Carlos Sallum

Atualizado: Jan 23

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



MORBOSES


I


Na fome ilimitada

da antecedência do poema,

enquanto a musa — cornucópia

de palavras necessárias —

não chega, o cio morde o pó.


II


No rumo incerto em que persisto, eu visto

as patas de sombra do lobo-guará.

Tenho o olhar cansado de medo do cervo,

o meu fígado ofereço ao carcará.


Na boca do estômago o travo do nada,

na mente o corte fundo da cana afiada,

covarde e valente, monstro jamais visto,

quarta folha de azar na trinca do trevo.


Traço o cancioneiro da treva no metro

da pedra deixado por deuses fugidos.

Passo o escuro da mata num corpo de onça

travando a passada dos meus inimigos.


III


Lua de sangue de velhos vaticínios

desvaira o jovem, que some no rio.

Pescaram-lhe o corpo transfigurado...

Homem, não chora o teu filho querido.

Morrer é como nunca ter nascido.


IV


Mar imenso, netúnio,

sob negra tempestade

conduzindo, hercúleo,

do adeus a majestade

e o acre desespero

em portentosas vagas,

entre os tritões de gelo,

ao cor do marinheiro.


V


Vela a tua arte negra

passa às tuas irmãs

o saber das sombras —

sempre desce o Athame

o colo dos montes

para novos vales.


VI


Sol aurinegro sob asas

estrigídeas, eclipsantes,

imensas como os batalhões

da antiga queda, tronantes,

que assaltam os fortes de Deus.


Sol glacial sobre montanhas

míticas, magnetizai

a estirpe maldita, mortal,

em combates fratricidas,

para o júbilo de Belial.



BRENDA


Eu te vejo, ou nós, legião,

vemos-te. Nós, confusos

em ecos mudos, vários,

como fumos espectrais

presos em câmara-ardente:

eu e falange daqui te vemos.


Num instante, ainda me lembro

do punhal avançando

na bruma, do céu gris,

do capuz negro, do círculo,

dos sete corvos grasnando,

do fogo e dos círios vermelhos.


Do que eu queria ainda me lembro:

cauto, evocar tua alma

enquanto dormia calmo

o teu corpo em lençóis mágicos

como o altar e os intrumentos

do mago. No silvo dos ventos


teu espírito me pressentiu.

Logo manifestou-se

assombroso, envolto

em lume azulado e roxo.

Teu faro, ctônio como

o cio de Hécate, descobriu-me.


Teus olhos estavam fechados

e eu não podia saber

por que também assim

dormias, espiritualmente.

As tatuagens nos teus braços

eram sigilos semoventes


e muitos eram os teus braços,

serpes de belo aspecto.

Majestoso rubi

ornava a tua fronte e asas

tinhas grandes e sombrias

como nunca vi num espectro.


Em pensamento ouvi tua voz

me dizendo: “Não durmo.

Penso e mesmo te vejo

todo em teu desejo e medo.”

É quando os teus olhos se abrem

e os meus fecham, magicamente.


O que veio depois eu não lembro...

Sei que agora te vejo

dormindo no teu quarto

entre desenhos de estriges,

de pentáculos e efígies

de bodes sabáticos, pretos.


Na alta caveira oculta e mística

que vela por teus sonhos

eu e meus demônios fomos

encerrados. No teu livro

das sombras está escrito

o nosso fado, para sempre.



DEBACLE


Como láudano que se difunde num aquário de peixes pávidos, Noite se dissemina no viveiro humano. O tempo é de áugures negros. Germinam profecias em berços bastardos. Serpente escarnada atravessa as coxas da Mãe que, sáfara, sonha profundamente entre searas devastadas. Visões de colossos vermelhos, estrondosos monstros, desabando sobre a Cidade; visões de cataclismos engolindo vastas populações; visões titânicas, tirânicas, de línguas de fogo e fumaradas: Behemoth e Leviatã num abraço de sangue. A chuva varre brutalmente a cabeleira das árvores escurecidas, que vergam entre o estertor funesto dos pássaros esmagados. A Criança avança no coração do Templo e expira nos metais aurinegros do altar. O Hierarca veste o rosto de mil demônios. Palácio pilhado. Rei e Rainha violados. Sobre a Coroa um túmido sapo. À ponta do Cetro a cabeça da Anciã. Soberania estraçalhada. Todo o Reino é vórtice de morte. Feridos pela peste, os deuses batem em retirada.



