3 poemas de Venus Brasileira Couy



BUQUÊ

Da bolsa

sai um buquê de versos,

a voz do ambulante e

a dos pescadores,

o cheiro do mar,

a areia espessa da Urca

e a noite escura.




SÓ SABIA QUE NÃO PODIA CAIR

Na Praia do Norte,

os animais cnidários e os oceanos,

a anêmona do mar,

os recifes em franja,

os atóis.


Dos versos,

a derradeira

inscrição:

“Quando eu morrer voltarei para buscar

os instantes que não vivi junto ao mar”.

Na superfície do oceano,

a vida principia.


O coral raso

e o mar azul

pertencem à Maya?


O poema em alto mar

afaga o

recorde inédito,

o irresoluto verso,

a precisa

onda

por onde passam

pernas

brancas,

pretas,

pardas,

de todos as nacionalidades

e continentes.


Destemor e sobressalto,

mar e chuva,

pétala e espuma,

a Onda Gigante de Nazaré,

que não se contabiliza apenas em

metros e palavras,

exibe o poema-surfe

de Maya Gabeira:

73,5 pés,

imperioso,

aguardado,

grandiloquente como os ventos da Costa Oeste.




FIM DO JEJUM

O mar que desconheço,

tão perto,

as palavras certas,

tão longe

mergulhadas nas ondas

de Melville,

desdita pelos baleeiros,

épico ofício

em meio à dor,

ao balançar dos botes,

à lança em punho,

à solidão da noite

e aos naufrágios,

sempre os naufrágios.

Após longo jejum,

o lápis com a

ponta

por fazer

pressiona o papel.

Vejo o poema,

que me fita incrédulo

— tão jovem —

e em letra irregular

reverbera antigo

e já não é mais sombra.




Venus Brasileira Couy é poeta e ensaísta. Doutora em Teoria da Literatura pela UFRJ, publicou, entre outros livros, Quase poema (7Letras, 2020), Mural dos nomes impróprios (7Letras, 2005) e Inverno de baunilha (7Letras, 2004).

126 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo