top of page

A esfinge infernal de Ricardo Pedrosa Alves

Fragmento de romance inédito



09-10/04


No ônibus, eu e meu filho. Descemos aqui perto de casa, antes de uma senhora e sua neta. Vamos andando e encontramos um menino estranho, deformado, andando de cócoras. Estimulo meu filho a imitar e eles vão colados na calçada. Não sei se o imitado se irrita, mas na esquina de casa apanho um pedaço de pau e bato nas costas dele, afundando a corcunda. Fica estatelado no chão e vamos eu e meu filho para casa. Pensamos em jogar o corpo numa vala próxima, mas desistimos e entramos. Eu saio e encontro, num bar desses de clube, mesas com sombreiro, a Jussara Salazar e o João Urban, com drinks e um senhor de chapéu. Peço um café no bar. Estou sem dinheiro e vou aos amigos para que emprestem algum. Sento com eles. Depois de rirmos muito, desço ao ginásio, onde alguns garotos praticam arco e flecha. Sou atraído por um menino, no fim da pista em declive, cantando uma guarânia. Ouço um pouco, fico enjoado e volto observando duas moças praticando ginástica com fitas. As fitas se enrodilham no ar e descem às mãos. Elas têm os cabelos muito presos e saltam graciosamente. Subo a ladeira do ginásio. Volto à casa, meu pai está lá batendo bifes numa tábua. Ele conta que policiais estiveram na região, investigando a morte de uma criança. Lembro que algumas casas tinham câmeras, penso que serei apanhado. De algum modo, fujo para o México e acabo numa prisão. Os mexicanos me olham com fome.



10-11/04


Vou a um restaurante no campo com funcionárias da loja, como fazíamos nos finais de ano quando tínhamos comércio. Meu pai me delega a coordenação. Restaurante fino, garçons irônicos. Pedimos os pratos. Uma moça se destaca pelas trapalhadas: não sabe o que pedir, não entende o cardápio, chora, vai ao banheiro. Vemos que está chorando no banheiro, pois a parede é de vidro. Volta e derrama o vinho na mesa. Em volta há um campo, lago, paisagem de sol. Os pratos demoram a vir. Saio com um rapaz que vai mostrar a região, já estivera ali. Atravessamos, numa grade ligada a um penhasco, aventura perigosíssima, um cânion. Lá embaixo um riozinho. Ele conta que ali era uma passagem secreta para o Paraguai. Voltamos molhados ao restaurante, quando os pratos começam a chegar. O meu não vem. Saem inúmeras bandejas de docinho da cozinha, mas meu prato não vem. Enfim sou servido, polenta e salada. A cozinheira, uma senhora com avental sujo, vem explicar que não tinham mais costela. Diz que já era quase meia-noite e a carne acabara. Pago os 500 reais da conta. Noutro, estou na faculdade, mas me recuso a ir para a sala de aula. Fico rodando, vou à biblioteca, vejo livros que me interessam na mesa. Penso em roubá-los, mas há sempre alguém passando de jaleco e não consigo. Ponho meu jaleco, vejo do outro lado do pátio – um vão enorme e profundo, sem fundo eu suponho – os estudantes me aguardando na sala, todos adultos de jaleco branco. Fazem caretas, colam o rosto no vidro do janelão. Algo me segura, não quero mais dar aula. Penso no meu filho, que ele precisaria daquele dinheiro, mas não vou para a sala. Algo me impede, uma recusa. Quase me encaminho enfim, mas desisto na última hora. Seguem passando outros professores e professoras, ninguém me olha, ninguém me cumprimenta. Decido sair dali. Penso na Ana, que ela teria de arcar com as contas agora. Vou descendo uma ladeira cheia de árvores, anoitece. Penso em ir ao cinema, ocupar o tempo da aula. Cruzo uma rua onde populares queimam pneus. Ali, vendo o fogo, lembro que estou desempregado e que não deveria me sentir culpado já que não teria mesmo aulas a dar.