PERDER


Beijar o espaço dormente das amputações. Colher as flores rançosas dos aleijões. Ser moeda falsa num aquário de aguardente e salamandra nos intestinos do subúrbio. Assinar a demissão perpétua. Trair-se ante os próprios traidores. Cultivar felicidades em miniatura num mictório sob a cama. Perdoar o verdugo e trocar de forca para morrer melhor. Frequentar o festim das cadelas e comungar com os insetos. Saltear as catedrais sob o olhar céreo de manequins santificados. Peregrinar para ninguém. Ser regurgitado pelos sexos mais impuros. Ter o hálito de migalhas emboloradas e a dentição das ratazanas. Desabar sobre jardins sencientes e roçar o cetim dos esgotos. Cirandar em esquinas despovoadas e ser a noiva dos cassetetes. Em plena luz do dia, acusar-se de crimes miseráveis e adormecer à sombra dos próprios escombros. Numa noite dolorida e tinta, mijado de declínio, acordar para perder.



DRAGONETE


Ornam-me as têmporas prescientes as jóias da maré. Sou preamar sob manju, inundando os arrecifes que são os corpos de marujos invictos. Sou baixa-mar sob kanju, desertando a cama salinizada por amantes oceânicos. Quem sabe a angústia dos dragões, a ressaca sob as escamas fabulosas? Névoa de ópio entre lanternas de papel alaranjado. Acolho no olfato ensanguentado o olor primigênio das algas. Testemunho o milagre de uma cerejeira floreando o areal das aflições. Tapeçaria delicada cantando cópulas heróicas. Trapaceira, traí o Imperador por trinta tríbades — enquanto o montava, treze xoguns negros deceparam-lhe a divindade. Desonrei a constelação dos antepassados, a corte venerável dos demônios familiares. Finamente tatuada sobre o dorso a dívida inestimável de mil suicídios rituais. Quem sabe a remissão dos monstros submarinhos, o fim honroso oculto nas conchas abissais? Relâmpago, kaiken parte da toca no quimono: para estilhaçar o colo de porcelana das damas, ou sangrar o tronco vigoroso dos samurais.



CIGANA


Ainda menina, aprendi nos becos a gíria secreta de Deus. Vi punks, às facadas, selarem seu duelo com um beijo e policiais engrinaldados sangrando nas delegacias. Madonas que desceram às ruas me revelaram seu amor ao lenocínio. Fui iniciada nos mistérios da sujeira. Santa Pobreza me impôs as suas mãos escarnadas. Traguei o cheiro acre dos conventos e testemunhei as irmãs confessando, alvejadas: “Pai, suguei o numinoso das tuas coxas”. O lugar de onde fala o Ser é um lugar de poder: até hoje estou sentada sobre ele. O acender de um cigarro num quarto vácuo e escuro é um poema cosmogônico: eis uma verdade que jamais precisarei provar. Meu corcel afogueado atravessa todos os bairros e, quando volta para o meu peito, traz em sua crina o tributo dos reis de todas as esquinas. Sopro um canto apache sobre as tuas ancas e todos os teus pudores se me oferecem. Fundo meu verso no vale dos teus seios. Enterro-me no teu ventre e assim me familiarizo com teus antepassados. Bato a carteira do teu futuro. Surpreendo as gemas do teu destino e, após profetizar o meu próprio fim, morro em teu nome para ressurgir, transfigurada, nas legendas esfumaradas da cidade.



RECIFE


Despida do teu halo solar, a chuva e o cinza raros revelam-te mendiga inundada. Na azulejaria avariada de teu dorso barroco, contemplo o rosto enlameado dos teus profetas iracundos. Aprecio os teus delírios na beleza irreparável dos teus escombros. Ó Recife faustosa! violei os teus tratados mais queridos e poluí os teus relicários. Com lascívia pirática, assaltei os teus orgulhos mais recônditos. Ó neerlândia crustácea! sobre teus arrecifes almiscarados proclamei-te meretriz dos mares meridionais. Porque és perversa e perpétua no sangue, amo-te virulentamente. Porque sonhas entre monumentos baldios, amaldiçôo tuas assombrações. Porque esperas na História, renuncio ao teu destino. Por que não me esmagas em tuas moendas entardecidas? Por que não me enforcas em teus remorsos coloniais? Pois esfaquearei o teu bojo mormacento até que sangres todos os teus mangues. Farei abater-se sobre ti um astro lutuoso e apagarei tua memória do registro dos reis. Farei dos teus estuários um túmulo marinho e amputarei as tuas pontes soberbas. Destruindo-te em sacrifício, tomarei tua alma para aprisioná-la na rosa-dos-ventos.



