reação foi exagerada, pareço megera ou louca? Mereço talvez censura? Não creio; o que pode fazer alguém que ama tão loucamente o filho que é incapaz de cedê-lo a alguém-ninguém? Como aceitar sua partida para o além do nunca, para o depois do sempre? Sou uma sombra do que fui, reflexo turvo nas águas do rio, retrato amarelado de mulher-espectro. Tião, Tiãozinho, o feiticeiro. Ele, meu mar, meu amor, minha amargura. Ele que se vá, pensei, após sair da capela barroca; ele que se vá, como as flores brancas murchas devolvidas pelas águas; ele que se vá, como a areia misturada a detritos e a minúsculas conchas empurradas pelas ondas para a beira da praia. Eu não quero, não preciso de nenhum consolo; já perdi marido e filhos, um de cada vez, que foram viver os seus caminhos. Posso viver sozinha, costurando minhas colchas, fronhas, lençóis, preparando bolos para vender nas festas da igreja, cantando meus cantos marinhos, cuidando de minhas plantas, gatos, cachorros. Nunca precisei de macho. Eu sou a mulher mais velha da família e também a mais moça, com o meu vestido longo azul, cabelos soltos, tiara em forma de meia lua, os grandes seios marrons, de mamilos escuros. Sou mais bonita que essas meninas morenas de cabelos pontudos e lenços coloridos que vão às festas à procura de rapazes. Tive os amantes que escolhi, fui feliz em meus amores, criei meus filhos e vivi com eles, até virarem adultos e seguirem seus destinos. Um a um, eles foram embora, até Tião, Tiãozinho me deixar sozinha. Ele, que eu pensei que ficaria para sempre ao meu lado; ele, o mais alegre e mimado, que sempre tratei como se fosse rei.


Eu fazia as suas vontades; preparava as comidas que ele gostava, milho vermelho cozido, feijão-fradinho com carne seca, cebola, pimenta-do-reino, cheiro verde, tomate e pimentão; costurava suas camisas, calças e meias, atendia a todos os seus pedidos, nunca lhe recusei nada, e São Sebastião, amarrado na árvore com o corpo cravado de flechas, é testemunha do que digo. Eu sempre respeitei muito as escolhas dele. Quis estudar agronomia porque amava a terra, era filho da terra e do mar, gigante azul-marrom-terroso, e ingressou numa universidade pública de Salvador, foi bom estudante, diplomou-se, pesquisou técnicas de agricultura orgânica e fez do sítio Alaketu um modelo de agricultura sustentável. Ele plantava de tudo, feijão, milho, mandioca, abóbora, chicória, para depois vender no mercado, e recebia visitas no sítio de quem queria conhecer mais sobre suas técnicas de cultivo. Ele dava até palestras nas escolas da cidade sobre ecologia, para as crianças valorizarem o lugar onde vivem, e escrevia artigos para os jornais, explicando os males causados pelo uso de agrotóxicos. Tiãozinho, o feiticeiro, é muito sabido e temido pelos fazendeiros ricos, que o chamam de anarquista, comunista, bolchevista. Eu admirava tudo o que ele fazia e sentia tanto orgulho, tanto. Nas horas vagas, ele ainda encontrava tempo para pintar quadros que mexiam com a cabeça das pessoas. Quadros enfeitiçados, alguns diziam. Porque ele é feiticeiro, o filho das matas, e sabe todos os segredos das folhas e das flores, cascas e grãos, e também das cores, tintas e pinceis. Um dia, ele pintou o quadro de uma sereia, com asas de pássaro em vez do rabo de peixe, seios enormes e longos cabelos dourados. Quem comprou o quadro foi o professor Eusébio, da escola de ensino médio, que o pendurou numa parede de sua casa e não parava de olhar para ele; um dia, amalucou-se, dizem as pessoas da região, saiu de casa, largou mulher e filhos e passou a andar seminu e coberto de areia na beira da praia, à procura de sua sereia, que nunca, nunca encontrou. Em outra vez, Tiãozinho pintou um preto velho, com chapéu de palha, camisa de tecido grosseiro, barbas brancas e cachimbo na boca; Pai João, José ou Jizé, isso eu não sei dizer, nem eu, nem a velha louca com a sua risada rouca. Quem comprou a tela foi a filha de um ricaço, Seu Osório da Usina, e a moça bonita o pendurou no seu quarto; nas noites de verão, ela sonhava com o preto velho, que aparecia na forma de um jovem lindo, que a seduziu. Toda noite, ela fazia amor com o preto em seu sonho; até o dia em que seu pai contratou um novo motorista para a família chamado Tiago Alaripe, filho de Dona Benedita, a rezadeira. A moça reconheceu o jovem que aparecia em seus sonhos; e poucas semanas depois eles fugiram juntos, apaixonados, e nunca mais foram vistos na cidade. Coisas assim de amor, de quem encontra o par de seu chinelo.


