Zingonia Zingone por Claudio Daniel e Scheila Sodré

TRADUÇÃO VOLUME 5 NÚMERO 2



LAS CAMPANAS DE LA MEMORIA


I


En una esquina de la noche

una niña abraza sus piernas,

se balancea en trance y llora.

Las lágrimas bajan

por los costados del cuerpo,

caen sobre la calle empolvada

de un invierno sin lluvia.

Monstruos afloran

con rostro de hombre,

roban el grito de un horror,

tapan su boquita

de clavel prendido y gozan

del mismo gozo maldito

que ilumina el rostro de Shaytan.

Cierra los ojos, se ampara

en la oscuridad del dolor,

rasguña sus muslos como gato engañado,

hunde su rostro en los abismos.


II


Soraya tiene ojos de carbón.

Su cuerpo fino lleva el peso

de una infancia

manoseada por el destino.

La casa es su tumba;

el murmullo de la gente, su muerte.

Se mira al espejo y oscila el vientre;

ensaya la danza de la diosa madre.

Las campanillas sonoras

rodean su estrecho vientre

como el abrazo del amado.

Correa que ciñe el cuello del perro

hasta dejarlo sin aliento;

vientre agotado, surco de calambres,

tatuaje de una rabia implacable.

Soraya danza en la tarima

para fugarse de sí

y arrancar los clavos empotrados

en la carne de su memoria.


III


La memoria enjaula el tiempo.


IV


«¿Cuentos quieres, niña bella?

Tengo muchos que contar…»

La voz del padre se avecina

en el crepúsculo vespertino;

el catre temblante,

el aire impregnado de humo

de un cordero ardido

en el fogón de la cocina,

el aterrador silencio

de la complicidad

y Soraya detenida en un respiro.

«Dime tú: ¿de cuáles quieres?».

La risa entre los dientes, los dientes

entre los muslos; la punzada del asco

en la grieta que conduce al alma.

El salvaje clava su lengua de espuma

y tabaco en la garganta del ángel,

impide su llanto el aullido

del terror. Un brusco salto,

un tétrico gruñido:

costra que tapa muerte en vida,

llaga sangrante.

«Así fue. La joven bella

de tez blanca y negros ojos,

colmó los reales antojos…».

Cerca se escucha

el aterrador silencio de la complicidad.


V


Soraya vende su cuerpo, compra

alegría. Vende alegría, compra

olvido. Exorciza el presente

clavándose a la cruz de la lascivia,

mártir del placer y del vahído.

Erotismo fantasma la habita

y la ahuyenta, semilla catapulta

que la trajo a este mundo.



OS SINOS DA MEMÓRIA


I


Em um canto da noite

uma garota abraça as pernas,

balança em transe e chora.

Lágrimas descem

pelos lados do corpo,

caem na rua empoeirada

de um inverno sem chuva.

Monstros emergem

com rosto de homem,

roubam o grito de horror,

tapam sua boca

do cravo preso e gozam

do mesmo gozo maldito

que ilumina o rosto de Shaytan.

Fecha seus olhos, se ampara

na escuridão da dor,

arranha suas coxas como se fosse

um gato enganado,

afunda seu rosto nos abismos.


II


Soraya tem olhos de carvão.

Seu belo corpo carrega o peso

de uma infância

tateada pelo destino.

A casa é seu túmulo;

o murmúrio do povo, sua morte.

Ele se olha no espelho e balança o ventre;

ensaia a dança da deusa-mãe.

Os sonoros sinos

rodeiam seu ventre estreito

como o abraço do amado.

Coleira que envolve o pescoço do cachorro

até deixá-lo sem fôlego;

ventre exausto, sulcos de cãibras,

tatuagem de uma raiva implacável.

Soraya dança no palco

para fugir de si mesma

e arrancar os pregos incrustrados

na carne de sua memória.


III


A memória enjaula o tempo.


IV


«Você quer histórias, moça bonita?

Tenho muitas para contar ... »

A voz do pai se avizinha

no crepúsculo vespertino;

o berço trêmulo,

o ar impregnado de fumaça

de um cordeiro assando

no fogão da cozinha,

o silêncio aterrorizante

da cumplicidade

e Soraya deteve-se em um respiro.

"Diga-me: quais você quer?"

O riso entre os dentes, os dentes

entre as coxas; a pontada de nojo.

Na fenda que leva à alma

o selvagem crava sua língua de fumo

e espuma na garganta do anjo,

impede seu pranto e uivo

de terror. Um salto brusco

um tétrico grunhido:

crosta que cobre a morte em vida,

ferida sangrando

"Assim foi. A bela jovem

de pele branca e olhos negros,

preencheu os desejos reais… ».

