Caroline Façanha - MINIANTOLOGIA DA FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA

PROSA VOLUME 5 NÚMERO 1


LOMBADA GASTA


Medida 91: Qualquer mulher que esteja sob a posse de objeto de manifestação artística ou intelectual será julgada junto a Comissão de Identificação para averiguar sua legitimidade enquanto mulher e desassociação do chamado Movimento Feminista.


Cyntia


Hoje quando acordei ainda tinha os olhos brilhantes, mas também as vistas cansadas. Ela me perguntou porque eu guardava estrelas nas pupilas. Ela me perguntou “de que mundo você veio?”. Ela me pediu “me empresta o seu olhar”.


“Queria ser cega como tu”.


A verdadeira cegueira está nos detalhes.


Calço as chinelas no assoalho de madeira, que range com o peso do meu corpo. É fácil esquecer de si quando a materialidade não está ali para lembrar do que é real. Ocorre que alguém pode ficar cego de tanto enxergar. Ocorre que alguém pode optar por não ver mais.


Acendo o candeeiro e afasto as cortinas das janelas enferrujadas.


A chama do dia jamais se permite extinguir-se por completo. Apesar da noite e da madrugada, levanta-se mais uma vez no próximo dia. Queria ter a sua disciplina. Queria ter a sua coragem. Como é o nome de uma chama que nunca se apaga? Certamente não o meu. Certamente algo menos cansado.


“Cyntia! Cyntia, está acordada?”, uma voz soa perto à porta, seguido de batidas cautelosas.


A chama que vem do candeeiro ainda me põe cativa ao seu olhar. Talvez apenas se mantendo presa a um cômodo só seja possível queimar para sempre. Ver demais cansa as vistas. Como é possível uma chama ver tanta sombra e escuridão sem se identificar com elas? Talvez mais inacreditável ainda seja como uma chama vive esquecida de seu próprio calor.


“Cyntia”, a voz insiste aflita, sigo até a porta.


“O que é?” abro, impaciente e perscruto o rosto de Liana, uma antiga amiga de minha patroa, quando ainda era seguro dizer-se amiga de alguém.


Há algo terrivelmente errado, noto pelos seus sapatos. Sujos de terra. Nenhuma dama se arriscaria a andar por aí com os pés dotados de lama, com o risco de ser inindentificada. Nenhuma dama se arriscaria cruzar uma rua sem que estivesse impecavelmente vestida. Nenhuma mulher ousaria atravessar uma esquina sem que as unhas estivessem feitas. Nenhuma bem nascida cometeria tamanha burrice.


A não ser…


“É Apolina”, irrompe Lia, a voz trêmula. “Foi agora mesmo, no Parque da Pureza. Aconteceu. Ela foi...ela foi levada.”


Não me permito fechar os olhos.

Q

U

E

D

A


Não me permito suspirar.


Não me permito reagir.


Com os dedos, ponho fios de cabelo rebeldes para trás das orelhas, para fora do caminho dos olhos e me concentro no rosto pálido de Liana.


“Me conte como foi”.


Ela abre a boca e começa a falar.


Não ouço nada. Nenhuma palavra de seu discurso encontra caminho para meus ouvidos. Sento na cama enquanto ela fala. Ajoelho no chão enquanto ela fala. Ponho as mãos no rosto enquanto ela fala. Tapo os ouvidos enquanto ela fala. Cravo unhas nos dedos enquanto ela fala.


Nenhum dos gestos é eficaz em guiar suas palavras aos meus ouvidos.


Todo o discurso jaz inútil. Toda explicação é insuficiente. Toda palavra soa insossa.

Apolina foi inindentificada.


O mundo, como que por misericórdia, se cala.


Lia segue falando. As costas do assoalho seguem resmungando sua idade quando golpeados pelo peso de nossos pés. A chama do candeeiro segue brilhando. As cortinas das janelas seguem batendo contra as paredes, em revolta por serem mantidas acopladas ao teto.


Todos encontram seu jeito de gritar.


Não eu.


As portas se fecham e não sou capaz de registrar mais nada que não seja aquele dia em que acordo e me viro para ela. A lembrança perdida. Tateio em sua superfície como se fosse possível tocá-la, afundar em seu peito, sentir seu perfume. Lembro-me do dia em que minha chama ainda via algo que não fosse escuro.


Mas as costas dos olhos me recordam o que hoje já não posso ver.


Apolina coloca suas mãozinhas em meu rosto para se despedir. Ela parte pela porta, Lia segue falando. O seu vestido de algodão treme pelo vento, mas a dona anda mundo afora com a coragem de uma chama que se recusa a se apagar. Lia segue falando. Apolina tem cinco anos e seus olhos brilham. Lia segue falando. Apolina tem vinte anos e seu dedo anular brilha, amparado pela aliança de ouro que agora leva junto de si. Lia segue falando. Apolina tem vinte e cinco anos e ela brilha, plena em sua fúria, se desfaz do coque, se desfaz de meus avisos, se desfaz de todo o disfarce, as unhas pintadas e o cabelo preso, toda a compostura aprendida em Escolas de Etiqueta no Verão Europeu.


Lia segue falando. Em galope inexplicável. Lia segue falando. Um som oco implacável. Lia segue falando. Estanco. Quantas vezes, mais centenas, talvez milhares, até cessar? Lia fala. E eu falho. Incessante. É um círculo, uma roda secular que não acaba nunca.


Apolina tinha vinte e cinco anos na última vez que a vi.


Fecho os olhos sentindo a ponta de seus dedinhos deixando minhas bochechas.


Me volto para a luz do lampião, que me recorda outra vez daquele assombroso dia, daquele estarrecedor brilho nos olhos de uma Apolina tão viva aos cinco que não parecia destinada a se tornar um fantasma vinte anos depois.


Ela me perguntou porque eu guardava estrelas nas pupilas. Ela me perguntou “de que mundo você veio?”. Ela me pediu “me empresta o seu olhar”.


“Queria ser cega como tu”.


Sopro o lampião com força e a sua chama se extingue.


Queria que fosse cega como eu, Apolina.


Se assim fosse, não teria que deixar de existir.


Caroline Façanha dos Santos Mathias é Mestre pelo programa de Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, Bacharel em Literatura pela Unirio. Escreveu o artigo "Pelas frestas da janela de Medianeras: o que entra, o que sai, o que sobra" disponível na revista Da Gaveta. Foi responsável pela dramaturgia do espetáculo Utopias Reais, da Orquestra Manouche, lançado no Sesc Copacabana em 2019. Atualmente, organiza eventos em parceria com a Academia Carioca de Letras. Além disso, possui artigos publicados e este ano, um deles, especificamente sobre as autoras Virginia Woolf e Katherine Mansfield, integrará o livro Literatura, cinema e suas interseções, da Editora Bordô-Grená.

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