Henrique Duarte Neto

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



CARPINDO



Minha mãe carpindo

a terra no quintal,

enquanto labuto no poema.

O labor cuidadoso dela

complementa o meu.




EU E BAUDELAIRE



Sem mais o albatroz,

nem mesmo a carniça,

muito menos o spleen!

Faço-me também poeta:

mais campesino que urbano.




DA NATUREZA EXILADA EM TEMPOS SOMBRIOS



Nossa terra tem palmeiras,

Palmeiras ardendo em chamas!

As aves que aqui gorjeiam,

Ainda gorjeiam, mas até quando?


Quanta beleza e formosura naturais

Perdidas! Quantos sonhos esfacelados!

Os primores de nossa terra, quiçá,

Esmaecidos, esquecidos, soterrados!


Em cismas me perco dia e noite,

Tentando descobrir se nossa terra

Ainda tem mais flores e amores,

Prados e bosques, várzeas e campinas.


Não permita Deus que eu viva,

Para ver a consumação deste desastre,

Do flagelo absoluto de nossa terra,

Em qual cantam os sabiás agonizantes!




O POETA E O SILÊNCIO



Oh Poeta, infeliz poeta do tempo presente. Poderias recriar o mundo, mas não alcançaste o meio de fazê-lo, tal qual outrora conseguiram realizar os grandes espíritos líricos. Outros foram muito mais a fundo que tu, deixando um legado, uma história. Tua serenidade é artificial e ilusória, em contraponto à evocada pelos clássicos e árcades. Tua dor é esmaecida e sem consistência, em comparação à vazada pelo agônico romântico. Teu misticismo representa um falso mistério, transcendência às avessas, diferentemente do urdido por barrocos e simbolistas. Nem mesmo os fenômenos do moderno e do pós-moderno podem se coadunar a ti, insosso vate, que deixou de sentir, que deixou de semear e, portanto, de colher a palavra plena de significação e de perplexidade. Oh poeta, tu que escreves este poema, e ainda tens o lampejo de lucidez de que de nada adianta o teu cantar estéril, morno e fútil: cede vez ao silêncio, pois, na corrente dos tempos, mais vale uma inexpressão que diz muito, do que a verborragia que nada acrescenta.




HILDA HILST



A poeta singular e multifacetada,

Da poesia em torno da tradição

Àquela erótica ou mesmo pornográfica.


Os grandes temas: amor, morte, tempo,

Foram vazados pela tua lira reflexiva,

Mas também falaste do sexo sem pudores.


És, quiçá, um misto de fada madrinha e bruxa,

A encantar a nós, teus fiéis admiradores,

Com toda a tua riqueza e poder imagético.


Mas também fizeste da prosa um filão,

Enriquecendo sobremaneira este gênero,

E fazendo dele uma fonte de experimentos.


Poderosa Hilda! Tua diversificada e laboriosa

Obra alcançará doravante a imortalidade!

Pois o que é espontâneo e de valor vinga.




Henrique Duarte Neto é catarinense, 48 anos, funcionário público, professor, crítico literário e poeta. Teve diversos livros publicados, entre eles: Provocações 26 (Curitiba: Kotter, 2019) e 34 pequenos exercícios poéticos (São Paulo: Primata, 2020). Publicou em algumas revistas literárias, como a Ruído Manifesto, a Literatura & Fechadura e a Escrita Droide. Os poemas saídos nesta edição são todos inéditos. E-mail para contato: henriqueduarteneto@yahoo.com.br

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