Você escuta, próximo,

o aterrador silêncio da cumplicidade.


V


Soraya vende seu corpo, compra

alegria. Venda alegria, compra.

Eu esqueço. Exorcizar o presente

cravando-se na cruz da luxúria,

mártir do prazer e da tontura.

Erotismo fantasma a habita

e a afasta, semente catapulta

que a trouxe a este mundo.


Tradução: Claudio Daniel


(da Viaggio del sangue, CAPIRE Edizioni, 2020)




LE COLTIVAZIONI

(frammenti)


I tuoi riccioli dorati

sembrano spighe di riso

in un vortice di vento


così soffia lo spirito

inavvertito rimescola

le mie certezze.


Dicono che l’anima si trovi

in un punto della mente.

Chissà dov’è quel terzo divino

che fende la scorza indurita.

La mietitrice avanza in linea retta

aprendo solchi nei campi di Las Mojarras

sollevando le teste calate delle spighe.



OS CULTIVOS

(fragmentos)


Seus cachos dourados

são como espigas de arroz

em um redemoinho


onde o espírito sopra

distraído

mesclando minhas certezas


Dizem que a alma está

em um ponto da mente.

Onde está o terço divino

que corta a crosta endurecida?


a ceifeira avança em linha reta

fazendo sulcos nos campos de Las Mojarras

erguendo todas as espigas


*




L’evoluzione di ogni uomo

come quella dell’universo

è un’espansione. Da un punto

a spire sale o scende

rivoluzione dopo rivoluzione.


Lui afferma che in seguito

c’è il buco nero

il vuoto

il buio eterno.

Lo dimostra la scienza

è il ciclo naturale della vita

nascere crescere morire.

Dice che la speranza è hic et nunc

non esiste la buona novella

carpe diem.


La mietitrice continua a decapitare

i campi in linea retta.



A evolução de cada homem

como a do universo

é uma expansão. De um ponto

a espiral sobe ou desce

revolução após revolução.



Ele afirma que mais tarde

lá está o buraco negro

o vazio

a escuridão eterna.

A ciência prova isso

é o ciclo natural da vida

nascer crescer morrer.

Ele diz que a esperança é hic et nunc

sem boas novas

carpe diem



A ceifeira continua a decapitar

os campos em linha reta.




IL GRANO

(frammento)


Aspetto la festa

della Santissima Trinità

nella distesa arata

seduta su un cuscino di rugiada

i tordi cantano le lodi

sui Tamarindi che costeggiano il campo

vicino al fiume

si alzano voci roche

ibis

anatre

tuo padre che spiega la riproduzione sessuata delle piante

la fusione

di due gameti in uno zigote.

Un impenetrabile mistero d’amore.

Spunta il sole

e in un attimo è luce piena:

l’uno si fece due

una dualità feconda

la procreazione svela

la smania di tornare a essere uno.



O TRIGO

(fragmento)


Espero a festa

da Santíssima Trindade

no campo arado

sentado em uma almofada de orvalho

os tordos cantam louvores

nos tamarindos que alinham o campo

perto do rio

vozes roucas sobem

íbis

patos

seu pai explicando a reprodução sexual de plantas

a fusão

de dois gametas em um zigoto.

Um mistério impenetrável de amor.

O sol nasce

e em um instante é luz total:

um se tornou dois

uma dualidade fecunda

procriação revela

o desejo de ser um novamente.



Traduções: Claudio Daniel e Scheila Sodré




Zingonia Zingone (1971) é poeta, contadora de histórias e tradutora italiana. Formada em Economia, escreve em espanhol, italiano, francês e inglês. A autora mora entre a Itália e a Costa Rica. Possui coletâneas de poemas publicados na Espanha, México, Costa Rica, Itália, Índia, França, Nicarágua e Colômbia. Seus títulos mais recentes são Los naufragios del desierto (Vaso Roto, 2013), Petit Cahier du Grand Mirage (Éditions de la Margeride, 2016), Las tentaciones de la Luz (Anamá Ediciones, 2018) e El canto de la Sulamita – Poesía Reunida, (Uniediciones, 2019). Entre suas obras de tradução, destacam-se as mais recentes coleções de poesia do nicaraguense Claribel Alegría: Voci (Samuele Editore, 2015), premiado internacionalmente com o prêmio Camaiore 2016, e Amore senza fine (Edizioni Fili d’Aquilone, 2018) Ela é consultora editorial da revista literária mexicana El golem (www.revistaelgolem.com).

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