Ewaldo Schleder

Atualizado: Jan 29

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 1


NENHUMA SOMBRA POR PERTO

Silêncio – o que posso ouvir daqui?

O grande mar. A inundar o mundo. Suas ondas quebradas.

O eco nos morros.

.

Ele conta da nossa precisão em navegar.

Se nem tudo ouvimos há os que nada ouvem.

O que se vê daqui?

Baleias! Em seu imenso berço.

Palco da vida – onde se afundam as cores do arco-íris

a beber as águas de suas placentas.

.

Há dois exemplares da espécie – um casal – a brincar ali.

Mostram somente parte dos seus dorsos. As outras do grupo

vagueiam e mergulham em águas mais profundas.

.

Uma delas deixa o mar.

E se põe a conjecturar as verdades da paisagem surpreendente.

Fico a ver o meu ar nestes três quartos de planeta,

daqui, entre fios desta trama quadriculada que me envolve.

Ela me impede os movimentos, desafia meus sentidos

e destila minha morte próxima.

.

Meu fado é estar aqui neste vácuo líquido a flanar,

perto desses monstros enormes.

Eles sempre dados a me mimar a mim – todo o tempo.

Não sei bem de outras baleias, de outros mamíferos.

Nada sei em geral. Apenas olho, ouço, nado, flutuo

e salto fora d´água – chova ou faça sol, dia e noite.

.

O som agudo, assustador, solto na madrugada!

Esse grito é a minha voz pré-histórica.

A me comunicar a minha curta existência.

A expressar o som do meu ser instintivo.

Emito ondas longas e as recebo de volta. Em curtas ou médias.

Vejo estrelas do mar a me iluminar caminhos.

.

Entre algas e cardumes.

Busco minha salvação selvagem,

me recuso a ter uma alma – dessas humanas.

Quero só uma força que me liberte para as profundezas.

Lá, onde está a fonte da vida, dos segredos naturais, do alto mar,

da origem do mundo.

.

Burburinhos nos barcos não me soam bem.

E o mal?, tanto mal sequer conheço.

O que trama o pescador quando diz:

“peço a Iemanjá peixes e ela me manda baleias”?

Ah...isto nunca passa pela minha cabeça,

nem pelo meu corpo ateu.

Ninguém me dirá que sou demais.

Apenas ignoram que tenho milhões de anos.

.

Eis o aviso de que bocas famintas e bolsos vazios podem tudo.

Mas logo comigo?, só por ser bicho do mar - audacioso e mamífero,

talvez o pecado...

Por ordem da minha natureza, busco as encostas – os cantos de areia, de pedras.

Bem perto de onde habitam os homens.

.

Prometo crescer o suficiente para ganhar um espaço do meu tamanho.

Descobrir a infinitude da minha liberdade.

Aprender a alimentar este meu corpanzil.

Saber tudo o que me ensinam estas sombras

que me acompanham e um dia me deixam.

Uma delas me amamenta, a outra me protege.

Não dos pescadores, mas dos homens gananciosos.

.

De súbito, não mais sombras por perto, só a realidade fria e crua.

Esta colcha xadrez de água e fio.

Nenhuma sombra mais por perto



Ewaldo Schleder Filho nasceu em Curitiba. Quase a totalidade de seus escritos encontra-se em jornais e revistas - nacionais e algumas internacionais. Integrou a coletânea Dez poetas do sul e as plaquetes A noite dentro da ostra e Poesia em tempos de barbárie, editadas pelo Laboratório de Criação Poética, e co-editou o livro Mercosul no divã. Foi premiado pela Fundação Cultural de Curitiba, curadoria de Décio Pignatari, com o clipoema Ezra Pound.

47 visualizações
revista zunái

© 2020 Revista Zunái

  • Facebook Revista Zunái