11-12/04


O primeiro repete sonhos que já tive. Basicamente, eu voo. Acordei às quatro, vi um pouco de faroeste e quando me pus a dormir pensei que iria sonhar comigo voando. Gosto de voar. Eu começo deitado num gramado e é difícil no início. Bato os braços, um voo raso, então logo já atravesso a praça e ganho altura. As pessoas estão circulando, parece ser um shopping ao ar livre, com gramado em vez de quiosques. Vou cada vez mais alto e deixo aquele retângulo comercial tomando à esquerda. Minha preocupação é não tocar nos fios de alta tensão. Lembro que estou no que chamei primeiro de Marginal Tietê e depois vi ser a Marginal Pinheiros, o rio lá embaixo. Tudo isso acontece à noite, luzes da cidade e as águas escuras e calmas, acobaltadas. Ganho mais altura e de repente desço, talvez caindo, sobre um jogo de tênis. Acho que vou me esborrachar, mas fico a centímetros do gramado. Um jogo exibição do Guga. Sou um espetáculo, vejo as pessoas admiradas e ganho orgulho, voltando à praça do início onde crianças loiras tentam me acertar com suas raquetes. Eu voo movimentando as mãos, raramente os braços, à maneira de hélices laterais. Daí estou num ambiente fechado, uma casa, e sou perseguido por uma ou duas crianças. A casa tem alguns andares e lembro de subir e descer corredores de escadas. Sempre voando. Faço curvas ousadas num ambiente confinado. Não sei como termina. No segundo, espero com a Ana numa avenida. É noite. Chega uma Belina verde velha, parece o carro do Jefferson. É uma criança no volante, estaciona do outro lado, em frente a uma porta de aço envelhecida, subindo rispidamente na calçada. Na verdade, era um velho ao volante. Atrás vai a Laís, mas com o rosto da Eliane. Atravessamos a avenida e chegamos ao carro. Abrimos o capô, vejo fumaça, mexo com aquele ferro do óleo e percebo ter soltado um cabo. Fica vazando um líquido, vejo que há mais cabos vazando. Falo com a Laís/Eliane, mas ela diz ser bom para o carro, bom ter algum sofrimento, que o carro está acostumado. Entramos e vou dirigindo sendo guiado pela Laís/Eliane. Vamos saindo da cidade, estrada de terra, mato fechado dos lados, capim gordura. Chego a um portão estranho, parece mais uma cortina de paus pendurados e amarrados. Eu me pergunto ‘e agora?’. Resolvo atravessar e quando passo vejo um sujeito com pano na cara, sem camisa, portando um fuzil. É nitidamente uma favela e agora o mato raleia e se mistura a casas pobres. A rua passa a ter calçamento de pedras e amanhece como num bairro periférico, agora com casas misturando madeira e alvenaria. Paramos diante de um morro, descemos e subimos a longa escadaria carcomida. Escada de cimento, fazendo curvas e se estreitando. Chegamos a uma casa no fim da escadaria, somos recebidos por uma senhora gordinha, parece minha tia Maria do Carmo naqueles vestidos simples. No fundo da casa há um cômodo onde algumas idosas prensam maconha numa mesa e cortam pedaços de haxixe a canivete. Estamos surpresos eu e a Ana, parece que o Tomás está conosco, não tenho certeza. Entretanto, parece que sabíamos desde o início que nossa tarefa era ir ali buscar o que encontramos. Vejo que há outro cômodo com uma banheira cheia de erva. Um senhorzinho ensaca tudo e conversa conosco. O clima é estranho, mas não sinto exatamente medo. Depois não sei como termina, se terminar for o caso em sonho.



15-16/04


Difícil reproduzir as sequências. Sei de três ambientes das ações. O primeiro é um apartamento, três cômodos, portas de correr. A situação é de filme policial, eu me escondo de alguém. Depois, eu escondo alguém de uma pessoa que, percebo no final da sequência, é o Bolsonaro. Há um documento que adulterei para proteger alguém e que ele não pode ver. Deixo escondido no parapeito. Aviso outro alguém, cúmplice, para que distraia o Bolsonaro de modo a esconder o documento dele. Depois estou conversando com o Bolsonaro: ele está sentado no corredor, travando a passagem, bastante agoniado. Fala sobre a Amazônia. Eu digo que em qualquer governo a Amazônia seria tomada, que não é algo que diga respeito apenas ao modo dele governar. Ele não acha o tal documento. Em compensação, eu abro uma gaveta e vejo que está cheia de cheques polpudos assinados por meu pai. É um capital de que disponho. O segundo ambiente é um gramado cheio de barracas. É uma feira de atrações e alimentos. Crianças correm livremente, brincam de pega-pega, fazem algazarra. Não retive mais nada, parece uma cena de transição. Depois é um trailer. Estou conversando com o Marllon, meu cunhado que votou no Bolsonaro. Fui conversar com ele, no trailer de comida dele. Eu também quero abrir um negócio daqueles, comprar um trailer. Fui me consultar com ele. Ele fala de outras coisas. Curiosamente, fala numa linguagem super empolada, com vocabulário arcaico, não alcanço algumas palavras. Uma hora, pergunto o que significa tal palavra, digo que vou até anotar. Ele não está falando de negócio de comida, mas da relação entre homens e mulheres. A conversa é pacífica, sou paciente, ele está calmo na sua situação de poder, de eu ter ido a ele para uma consulta sobre food truck. Depois ele fala de política internacional, sobre a China. Eu discordo calmamente, como na conversa com o Bolsonaro. Depois estou entregando lanches guardados num isopor, por uma janelinha mínima. Não sei quê mais.



