Brasas por Eduardo Evangelho Vieira

PROSA VOLUME 5 NÚMERO 2



“O quarto está pegando fogo” disse entrando pela sala correndo. Meu pai respondeu com um aceno apontando para o canto do sofá ao lado de minha mãe. Estavam vendo as notícias do meio-dia enquanto aguardavam o almoço. Minha urgência da situação se dissolveu, numa tentativa de fala que se interrompe e leva a quem ia falar a permanecer de boca aberta, por segundos estático, reiniciando os pensamentos e as importâncias. Perdida a hora da pendência irresoluta, sumiu, também, a agitação momentânea e me dirigi para a parte do sofá que ele apontara, tendo que fazer um esforço para subir e me posicionar sentado. Concentração para ganhar velocidade. Jogar o tronco por sobre a almofada. Empurrar os braços sem ter onde acertar o pé para um impulso final. Terminar sem ar e sem palavras, sentado do jeito comportado e com o braço no apoio. Tudo isto me equilibrando sobre o incêndio que se iniciava na parte de dentro da casa, de onde eu vinha correndo, mas já sentia a aproximação da fornalha.

Na cozinha se aprontava o almoço, cujo cheiro preparava outros sentidos para os prazeres do primeiro pecado capital. Diante da tevê, apenas a voz metálica do locutor do vespertino. Do outro lado da casa, chacoalhando sobre o metal e a chama, cheirando e chorando, secreta fervura borbulhava na panela de pressão, permitindo apenas a respiração chiada do mínimo possível para que tudo se tornasse suportável, agitadamente contida pela pequena lamúria constante e ritmada da válvula de escape. Incógnitos, subiam e desciam em seu interior, feijões saltitantes, charque e linguiça, emergindo carne exposta, submergindo cozimento.


Esgueirando-se pelo teto da sala, rolando sobre si e arrastando-se lentamente, o encontro mesclado da nuvem perfumada e das cinzas em poeira, tomando o lugar por avanço gradual e inevitável. Eu permanecia sentado no sofá, olhando para a nova presença enquanto não era capaz de alcançar os pés no chão. Ainda, ninguém dizia nada.


Mas era eu o culpado pelo fogo? Alguém poderia dizer numa conversa entreouvida que não passara de um acidente. Não soube? Um vizinho provavelmente estava fumando num andar de cima e, ao abandonar a ponta ainda incandescente de seu vício ao vento, este poderia facilmente levar a bituca para dentro de um apartamento ingenuamente deixado de janelas abertas. Pode acontecer em qualquer lugar e não seria eu a ser o culpado. Alguém dissesse algo assim, eu prontamente concordaria simplesmente para fugir de qualquer julgamento. O fogo também é capaz deste tipo de sentimento mais primitivo de sobrevivência, acho que poderia lidar com uma culpa assim.


Uma vez que ninguém nada disse, ou perguntou qualquer coisa, mantive-me silente. Entretanto, eu sabia o que havia acontecido. O fogo era culpa minha. Criado ou achado. De início, mesmo sem uma plena consciência de como sequer eu o poderia haver causado, fluxo de energia bonita e destruidora, restei-me hipnotizado pela chama oscilante. Neste estado de intensa letargia, pude contemplar sua beleza e até desejar sê-lo, não me restando nada além de almejar que crescesse e consumisse tudo. Como um gênio saído da lâmpada antiga e capaz de adivinhar meus desejos, ela foi se tornando maior, atropelando o chão, roendo os livros, ventando as cortinas. Foi aí que tive medo e me perguntei quando tudo tinha começado, quando eu poderia ter colocado marcha àqueles projetos ou àqueles intentos, quando a beleza cambiara para algo destruidor? E se não fosse eu o causador? Responsabilidades também podem ser adotadas, como filhos achados e de quem secretamente não gostamos, mas sem nunca deixar transparecer qualquer ato ou postura para além do puramente aceito como responsável.


Mas, afinal, quando é possível determinar o derradeiro início do fogo? Ou como é que qualquer tipo de acontecimento se define no tempo e no espaço não sendo logo localizado um pré-evento anterior que lhe deu causa para, depois, outro acontecimento pretérito ao pré-evento já descrito, depois outro e outro sem nunca se conseguir atingir o fio da meada original ou, resignadamente, apontando como responsável exclusivo a origem do universo, quando tudo e todos residíamos numa singularidade na ponta de um alfinete.


Chegando a sala correndo, o gesto definitivo, definidor da verdade. Fosse o que fosse, não merecia ser sequer pronunciado, devendo jazer calado em qualquer lugar que não fosse o ambiente de se estar. Há perigo? A palma branca com dedos compridos tornou a perspectiva em mudez, as certezas em memórias imprecisas e as importâncias em nova profundidade. Ato capaz de mover paredes de casas, moldar as realidades percebidas e por tudo em dúvidas. Afinal, das coisas que não se falam, quartos em chamas podem enquadrar-se perfeitamente na seção. Talvez não fosse pergunta de se fazer, vontade que se deve aprender logo a suprimir nos rituais inevitáveis que separam crianças e adultos. Amadurecimento que faz a pele secar sobre o músculo, salga a carne, deixa a língua áspera no céu boca e os olhos amarelos. Que se deixe queimar até virar brasa, sufocando a fumaça por dentro da garganta e trancando os dentes, em uma moldura posada de quadro de família em tons pasteis. Nesse dia, entrei correndo pela sala e a voz não me saiu. Pensei “o quarto está pegando fogo”, mas não disse nada. Escalei o sofá e me sentei ao lado da minha mãe. Logo seria hora do almoço.




Eduardo Evangelho Vieira é jornalista e servidor público de Porto Alegre.

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