Tião, Tiãozinho, meu filho, o dançarino. Ele, o encantado, encantador.


Eu me lembro: um dia, ainda menino, ele descobriu uma azaléa roxa que nasceu na fenda de uma grande pedra, na margem do rio. Ele foi correndo me chamar, para mostrar a sua descoberta, feliz, feliz. Então surgiu uma aranha em cima pedra, mas ele não teve medo, não chorou, nem fez caso: prendeu a aranha numa caneca e depois soltou-a no meio do mato. Ele sabia os nomes de todos os bichos, pedras e plantas, e até dos irmãos e irmãs, tios e sobrinhos das crias da mata. Reinava como gigante verde-negro, forte como o tronco verde-negro da árvore mais alta. Seus braços, musculosos; as mãos, grossas e pesadas; as pernas e pés, rápidos como o vento. Ninguém podia com ele no braço-de-ferro, na luta com faca; ele é o melhor capoeirista; sabia derrubar o adversário no soco e também fazer xaveco nas moças. Ele, o dançarino que dança todas as danças. Um dia, enlaçou a cintura da menina da lagoinha, a menina vestida de amarelo, sua primeira namorada, que gostava de usar brincos e pulseiras de ouro e cobre, a menina do ouro e do cobre. Eles se amaram como dois peixes, dois bichos, duas pardais, a pele de um colada na pele do outro, feito musgo na rocha, na margem do rio; Tião, Tiãozinho, o feiticeiro, o dançarino, haverá alguém capaz de escapar de seus encantos, de seu mel? Sim, eu sentia ciúmes da mocinha do rio, mas sabia que aquele amor teria vida breve, como a da borboleta após sair do casulo; seria um amor-fagulha, amor-corisco, amor-corrupião, é o que disseram para mim os pássaros da lua. Ele teve um filho com a mina das águas doces, belo como os olhos do pai, belo como os seios da mãe. Quando a menina da cachoeira foi embora, assim, no imprevisto, no seu-moço-é-hora-já-me-vou, levou com ela a criança pequena e Tiãozinho ficou inconsolável, passava as noites em claro, pensando nos cabelos compridos dela, em sua boca, umbigo, coxas, em seus pequenos pés; pensava nas curvas da menina de ouro e cobre e sofria, chorava; mal pensava no filho, que só veio a conhecer mais tarde, quando o menino já era adulto e não se importava com o pai, que nunca o procurou, mas essa é outra história, tudo tem a sua hora, o seu embora, o seu outrora. Desde a separação da menina de vestido amarelo, ele ficou mais tempo comigo, me ajudava nos afazeres, pedia conselhos, gostava de me ouvir cantar, sempre comigo, sempre tão longe, tão perto, comigo e contra mim, ele e os seus olhos verdes, até conhecer o Aroni Ascoso, o Zanha-Assanha. O que posso fazer agora, além de chorar?