18-19/04


Alguma nitidez, ao menos, nas imagens de hoje. Mas precisei anotar assim que acordei, no frio que faz. Meu pai faz um teste seletivo, procura um zelador e contrata meu irmão. Creio ter concorrido também ao cargo. Depois estou sendo vestido por minha companheira. Vamos ao portão da casa, alguns jovens bateram palma. Ela fica conversando com eles, parece ter se engraçado. Eu termino de me vestir. A peça mais curiosa é a calça, separada em duas pernas, como duas longas botas, e fechada com zíper atrás. Estou pronto, aquela calça, um paletó longo de linho num rosa ao creme, e um chapéu também bastante distinto, claríssimo. Entro na faculdade, todos me olham no corredor lotado. Parece ser o início das aulas e a cantina tem uma fila imensa. Topo com um fulano, conhecido de bem antes, nos abraçamos, não nos víamos há anos. Pergunto o porquê da fila. Ele diz que estava tendo uma polêmica, que o Mano Brown tinha virado vegano e causado revolta numa parte dos estudantes. A conversa está boa, chega o PQ da Unicamp. Preciso ir ao banheiro, entro no shopping ao lado. É um grande galpão. É ali que meu irmão agora trabalha. Não o encontro, vou atravessando corredores e blocos de lojas. São lojas de frutas, verduras, nada de shopping a rigor. Um mercadão. Não acho o banheiro e pergunto a uma moça que conferia algumas caixas. É uma pequena loira e me leva por corredores vazios. Vamos conversando. Na porta do banheiro, roubo-lhe um beijo, como num western. Como num western, ela se debate, se afasta, mas depois volta e me dá um beijo caloroso. Sinto sua língua me buscando.



20-21/04


Só retive uma cena: estou na cama, mas não doente, e sou visitado por 4 médicos. Batem no portão, os cachorros latem como se para as testemunhas de Jeová. Estão todos sem uniforme e sem máscara, o que me horroriza.



22-23/04


Curioso exercício, memória do que se imaginou viver, mas não vivido. Tanto se perde, fica algum esqueleto, talvez rastos. A presença do meu pai tem sido constante nos últimos sonhos. Outra constante é a de haver muitos aclives e declives, como se o mundo não tivesse mais o plano. De início, o pai conversa com alguém importante, um empresário provavelmente. Entro no debate, na sala que vem do corredor em queda, e discutimos sobre o Bolsonaro. É um colóquio altamente sofisticado, envolve o preço do aço no Brasil, a lógica cultural do confinamento e mesmo o desenho facial do presidente. Sabemos que haverá um evento num bar e decidimos ir pra lá. Anoitece. As pessoas estão na rua, acumulam-se na entrada. Muitos jovens com chope na mão. Cabelos afro. O bar é uma plenária à maneira de um teatro. Sentamo-nos lá no alto, nas últimas filas. Ali também se debate sobre Bolsonaro. Estou empolgado, tenho muito a dizer, peço a palavra.



24-25/04


Marlene, antiga faxineira da minha mãe, trouxe minha roupa passada, enrolada num lençol. Achou que eu não estivesse e pediu que seu filho pulasse a grade com a trouxa. Ele caiu ao pular e teve sua cabeça mordida por um cachorro preto, talvez a Polly. De algum modo eu assistia à cena sem estar presente. Pergunto se ele ficou muito machucado e parece que estava bem, apesar de ter um pedaço do rosto arrancado. Então estou numa sacada, vendo um ônibus cheio de militares. É início da noite, a cidade acende os postes amarelos e o asfalto brilha depois da chuva da tarde. O ônibus faz frisos no que restou de água no asfalto. Os militares, todos jovens, me vaiam do ônibus. Eu estou na sacada, descansado, sem roupa e tomando uma cerveja pela garrafa. Eu estou folgado e eles vão apertados no ônibus aceso. Depois estou na avenida, penso estar num patinete, rompendo filetes de água do chão. Faço o caminho oposto ao do ônibus dos cadetes, vou em direção à periferia. Pareço descer a Marechal Floriano, ainda mais por não haver curvas exceto as reboladas que dou no patinete bastante veloz, a caminho do Boqueirão. Segue chovendo quando entro numa escola pública. É noite, tudo silencioso. Também há um quê de abandono de filme de terror. Passo por corredores e chego numa sala iluminada porcamente. Estão ali alguns discos. Como em outros sonhos, penso em roubar alguns exemplares. Ponho um Novos Baianos para tocar e chegam alguns professores. Conversam comigo sobre música. Pergunto se é fácil arrumar emprego ali, se precisaria ter licenciatura. Não respondem. Fico insistindo com uma professora linda e misteriosa sentada ao meu lado. Ela só responde por indiretas, metáforas. Algo me seduz e eu continuo perguntando.



