10 poemas de Liana Timm



VAGAREZA


fácil de ferir

o corpo perece a cada dia

em vagareza e curvatura


habitado e sem rumo

atravessa

desfigurando a pele aos gritos


lembra de tudo esquecendo

escorregando na frente de um espelho raso


saturado de misérias

busca um trem atrasado

que passa e nem para

pois tudo sobra

e nada se adivinha

numa atitude falsa de mudança




BECOS


enquanto tudo ao redor venta

me encontro vidro fácil

sulco frágil

em pedra esfarelada

pela própria vida


não sei como faço!

quero conspirar

no secreto fosso de um veneno

ingerindo a conta-gotas

o que entendo e revoa


sem rota

embaraço os fios de uma teia

nas mortas horas do dia


assombrada espero

o tempo soterrado nas dobras da pele

nos ecos abafados

em becos sem saída


lá onde os trovões se multiplicam

raios abatidos

ainda relampejam




O QUE FICA


mergulho nessa sombra

de indiferenças

e nada


fracasso sempre


não sou de aço

repasso para toda cor

a ferrugem da memória


um tédio se acumula

na agitação dos dias

num sangue escorrendo

por degraus e chaves


lá onde bate o vento

lembro a melhor canção

e viro contra as paredes

os porta-retratos


o tempo sempre faz o resto




CISMA


há uma ilha dentro de mim

uma ilha distante do continente

de praias sem fim

com serpentes e gengivas

diabos e santidades


dentro de mim

uma ilha de eclipses inominados

e fraturas expostas


ecos e reverberações

exprimem a ventania

com flor e agonia


na incerteza do entendimento

a perfeição do ovo bate nos corais

como um peso de papel


as palavras vão aos cardumes

buscar na solitária escolha

a compulsiva imaginação




LÁ FORA


me inventar?

isso aprendi desde pequena

uma voz surda ensinou

misturar o incompatível


até hoje permaneço

na inconstância do tempo

à beira de um lago

à margem sempre esquerda de um rio


permaneço assim

lavando as mãos nas ultrapassagens

desejando a revolução do interno

querendo um apetite variável

de afetos


no melhor e no pior do corpo

mergulho em intensidade

prazer excessivo que transborda

se rearranja

se empurra pelo dentro

a conduzir o que prescinde de um outro


– isso aprendi agora


como um azar




TUDO E NADA


escrevo imperfeita

em contínua vasculha


meus olhos se intrigam

com qualquer sugestão


descubro no verso

fomes ambições verdades

tudo sem explicação


divido mal destruo somo

fabrico o alimento da dúvida

no escuro de um nada

transformando em poema


tudo




ETERNOS ENTORNOS


com o canto do olho

um barulho me invade


conto até dez


o imprevisto

é a própria vida


a ventania desse teu amor

também


um quarto de lua aparece

– é o fim do tempo


nem a morte estanca o dissoluto

tudo nada no inesperado


o amor me morde a pele

intrusivo


estou seca

atrapalhada e sem pressa




CREMOSO


desejo no escuro

numa sede madura

sem jogos nem enredo


e sério!


se pulsa e retumba

alaga e dilata

derrete bem no fundo doce

doce doce doce


como chocolate




PATAMAR


em gosto e gozo um texto

vago devaneio


na conveniência da escolha

o que dispersa em certa calma


sentidos desaparecem

afetos chegam


além de agulhas escudos

na máscara cotidiana


dentro

qualquer inverno é primavera

escondido em fundos falsos




CONTO?


não conto porque não quero contar

porque quando conto

faço um conto destrambelhado

que não vale a pena ser contado


até gosto de contar

mas não conto pra qualquer um

pra quem gosta de detalhes conto mais

então conto mesmo quase tudo


contar tudo desfaz o que conto

aí economizo o que desfaz do conto

seu mistério


mas explico tanto quanto posso

o que conto

que da veracidade duvido

quando conto

e repito em vários tons o que conto

que faço de um conto m i l


e eu só conto isso pra vocês

porque tem gente que insiste

quer que eu conte e conte e reconte

aquilo que eu d e f i n i t i v a m e n t e

não conto




LIANA TIMM | Artista multimídia, arquiteta, poeta e designer. Vive em Porto Alegre com atelier em permanente ebulição. Sua produção mescla manualidade e tecnologia, conceito e materialidade, história e contemporaneidade. Transita pelas artes visuais, pela literatura, pelas artes cênicas e pela música. Professora da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da universidade federal do rio grande do Sul (1976/96). Especialista em Arquitetura habitacional e Mestre em Educação pela UFRGS. Realizou 74 exposições individuais, sendo as mais importantes: Pinacoteca do Estado de São Paulo/SP/Brasil, Memorial da América Latina /SP/SP/Brasil, Centro Cultural Correios e Telégrafos/Rio de Janeiro/RJ/ Brasil, Museu Brasileiro da Escultura/São Paulo/SP/Brasil, Fundação Cultural do Distrito Federal/Brasília/DF, Museu da Gravura cidade de Curitiba/PR/Brasil, Museu de Arte do Rio Grande do Sul/Porto Alegre/RS/Brasil. 35 shows musicais na cidade de Porto Alegre e interior do Rio Grande do Sul/Brasil, em Montevideo/Uruguai, em Miami/EUA e em Toulx Sainte Croix/França. Publicou 64 livros, destes 18 são individuais de poesia sendo que o último reúne sua produção poética de 35 anos. Recebeu 17 prêmios nas diversas áreas de atuação. Desenvolve suas produções culturais e projetos editorias através da TERRITÓRIO DAS ARTES.

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