Gabriel Felipe Jacomel - MINIANTOLOGIA DA FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA

PROSA VOLUME 5 NÚMERO 1


BOBO


Descrição do Caso: este relatório refere-se a um sujeito do sexo masculino de 13 anos de idade (sujeito B) incluído no estudo VELVET (Estudo de Fase I, Aberto, Sobre os Efeitos Colaterais do Sedativo XXX0 em Bonobos [Homo sylvestris] Adultos).


Conheço o paciente B desde a realização de outro estudo clínico recente em que ele e alguns outros bonobos participantes apresentaram um comportamento exemplar, colaborativo, que permitiu a conclusão exitosa da pesquisa. Eu e outros Investigadores Principais de outros Centros concordamos, junto ao Comitê de Ética em Pesquisa, que seria melhor para o andamento de um estudo arriscado como o VELVET que os sujeitos incluídos já fossem experienciados quanto aos procedimentos, por vezes extenuantes, dos estudos clínicos. O sujeito B foi o único paciente alocado em nosso Centro, o que, ao que tudo indica, contribuiu para que se criasse certo clima de cumplicidade entre os profissionais da equipe: Bobo, como passamos a chamar o macaquinho, em questão de poucos dias foi conquistando algumas saudáveis regalias; uma sobremesa aqui, horários mais flexíveis ali.


O sujeito B começou a tomar o medicamento XXX0 por via intravenosa (IV) na dose máxima tolerada pelo protocolo do estudo; frequência: 1x/dia. Os sinais vitais no período basal encontravam-se normais, e o Investigador Principal não relatou alterações significativas e inesperadas dos mesmos com o início das administrações. A Empresa Patrocinadora solicitou atualização dessas informações com valores precisos de todos os exames realizados com o paciente.


Não demorou muito para que um enfermeiro cedesse, na surdina, o primeiro Marlboro de Bobo. A lógica defendida foi a seguinte: com o passar das tomadas da droga, Bobo passou a comer cada vez menos, recusando inclusive as sobremesas – algo que deixou a equipe um pouco pra baixo. Uns acham que Bobo foi ficando mais melancólico para acompanhar o clima que assolava toda aquela gente que, para o próprio espanto de cada um, não lidava tão bem com o fato de ter seus mimos recusados pelo bonobo. Pareceu então amor à primeira vista, o tabagismo. Bobo já tragava com desenvoltura o cigarro que descolou após uma das administrações intravenosas de XXX0. Logo que, pelo cheiro, descobri sua ala cheia de fumaça, puxei o meu maço e passei a também fumar com regularidade naqueles aposentos.


Mas a coisa virou um grande evento mesmo quando Bobo começou a usar as bitucas do chão para desenhar intrincadas obras de expressionismo abstrato monocromático na parede de seu cubículo. Em menos de uma semana, aquilo já estava apinhado de novos presentinhos, o pessoal em polvorosa, todos se gabando de terem dado o melhor material para Bobo expressar a sua criatividade. Pais de colégio rico se exibindo em reunião de início de ano. Em pouco tempo parte do material (giz de cera, gouache, lápis de cor, pincel...) foi levado pelos responsáveis pela limpeza. Bobo agora apenas queria pintar em cores primárias, além do clássico preto de sua predileção. Escolheu materiais clássicos, sóbrios, como era de seu feitio. Óleo sobre tela. Pintava com os dedos.


No Dia 8 do Ciclo 1 (D8C1), relatou-se que o sujeito B passou a apresentar comportamento depressivo. O Investigador Principal acredita não ser necessária redução ou interrupção das doses fornecidas ao paciente. Foi informado que o sujeito B iniciou arte-terapia. A Empresa Patrocinadora não cobre custos referentes a nenhum material que não aquele anteriormente acordado mutuamente.


