6 poemas de Nilton Cerqueira




Posta à Beira da Lagoa:


posta

à beira

da lagoa

a rã não

suspeita

do arremesso

de si

***

nem da escrita

que dele escoa

nem que

este gesto

haveria de saltar

sem cessar

séculos e páginas

***

a rã sabe bem

e nada

já Bashô

basta-se em saber

do outro

o que dele

escapa




INSABIDO

o segredo

secreta

a espera

do mesmo

***

o enigma

ignora

a própria

cifra

***

o mistério

desfaz

a paz

do etéreo




A UM PÉ DO PENHASCO

A pedra amparava o pé ante o pulo

rio inquieto corria rio abaixo

impulsionado por um zunido escuro

tudo conduzia o corpo ao salto

todavia naquele imenso vão

havia lugar para o inusitado:

a humana fenda da hesitação!

No medo súbito da desmedida altura

a sola do pé sentiu a pedra dura

aquela sólida impressão

pregou o homem ao chão




RAVEN, EVEN MORE

jamais

o plano de pouso

do corvo na folha

abolirá o torto

acaso da escolha:

por mais fingida a dor infinda

deveras se demora

mais, ainda




DANTE ENTRE ESTRELAS

Vai Dante, leva ao espaço distante

Na via láctea, os versos teus!

A bordo da nave, o registro da tua obra

Cumprirá uma sina sutil:

Ser um bordado entre estrelas

No ar rarefeito

Fio feito de artifício raro

Este que tu, Dante (e antes de ti Arnault), teceste!

Tomando à mão precisa

Essa esquiva língua mãe

Vai Dante, e diz à amada donna

Que agora pairas

Transmutado em liga de ouro e titânio

Há anos luz de tudo que viveste

Tu, tão versado que eras nas sete artes liberais

Jamais imaginara tais confins

Lá, no constelar caminho sem meio

Num vácuo de selva escura

Será legado além um outro Alighieri!

A divina comédia passeando nos astros…

O rastro vivo de Beatriz

Tal qual um quasar, quase não brilha

A donna encarnada em matéria ínfima

Sem círculos ou inferno, ou seu inverso

Vai Dante, e em viagem forjas

A causa de um desejo siderado

A mulher enfim despida em seus infinitos




SOBRE O ZEN

O sabre nada sabe de seu corte

A sobra nada sabe da sua sorte

A sombra sabe do nada quando é informe




Nilton Cerqueira vive em Salvador, é médico, psicanalista e poeta.

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