Eu, yami oxorongá, mãe feiticeira, mulher marinha de seios chorosos, que posso fazer além de transformar-me em pássaro, neblina, rio corrente, desaparecer dessa terra, no adeus-adeus? Decidi, então, aceitar o que não aceito e não aceitarei jamais. Fui a Salvador, para o casamento; levei presentes, abracei Tiãozinho e seu marido, mas senti nojo por dentro; como se estivesse no inferno, obrigada a engolir dejetos imundos; eu via os ladrilhos portugueses da capela, os móveis antigos de madeira escura, o crucifixo, as imagens dos santos, e só via lixo, montões de lixo por toda parte, revirados por cachorros imundos; via os convidados nos bancos da capela, amigos dos noivos, e para mim eles eram todos mortos, espectros lazarentos de outro mundo, da terra dos pés juntos; lá estavam também Jorge, Lázaro, Jerônimo, e meus olhos se enchiam de tristeza ao vê-los; meus filhos, todos os meus filhos homens, me abandonaram; por que ainda estou viva? Por que não me desfiz naquela hora como onda que se desmancha no mar? Amor, mágoa, amargura. Após o casamento, houve o almoço no Convento-Hotel do Carmo; eu sentei-me com eles, com meus filhos, suas mulheres, comia aquela comida com asco, aquelas carnes, sopas, azeitonas, rodelas de pão e patês, e bebia a champanhe como quem bebe a poção do desespero. Eles e elas riam e riam, celebravam, eu era a única triste presente, eu e a sombra da velha louca e porca que nunca lava a boca torta.


Jorge dizia, o que é isso, minha mãe! Fique feliz por Tiãozinho, seu filho, meu mano! E Lázaro dizia, mainha, aceite o amor deles, deixe essa amargura para trás, oxi! E Jerônimo dizia que era momento de festa, de celebrar o amor, não de ruminar o que arranha por dentro, o que fere feito faca. Eu não respondi, fiquei amuada e muda até o fim daquele banquete medonho, eu e minhas contas azuis no pescoço, eu e minhas pulseiras de prata, eu e o meu desejo de desaparecer. Depois da sobremesa de manjar branco, peguei o celular, chamei um uber, fui para o hotel e arrumei as minhas coisas, para voltar no dia seguinte ao Sítio Alaketu. Eu queria retornar para a minha casa, minhas tralhas, minha sina, de mãe que perdeu os seus filhos. Sou dramática, dizem os fiscais do alheio; exagerada, faço uma pequena concha das areias brancas parecer a grande muralha da China; minhas lágrimas são como ondas, dizem elas, as linguarudas, e em tudo derramo o sal da tristeza. Elas que caiam na cova do corcunda, é o que digo, que morram de susto ou soluço, de mordida de cobra ou bala perdida, que fiquem viúvas ou sejam mulheres do sacristão, do coroinha e do padre Sebastião, perras da porra. Agora, chega dessas cadelas, voltemos ao meu relato. Passei a noite em claro, perturbada; pela manhã, adormeci e tive sonhos confusos, revi o meu pai, mãe, marido, vi a mim mesma, tão jovem, correndo na praia para ver os barcos dos pescadores; e vi a velha louca que suja o prato e não lava a louça. Ela abriu sua boca torta e suja, de lábios cinzentos, rachados sorriu para mim com os seus dentes podres e disse ao meu ouvido: você não vá, você fique, você faça o que lhe digo. Assustada, corri, cada vez mais longe, até me ver perdida, num beco imundo; quis gritar, mas a voz não saía; quis encontrar uma escada, uma porta, um caminho qualquer que me levasse de volta para casa, mas não havia; tudo foi ficando escuro, escuro, até desaparecer a visão de qualquer coisa, como se o mundo tivesse acabado; depois, eu me vi de novo na praia, correndo para ver os barcos dos pescadores, quem sabe meu pai traria bons peixes para casa, minha mãe irá retirar as escamas, espinhas, limpá-los, fatiá-los e preparar a moqueca para nós.


E então tudo ficou escuro novamente. E novamente tudo ficou claro, luminoso.