Pareceu incorporar a postura de artista. Apesar da inicial empolgação generalizada, a poeira foi baixando com a constatação de que ele parecia voltar facilmente a seus momentos de melancolia e contemplação paralisada. Fumava muito. Comia cada vez menos, o necessário. Não dispensava as doses de XXX0 e acendia um cigarro no outro quando nos atrasávamos para ministrar a injeção. Claro, sempre cortês, nunca reclamou diretamente sobre o horário.


O que desanimou muita gente é que Bobo também foi se revelando um obcecado artista serial; basicamente só pintava o mesmo quadro. As mesmas cores primárias, dispostas de maneira aparentemente abstrata mas que em um olhar mais atento ou negativista poderia revelar uma explosão. Sim, uma explosão de cores. Pouco apreciada pelos críticos da equipe clínica que, para além de alguma ou outra brincadeira sobre o “Macaco Profeta”, foi ficando entediada com seu brinquedo novo.


E eu, na contramão, fui ficando cada vez mais intrigado com aquelas pinturas. Ficava madrugadas a fio dividindo cigarros e horas silenciosas com Bobo a contemplar seus quadros, que tomavam todos os cantos do lugar. Em algumas vezes, pareceu que ia chorar. Ele. Eu aprendi a virar comporta com o profissionalismo de toda uma carreira dedicada à medicina.


Minha relação com os enfermeiros azedou, percebi que poderia muito bem cuidar sozinho da administração do XXX0. Sem atrasos, sem sofrimento para meu companheiro. Quem sabe considerar doses ascendentes? Não estaria ele passando por um bloqueio criativo que só estaria prejudicando o andamento da pesquisa? Fitava a tela que ganhei de B quando saí de minha cama no meio da noite e voltei ao Centro pra contar e aplicar a novidade para Bobo. Ah, seria uma noite e tanto!


Senti um arrepio quando, antes de acender as luzes da ala, consegui vislumbrar no escuro a brasa acesa do cigarro de B. Quando as luzes tremeram, Bobo já parecia sacar tudo e, num gesto mecânico de rotina, sentou na cadeira em que recebia a dose IV. Nessas poucas horas, ele havia desenhado com a tinta preta um rosto no meio de cada uma das explosões que habitavam aquele humilde lar. Um rosto barbado, como o meu. Bobo me fez sair de uma catatonia atemporal, foi uma das primeiras vezes que ele me dirigiu um gesto aflito. Vamos! Voando, preparei uma seringa com a droga em estudo. Suave, Bobo inclina a cabeça para trás no deleite do pós-dose. Não tateou o cigarro com a mão. Pegou, dessa vez, a seringa recém-utilizada. Como nunca tinha feito, como numa dança. Cheguei a pensar que ele queria aumentar a dose no ato. Meu braço esquerdo foi para trás em um reflexo que assustou a ambos. O bonobo o segurou com calma e aí sentei na sua frente, em transe. Vistas de hipnose. Àquela altura ele já preparava a seringa com o medicamento de maneira mais caprichosa que qualquer enfermeiro. Olhou tranquilo em meus olhos quando senti a agulha pinicar minha veia. Marejei. Sua outra mão pousou em minha perna.


A partir da madrugada do D2C2, o sujeito B não mais foi encontrado em sua ala. Os enfermeiros do Centro em que o paciente administrava o medicamento relataram a falta de uma quantidade ainda não contabilizada da droga em estudo. O Investigador Principal ainda não pôde ser contatado pela equipe do Centro, apesar de repetidas tentativas. Solicita-se à Empresa Patrocinadora a descontinuação do sujeito B em relação aos demais procedimentos do protocolo, bem como a abertura de sindicância referente ao caso.


Gabriel Felipe Jacomel é autor de Deflora (Patuá, 2016), e sua plaquete Pipoca Barroca tem o lançamento previsto para o final de 2019, pela Editora Primata. Tem contos, poemas e textos críticos publicados em diversos jornais, revistas, blogs, zines, coletâneas e antologias no Brasil e no exterior.

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