ANTIGO


Sou antigo. Lembro-me das infâncias de Deus sob noites severas. No empíreo-de-baixo, caminho entre jardins monstruosos e sencientes e contemplo, em murais candentes, a cronologia das minhas devastações. Sou inimigo. Servi nos batalhões da Queda. Calquei as insígnias imperiais da Terra e fiz delas as medalhas dos meus garanhões. Sempre venço e estou derrotado desde o princípio. Sou réprobo. Desço tão fundamente nos espíritos que torno corpos em fossas abissais. Minhas línguas são cálidas, caliginosas. Meus punhos são glaciais. No ventre guardo um mausoléu de santidades e do meu sexo parte um vigor tenebroso para violar toda matéria. Minhas melenas malévolas flagelam as esposas celestiais. Sou o Não perverso e absoluto que habita os magmas proscritos. Sou insurreto. Desobedecerei perpetuamente os decretos mais sagrados e definitivos. Éons serão consumidos: enquanto o mundo não for sepulto em mim, Kairós não me ferirá.



VILÃO


Há muito tenho sido sujo. Poucas ruas ignoram meus traços ignóbeis. Quando me ferem os faróis da polícia, toda uma dinastia de larápios incrimina-se em meus maxilares. Meço toda ameaça como um maçom. Punho anacarado, relevo em prata de motivos pagãos, lâmina cegando: jamais abandonarei o meu punhal. Covarde, nunca matei um homem. Contudo, sou vilão, e desejo que a lei venha se acabar em mim com um sarro. Creio no Cristo. Temo os touros, os silvos e as tempestades. Sozinho sob marquises apodrecidas, num abandono de réptil, eu me comovo secretamente com minhas delicadezas. Na noite passada compus uma rosa de trapo para as exéquias das minhas melhores recordações. Sou absolutamente desperdiçado. Sonhei rubis como cabeças a rolar sobre mármores escuros e vastos, mas fui roubado por todos os meus amantes. Da última vez, Catarina levou-me o brinco de ouropel e precisamente esta vergonha miserável me fez amá-lo para sempre. Sou viciado. Embora farejem a lepra, meus sentidos não renunciarão às epifanias do ópio. Caio graciosamente em desgraça. Sou mais baixo que o rés-do-chão e tenho o orgulho luciferino dos penhascos. Ninguém mereceria os meus andrajos: eles são belos demais para outros destinos.



MONJA


Era proibido. Em cálices herméticos, sobre os mármores tumulares de uma dinastia banida, ela sorveu secreta e lascivamente licores infaustos. Súbito seu espírito, seta envenenada, desceu à cripta encantada dos êxtases enfermiços. Com olhos pávidos testemunhou o pecado, qual tumor transfigurado, reluzindo no vazio opulento das aras. Com mãos impotentes tocou as florações da gangrena no tronco dos sacramentos. Viu o pavão tenebroso, ave perpétua, num rasante maligno sobre a procissão dos sacerdotes; viu tudo explodir em eflúvios aurinegros e resinas pestilenciais: o Mal e seu orgulho em luxuosas volutas de fumo e putrefação. E o bojo do domo infestado de miasmas! os vitrais traspassados por fantasmas! a nave povoada de cânticos ctônicos e assombrações! Ouviu o tom dos fermentos santos sangrando os lábios ofertantes, o azeite da extrema-unção sulcando as carnes consagradas. Contou na linhagem cruenta dos mártires as cabeças canonizadas sumindo-se no mar vermelho. Beijou o rosto regélido de madonas genuflexas, que desmoronavam ante o perdão dos confessores. Durante o lava-pés dos prelados, uma legião de girinos saltava obscenamente das pias batismais. Os anéis bispais eram aranhas preciosas que fugiam dos dedos para violar o peito incontinente dos dignitários. Os corpos incorruptos derretiam como vis bonecas de cera sob a Estrela da Manhã. Na visão final de um gigantesco hostiário imundo, ela reconheceu o símbolo monstruoso do mundo. Era proibido.