Acordei molhada de suor, afastei os lençóis, tomei banho; depois, bebi um café preto bem forte, comi torradas com manteiga, pensei em tudo o que vira no sonho, a praia, o beco, o escuro, a luz, a praia novamente e nas palavras que me disse a velha cega, sábia, louca; decidi ficar mais alguns dias em Salvador, antes de voltar a Santo Amaro. Por que ficar aqui?, perguntei a mim mesma. E procurei pretextos para responder a essa pergunta, cuja resposta não sabia. Vou rezar na igreja de Nosso Senhor do Bonfim, pensei; vou conversar com Mãe Stella de Oxóssi, minha amada irmã e madrinha, no Ilê Axé Opô Afonjá; vou ao Rio Vermelho mergulhar os pés nas águas da praia, cantando ladainhas para Iamassê, filha de Olokum, esposa de Oranian, mãe de Xangô Oluaxô, ela ouvirá a minha prece, entenderá a minha dor. E assim eu fiz: desarrumei as malas, reservei mais alguns dias no hotel, penteei meus cabelos, apliquei perfume de essência de rosas em meu colo e pescoço, passei creme nas mãos, saí do hotel e caminhei pela cidade que eu amava. Andava silenciosa, ouvindo apenas os meus pensamentos, e perguntava à brisa da manhã o que faria pelo resto de minha vida, pelos anos brancos como os brincos de Oxum Apará, brancos como os pentelhos da vagina da velha louca que escarra no prato de sopa, brancos como a espuma do mar de Odoyá. Perambulei pelo centro do Pelourinho, comprei sandálias, tirei fotos de um grupo de meninos que jogavam capoeira, comi abará, depois circulei pela praia, sentindo os grãos de areia em meus pés. No final da tarde, esperei a chegada da noite, dos pássaros da lua.


O passeio me deixou exausta, mas leve; tão estranhamente leve, como se eu não me conhecesse; como se visse outro rosto em meu rosto, outros olhos em meus olhos, outro corpo em meu corpo. Amanhã, pensei, vou acordar mais cedo para ir ao Rio Vermelho, levar oferendas a Iemanjá; fumo, pulseiras, perfumes, para jogar na espuma do mar, e rosas, brancas rosas, para louvar a rainha do mar. Essa ideia deixou-me feliz; dormi um sono profundo, como um mar infinito, azul, silencioso. Eu sabia que quando saísse do mar deixaria para trás a minha sombra, vergonha e medo; que retornaria como se abandonasse novamente o útero de minha mãe; e tivesse outras pernas, outros braços, outros pés; eu mesma, eu-outra, mulher marinha renascida das águas salgadas. Sim, eu ficarei mais alguns dias em Salvador, disse a mim mesma; seguirei o conselho da velha louca que apareceu em meu sonho com o seu xale e a sua touca; eu precisava cuidar de mim, amar a mim, e só depois voltar para casa, no Sítio Alaketu, em Santo Amaro da Purificação. Eu sou uma mulher forte; sou as altas ondas que rebentam, sou a correnteza que tudo arrasta, sou o vento violento do mar. E não precisava de ninguém para estar ao meu lado; só da minha pele, nervos, ossos e músculos; só de minha voz, de minha imensa voz, apenas de mim toda; sou areia, água e vento, e me basto para viver.

Foi com alegria, com tanta alegria, com uma misteriosa, profunda, aquática alegria que finalmente vi a mim mesma.


Odoyá!


 

Foto: rede social do autor.



Claudio Daniel, pseudônimo de Claudio Alexandre de Barros Teixeira, é poeta, romancista e professor de literatura. Nasceu em 1962, na cidade de São Paulo (SP). Cursou o mestrado e o doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP). Realizou o pós-doutoramento em Teoria Literária pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi diretor adjunto da Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, curador de Literatura no Centro Cultural São Paulo e colunista da revista CULT. Publicou diversos livros de poesia, ensaio e ficção. Janaína, inédito, é o terceiro romance da Trilogia do Axé, que inclui também Mojubá (Kotter, 2021) e A casa das encantadas (no prelo).

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