3 poemas de Guilherme Delgado

Atualizado: 28 de dez. de 2021


Guilherme Delgado



ENCONTRO


Como uma febre frequentando um corpo

à revelia, o ser amado encontra,

em cada parte do seu próprio corpo,

a outra parte refletida; encontra

o seu suor encarnado num corpo


a corpo que, a cada fôlego, adentra

e ilumina o outro como só um corpo

celeste o faria, e eis que, ventre contra

ventre, o mundo se refaz nesses corpos,

tamanha a força que ali se concentra.




RESIGNAÇÃO DIANTE DO IRREPARÁVEL (ISMAEL NERY)


Três nuvens negras prestes a encobrir

uma réstia de sol.

Equilibrando-se sobre uma perna,

sem braços, mutilado,


sem dúvida parece deprimido,

mas seu rosto sem rosto

não o diz – e que falta faz um rosto

que se derrame em lágrimas!


O chão da arena indica que houve luta:

ameaçando lançar-se

no azul de um oceano melancólico,

sua sombra medita.




NEARER, MY GOD, TO THEE


Não digo que seja

uma lição fácil.

Reger o silêncio

como quem consente

o seu próprio de


-saparecimento.

Como fez Villon

ao deixar Paris.

Como fez Rimbaud

indo para a África.


Como Raduan.

Como Belchior.

Como quem confessa,

já ao fim da linha,

não haver remédio


que adie essa hora.

Momento em que alguma

lucidez acaba

por nos convencer

de que tudo não


foi tão mau assim,

e admitimos, ora,

ter chegado a vez

de encarnar a banda

do próprio naufrágio.




Guilherme Delgado é poeta e tradutor. Bacharel em Tradução e mestre em Letras pela Universidade Federal da Paraíba, é doutorando em Letras pela Universidade Federal do Paraná. Participou das plaquetes Tanto mar sem céu (Lumme Editor, 2017), A noite dentro da ostra (Lumme Editor, 2019), além da antologia 80 balas, 80 poemas (Zunái, 2020), organizadas por Claudio Daniel. Coeditou a revista literária Malembe e traduziu poemas do jovem Ezra Pound. É autor de : (Patuá, 2017).

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