Venus Brasileira Couy

Atualizado: Jan 23

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 2



LIÇÃO DAS COISAS


As horas se desprendem dos ponteiros dos relógios

como nos livros de Bruno Schulz,

ou nos quadros de Dali,

cujos relógios rasuram a paisagem

e se dependuram em galhos secos.


Do avesso,

o relógio está repleto de formigas,

putrefato,

como os cadáveres fechados em

ambulâncias,

containers,

que dizem adeus às ruas,

às cidades,

às casas,

aos rostos desconhecidos.


O tempo está suspenso,

os dias são longas noites,

as noites são dias de espera

e solidão

A janela olha o dentro e

o fora

a borda está alhures,

onde?


Ouço o cão que late lá fora

a flor do manjericão atrai os insetos na cozinha,

o antúrio, outros tantos.

O céu nunca esteve tão azul,

o ar enche os pulmões

e os versos que

em tempos de peste

teimam em se escrever

em meio às miudezas do cotidiano,

às covas rasas,

aos corpos superpostos,

à terra vermelha que não tem fim.


Em tempo de horror e

desespero

o vírus parece não escolher a quem

e é longo o percurso até o começo.




A ARTE DE PERDER



Agnès Varda documentou as viúvas do bairro que perderam seus maridos,

eram muitas,

hoje não pode mais fazer filmes,

foi-se no ano passado aos noventa anos,

“o acaso é meu melhor roteirista”, costumava dizer.

Acidental, a construção de um filme?

Incerta parece ser também a vida.


Definitivo é o poema,

que não se deixa abater e se firma na página:

pleno,

peremptório,

severo como as circunstâncias

e os fatos

exigem.




O QUE É QUE SE PERDE MESMO QUANDO SE PERDE ALGUÉM?



Lota também perdeu,

um amor de quase duas décadas

e de muitos poemas.

A casa na mata de uma escarpa do sítio em Samambaia,

o pente de prata perfeito para os longos fios,

os postes de luz que alcançam o céu no parque do aterro do Flamengo

também se perderam

no tempo

e na memória.


As definições se desprendem do verbete

e vocalizam as vogais do verbo vário,

perder: “deixar, largar, esquecer, falhar, malograr, privar-se, desaprender,

deslembrar, esquecer, olvidar, obliterar, abandonar, desfazer-se, livrar-se”.

O conceito preciso e

a certeira expressão

que o poema consentiu

não saberemos.

“Sou uma viúva triste”

de olhos escuros

que alimenta os pássaros e os pombos no terraço.




2020



O contágio do vírus,

o contágio da palavra,

Susan Sontag parecia antever

“a doença como metáfora”,

aquela que durante muito tempo

não podíamos pronunciar o nome.

Como não nos lembrarmos do poeta Augusto dos Anjos que

por meio do carbono,

do amoníaco,

do verme,

dos aromas da decomposição,

nos apresenta a “frialdade inorgânica da terra”?


No ano que traz a escrita de

um número duplicado,

algarismos que se fazem traço,

outra doença se espraia

algoritmamente

e se mostra

nas telas,

TVS,

macas,

corredores de hospitais,

UTIS,

calçadas.




INVISÍVEL, O VÍRUS?



Como ficarão

as escaras,

os membros túrgidos,

as hemorragias,

as ínguas,

as sequelas,

o andar,

a voz,

as palavras não ditas?


A tuberculose, a gripe espanhola, a varíola, a aids, o ebola,

a febre aftosa,

a pele das palavras viraliza.

A lâmpada do poste está quebrada,

quem passou?

____________________________

Leio no jornal:

“Abandono de animais se multiplica na pandemia e atinge cavalos e coelhos”,

As ruas choram o aumento dos cães.

Alguém disse que “os animais são ardilosos”,

será mesmo?


A boca do cão tem fome,

a do homem

está coberta por um pedaço de pano e

não se furta à dor

e à desolação dos tempos.

“Todos os dias agora são finais de semana”,

ouço de um morador que habita a rua.

A marquise não acalenta a fome

tampouco a solidão

Quid in limine scriptum est?

O que está escrito na soleira da porta?

“A boca também é um tipo de cova”,

alguém escreveu,

alguém.




Venus Brasileira Couy é poeta e ensaísta. Doutora em Teoria da Literatura pela UFRJ, publicou, entre outros livros, Mural dos nomes impróprios (Rio de Janeiro: 7Letras, 2005) e Inverno de baunilha: (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004).

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