28-29/04


Não tenho certeza, mas acho que estou com a Ana e o Tomás. Vamos pegar um voo. Uma longa fila de passageiros se forma no alto de uma colina gramada. Peregrinamos até o avião. Ao longe vemos a aeronave passar na pista, um avião gigantesco. Abrem-se acidentalmente os compartimentos de bagagem e dezenas de malas rolam violentamente pela colina. Assustados, conversamos entre nós: será uma longa espera até um novo embarque. Somos encaminhados a uma espécie de shopping, passo por corredores anônimos de portas de vidro fechadas. Dou em um amplo ambiente onde já se formava nova fila. Entro numa sala com divisórias, sou atendido num balcão por um sujeito com jaleco, cabelo impecavelmente úmido de gel. Ele diz que precisará de um exame de sangue meu, mas me recuso e exijo que adiante as novas passagens, pois tenho os comprovantes anteriores. Fico pensando que havia uma estratégia biopolítica malandra naquela recolha de sangue, uma vez que não houve a obrigatoriedade e consegui os bilhetes sem fazer a coleta. Lembro de ver ampolas cheias de sangue no balcão, ao lado de documentos comuns como cópias de RG. Vou para outra fila, ainda dentro do tal shopping, onde estão meus acompanhantes e todos os outros passageiros.



29-30/04


A tarefa consiste em voltar a lecionar. Pego três matérias, a protagonista do sonho é a Química (minha pior matéria no colégio, diga-se). Estou numa privada lendo um caderno anotado a lápis, fórmulas, definições. Penso em usar o exemplo da hidroxicloroquina. O medo entra no sonho por eu saber que precisaria decorar a aula e que sobre a hidroxicloroquina eu não saber nada. Tudo é também bastante reflexivo, pensei demais. Então estou decorando a aula na privada, mas não dá tempo, pois minha mãe insiste em entrar no banheiro. Eu saio, ainda tento ler o caderno numa sala de escritório, mas vejo o relógio na parede: não dá mais tempo. Guardo o caderno, saio e atravesso um caminho lateral, grama comida rente à grade, circundando o percurso até a Faculdade. Junta-se a mim uma aluna, terminamos o trajeto juntos. Logo no início do caminho, topo com um ponto de ônibus à minha esquerda. O caminho que era para pedestres é agora uma via lateral para automóveis. No ponto de ônibus está um senhor todo maltrapilho, morador de rua dormindo de pescoço levemente deitado, gorducho e de chapéu, a face queimada de frio e álcool. Usa um terno todo esfarrapado, um marrom prateado, e traz no colo o chow-chow marrom terra do nosso vizinho latoeiro (um cachorro de três casas abaixo da nossa). O cachorro sorri, língua cinza azulada. Depois começo a pensar que minha aula será um fracasso, que não decorei nada. Surgem estratégias, como gastar quase metade da aula me apresentando aos alunos (era uma aula inicial). Penso no meu currículo, articulo algumas coisas engraçadas a serem ditas. Lembro que não pediria que se apresentassem, já tinham feito a semana toda nas outras aulas, já se conheciam. Resta um desespero, porém, de como compor a outra metade da aula. Chego na cantina, estamos todos sem máscara, penso. Não importa, peço um café, talvez uma coxinha, não estou certo. Passo para outra sala levando a xícara, encontro o professor Rodrigo Fávaro deitado numa rede. Ele mostra onde posso deixar os livros, uma estantezinha na parede.



02-03/05


Um policial vem fazer busca na minha casa. Eu estava com o traficante, que rapidamente se esconde no forro, por uma passagem no teto. O policial a paisana encontra maconha numa gaveta. Me mostra e explica, apontando, “esta aqui é Sativa e essa aqui (não fica claro se diz Ativa ou Nativa)”. Eu até me surpreendo, pois não saberia distingui-las. Depois ele procura o traficante, cutucando o teto com um porrete. A cena é idêntica à que vi num western, de madrugada. Como no filme, o policial também não encontra o fugitivo. Depois me oferece para pegar um pouco da droga antes da apreensão. Eu, que já tinha guardado marotamente um pouco nos bolsos do casaco, pego mais uns pedaços.



 

Foto: rede social do autor.



Ricardo Pedrosa Alves (1970) lançou os livros de poesia Desencantos mínimos (Iluminuras, 1996), Barato (Medusa, 2011), Poemas baseados (2018) e Algo chega tarde demais (Medusa, 2020). Também publicou o romance Teratoma (Medusa, 2022). É professor universitário e pesquisador das literaturas africanas. Mantém, com Ana Beatriz Braun, o canal de conversas literárias Outro Livro, no Youtube.

46 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page