DELFIM


Aquário aceso com peixes mecânicos. Ouija na câmara nupcial. Luo Shu em dorso pantérico. Cedro Panoptes em campo-santo dinástico. Onde, infante, os teus brinquedos monstruosos? Onde a saga de tuas coxas glabras? Onde as iluminuras de tua herança? Tens declinado, criança, com os brasões da tua casa. Ronda a tua fronte a graça do golpe que angeliza. Sei das tuas entranhas anuviadas, das tuas febres boreais, das bússolas estilhaçadas no quintal. Toquei o bulbo oculto em teu flanco, ônix malsã, e a farpa glacial posta no seio da tua mãe. Tende piedade, mendigos e potestades! que a cruz amortalhou a via gloriosa do trono.



ICONÓSTASE


Os sinos correm os campos colhendo as inocências dispersas pelos corvos. Os turíbulos geram nebulosas nos intestinos da nave. É lactante o Corpo Místico: vinde, bandidos e crianças de peito. Na penumbra o Hierarca exibe a envergadura feérica dos paramentos consagrados. O órgão tinge a face dos pobres de acordes preciosos. As línguas, trêmulas e reverentes, ofertam-se à transubstanciação. A memória atualizada da redenção explode o crisol eucarístico. Quem persistirá no sepulcro, nas faixas putrefatas de Lázaro? A altitude áurea dos ícones guarda o Santo dos Santos, enquanto as energias de Deus traspassam os olhos maravilhados.



JOGATINA


Garrucha no estojo vermelho guardado por serafins. Camarada, é a ruína! Mais uma vida no feltro maculado dos bilhares. Fêmea estourando em couro fulmina os duelistas. O porre é vasto e se desdobra na noite. Pagarei depois, nos sete palmos. Sem dinheiro, na rua. Nossa Senhora me aparece: filho, amor de mulher não é. Trago o nome de sete ladras no braço: sete naufrágios na carne. Bar. Os tiros de giz na noite, os tiros alucinados de pó e giz. Tudo dorme. Tudo o que é salvo: o resto é fundo demais. O quarto nulo, amargado. Garrucha no estojo vermelho aberto por serafins: a dívida escorre pelo colchão amarelado.



UMBRIA


Toca o bronze assolado dos monumentos sem memória. Colossos que não dizem passado. Pisa as ruas sem norte, soberbas serpes sob geadas inclementes: sente como não têm lugar. Vê a face incógnita dos passantes, o milagre de seu anonimato, o hermetismo dos olhos que ficaram para trás: nota como, contudo, eles te sabem. Abre o livro oculto no templo desertado, este poleiro de enormes íbis-sagradas: procura pela inscrição irrevogável do teu nome. À noite aqui é sempre noite a Senhora virá, majestática, em vestes talares pesar teu coração, medir o tamanho do teu abandono e suspender o gládio justo sobre a tua cabeça desornada.



SPES


Quando a terra suava as vozes semptiernas falando do ser, quando colhíamos símbolos em pomares prescientes, quando a Mãe era manifesta em todos os quadrantes: habitávamos, então. Que calamidade abateu-se sobre nossos corpos indistintos? que sanha insinou-se entre nós e as correspondências dos elementos, entre nossa fraternidade de aranhas e leopardos, ostras e falcões, peixes, salamandras e carvalhos? Retornar à ausência das máquinas, das graxas e carbonizações; voltar ao viveiro próspero e consubstancial, à incolumidade das primícias luminescentes: esperar nas amplidões inconsoladas a eclosão salvífica das epifanias derradeiras.



MANDRÁGORA


Balé de fogos-fátuos em campos desertos. Uivo de gigantes sob a luz gélida de astros extintos. Desolação beatífica. Quem vem lá, nas carruagens da meia-noite? Revoada de estriges vergando os trigais. Bolas de negrume na bolsa da bruxa. O meu duplo cintilando no ambívio das aldeias: quem esconjurou o meu gnomo? Acha-d’armas ressoa espelhos de bronze no castelo arruinado. Monjas exumadas em capelas palatinas. Ah, o maná das estátuas miraculosas, as charadas excelsas das catedrais! Jogral eloquente dos calabouços, anão fabuloso das ameias, quero vestir a beleza desesperada dos vossos disfarces.




Carlos Sallum é escritor amador. Paulistano, vive atualmente em Recife. Não possui títulos. Não tem livro publicado. Escreve quando a dor não é grande demais. Escreve para não perder os deuses de vista.

275 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo