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5 poemas de Ricardo Silvestrin




CASA


Uma casa de infinitos pisos,

escada que sobe até as nuvens,

que desce até o magma,

se levaria quantas vidas para entender?


E toda casa é assim, tanto que

chega uma hora em que todos desistem,

preferem vender, fazer a partilha

e nunca mais falar do assunto.


Mas o sonho não foi avisado

e volta a filmar na casa antiga

como se nada tivesse mudado,

como se a alma de lá não tivesse partido.


 

CLAQUE


A perfeição já é um defeito,

e olhando de frente

o perfeito é uma imposição,

um discurso a ser engolido

três vezes ao dia, com q-suco,

enquanto ninguém contesta.


Palmas para o perfeito

diz o encarregado

de erguer a placa

para a claque.


Prêmios para o perfeito

diz o júri do concurso,

como o corpo de jurados

do programa de auditório.


Cada um vai ser julgado

pelo critério do esquecimento.


 

CÂNTICO


Que não seja o raiar do dia a única alegria.

O ocaso pode ser a hora mais bonita.

A noite não apague o brilho das pequenas estrelas

e, mesmo que não venha o amanhã,

o hoje nos seja um bom alimento.


Não descrer na maldade,

não baixar a guarda,

mas não se deixar levar pelo ralo da amargura.


As pessoas são como são,

o mundo é como é,

e, de repente,

nada mais é como era.


Recebemos um punhado de dias,

uma cota de chuvas,

de nuvens e de sóis

até o retorno das estações bater a nossa porta

e não estarmos mais.


Que se lembrem de nós aos risos.


 

GUIA


Pela lei do cachorro,

deste poste até a terceira árvore,

a cidade é sua.

É o seu trecho, de direito,

auto-nomeado proprietário

e guarda, autorizado a aplicar

sanções a quem adentrar

sem prévio consentimento.

No entanto, o mesmo espaço

é ocupado por um túnel

em formato de labirinto,

alguns metros abaixo

da calçada, reino

comandado pela formiga rainha,

primeira e única.

Já a alguns centímetros acima,

por uma tubulação de ferro

envolta em concreto,

transitam atarefados ratos

que alardeiam aos quatro ventos

serem os donos do pedaço.

Enquanto isso, o prefeito

emite guias de IPTU.


 

FUGA


Poucas vezes dizemos: mudei.

Vez em quando, alguém comenta:

fulano está muito mudado.

Mais raro é ouvir: não-sei-quem

está irreconhecível.

Todos concordam, quase sempre,

que a essência não muda.

Tolera-se ser o mesmo

por décadas e décadas.

Mas tem um limite

quando então alguém exclama:

é preciso fugir da mesmice!

Não se pede derrotar,

aniquilar, ou outro verbo

mais ativo.

Usa-se fugir, como se da mesmice,

esse monstro invencível,

só se pudesse fugir.



 

Ricardo Silvestrin é autor dos livros de poesia Carta aberta ao Demônio, Sobre o que, Typographo, Metal, O menos vendido, Palavra mágica, entre outros. Na prosa, lançou Play, contos, e O videogame do rei, romance, ambos pela editora Record. Recebeu por cinco vezes o prêmio Açorianos de Literatura. É também compositor e vocalista e lançou o álbum SILVESTREAM. Mestre em Literatura pela UFRGS com a dissertação Manuel Bandeira, um poeta na fenda.

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