O BLOOMSDAY E A FESTA DA PERIFERIA por Dirce Waltrick do Amarante


Drawing of Leopold Bloom by Joyce


O romance Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, fez 100 anos no dia 2 de fevereiro, dia, aliás, do aniversário de seu autor. O centenário foi festejado ao redor do mundo, e no dia 16 de junho haverá a festa já habitual, o Bloomsday, ou Dia de Bloom, em homenagem a Leopold Bloom, protagonista do romance.

A primeira celebração do Bloomsday aconteceu no dia 16 de junho de 1924, em Paris. Joyce soube da festa enquanto se recuperava de uma cirurgia na vista. O escritor teve a oportunidade de participar de alguns Bloomsdays.


Hoje o Bloomsday se espalhou pelo mundo e muitas vezes o evento acontece ao longo de toda uma semana e até mesmo de um mês.


Quando se fala em Bloomsday sabe-se que é um dia em homenagem a Leopold Bloom, o judeu irlandês, protagonista do romance, mas diria que é possível também pensar também no Bloomsday como o dia da família Bloom; afinal, Molly Bloom é tão importante quanto seu marido Leopold. Milly, a filha do casal, e Rudy, o filho morto, exercem também uma função importante no livro.

Os Blooms formam uma família miscigenada: Leopold é um judeu irlandês, como disse acima, Molly é uma irlandesa com ascendentes espanhóis (talvez uma judia sefardita). Molly é cantora lírica, indo de encontro ao papel reservado à mulher, que nascia para ser bela, recatada e do lar. As artistas, vale lembrar, eram vistas com maus olhos e não consideradas mulheres sérias.

A filha, que vive longe da casa dos pais, é quem carregará o sobrenome Bloom, e não o filho, já morto, que representaria todas as perdas -- Ulisses é um livro também sobre o luto, os diversos tipos de luto.

O fato é que cabe a uma mulher a preservação do sangue e do sobrenome dos Blooms.


Leopold Bloom segue, contudo, em busca de um filho que substitua o seu. Ele sonha em parir e, no seu delírio, dá à luz vários filhos (todos homens): “Ah, eu quero tanto ser mamãe”. E Bloom pare oito filhos: Nasodoro, Goldfinger, Chrysostomos, Maindorée, Silversmile, Silberselber, Vifargent, Panargyros. Eles fundarão sua Bloomusalém, a Irlanda do futuro.

Essa família representa não só a periférica Irlanda, colônia britânica, mas também os judeus, os bodes expiatórios, e outras minorias. Ela representa as minorias contra as quais a sociedade luta. Essas minorias também têm seus preconceitos, Leopold Bloom, por exemplo, considera a sua mulher pouco inteligente e as mulheres incapazes de fundar um novo “reino”. Já Molly despreza a falta de virilidade do marido.

Quanto a Leopold Bloom, além do fato de ser judeu, sua sexualidade é posta em xeque, diz-se que ele é “bissexualmente anormal”, um homem feminino, que precisa ser “domesticado” ou “linchado”.

Joyce foi astuto, se apropriou da língua do colonizador, o inglês, e com ela deu voz e vida àqueles que deveriam se calar. O escritor colocou no centro no mundo a sua Irlanda, aviltada pelo poderoso império britânico, que deixou, por exemplo, seu povo perecer de fome na grande crise das batatas. Falar a língua do colonizador, sendo ela o inglês, tem um alcance enorme, e Joyce sabia disso.


Agora podemos pensar, como diz Gayatri Spivak, que o subalterno pode falar, mas ninguém o quer ouvir. De fato, durante muito tempo, mais se falava sobre Ulisses do que se lia o livro propriamente dito. De modo que se falava pelos Blooms e não se deixava eles falarem.

Foi só nos anos 1970, depois de ouvir a voz dos Blooms, que os primeiros estudos pós-coloniais a respeito da obra de Joyce começaram a ser publicados. Hoje se estuda Joyce e política, Joyce e feminismo, Joyce e periferia... Hoje os Blooms falam e são ouvidos.


Com Ulisses, Joyce não colocou à força a periferia no centro, nem as minorias no papel central, pois, como ele afirma em um ensaio de1898, “toda dominação pela força, se mantida e exercida pela força, serve apenas para esmagar as disposições e aspirações dos homens [...]”.[1] Joyce avança como um marinheiro que não pode vencer as ordens dadas por Éolo, não pode revogar diretamente a sua ordem, mas pode avançar, “mudando de direção, sendo paciente, às vezes usando a força do [próprio] vento [a língua inglesa], às vezes esquivando-se dela, ora avançando, ora retrocedendo, até que as velas inconstantes iniciem um curso correto, e em meio à subsequente calmaria o navio atraque ao cais”.[2]


Tudo isso para dizer que o Bloomsday deveria ser o dia das minorias, das nações periféricas, dos “subalternos” etc. Enfim, o Dia dos Blooms deveria ser também um dia de resistência. Afinal, o judeu irlandês bissexual resistiu, a mulher artista resistiu, a Irlanda resistiu e foi para o centro do mundo.


Nessa festa, a periférica e minoritária (não em termos de números de falantes) língua portuguesa deveria ter um papel de destaque, já que, contando com a nova tradução de Ulisses que será lançada agora em junho pela Ateliê Editoral, teremos seis traduções do romance na língua de Machado de Assis e Camões.


Mas, neste centenário, pelo menos nas matérias que tenho lido e que foram publicadas na Inglaterra, Estados Unidos, Irlanda, todas falantes do inglês, e Suíça (onde se encontra a Fundação James Joyce) etc., não há nenhuma menção a essa proeza. Ninguém do centro, parece-me, teve interesse em citar esse fenômeno tradutório.

A propósito, são periféricos os tradutores de um modo geral; raramente sabemos quem eles são, raramente seus nomes estão nas capas dos livros. No final do ano passado, uma carta aberta foi lançada pelos Autores do Reino Unido exigindo que os nomes dos tradutores constem da capa dos livros. Os tradutores de Joyce, diria, até gozam de certo prestígio e reconhecimento; mesmo assim, quando se trata do centenário de Ulisses, o centro esqueceu de mencionar os tradutores da periferia.


Vamos esperar que um dia as máquinas do Freeman Journal soprem um vento favorável que nos leve para o centro da festa joyciana.

[1] JOYCE, James. De Santos e sábios. Organização: Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante. Tradução: André Cechinel, Caetano Galindo, Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros. São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 15. [2] Ibidem, p. 16.



Dirce Waltrick do Amarante é ensaísta, escritora e tradutora. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina. Traduziu, entre outros, James Joyce, Edward Lear, Leonora Carrington, Gertrude Stein e Eugène Ionesco. Sobre James Joyce, publicou Para ler Finnegans Wake de James Joyce e James Joyce e seus tradutores. É vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa Estudos Joycianos no Brasil. Responsável pelo site "James Joyce's Outsider": https://www.jamesjoycesoutsiders.com.br

26 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo