Jorge Lúcio de Campos

POESIA VOLUME 5 NÚMERO 1


RETROSPECTIVA


É preciso domar

a besta que


revém em nós –

deter o nazi


que se atiça

em nós; frear


o ódio que em

nós espuma –


pede passagem



MEMENTO MORI

a James Albertson


Tempos gaios estes −

que eles não te afetem


Tempos tristes estes −

que eles não te enganem


Tempos nobres estes −

que eles não te aviltem


Tempos sujos estes −

que eles não te adornem


Tempos retos estes −

que eles não te assombrem


Tempos curvos estes −

que eles não te assinem


Tempos fundos estes

que eles não te engulam


Tempos rasos estes

que eles não te escusem


(lembra da morte e

do que te espera)



À SOMBRA DE UM SONHO

a Marc Chagall


Fiquei sem você

em meu sonho


e ele se foi:

misturou-se com


água, correu

pra bem longe


virou outra

coisa, deixou

de ser sonho


Fiquei sem ele

e sem você


Fiquei sem sonhar

e sozinho, pois


de que vale

um sonho


se sonhar

implica


não encontrar

você?


Se sonhar

implica


acordar

sem você?



MOINHO BRANCO

a Günther Uecker


1

Dedos no

espelho


suplicam

um fio


de luz


2

A metade

do que


olham −

sempre


físicos



MANHÃ DE MAR


Por acaso

de repente −


num apuro

meninil −


conversa que

escorrega −


bico aberto

a sotavento −


ostras postas

sobre a mesa −


visco pelo

chão



DOMINÂNCIA DO VERMELHO

a Mikhail Larionov


Entrei na vida

pelo esquadro


de seus olhos


Uma pátina –

um cheiro


leve de abricó


me abrigou

por dentro


Mas quem

querer-me-á


ainda?


Já não tenho

a alma doce


(já não posso

avançar sem ela)


Não conheço

algo tão


complexo



Jorge Lucio de Campos é doutor e pós-doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Professor do Programa de Pós-graduação (Mestrado e Doutorado) da ESDI/UERJ. Publicou, além dos ensaios Do simbólico ao virtual: a representação do espaço em Panofsky e Francastel (1990), A vertigem da maneira: pintura e pós-vanguarda na década de 80 (2002) e A travessia difícil: notas sobre o ético, o técnico e o estético na crise da modernidade (2015), as coletâneas de poemas Arcangelo(1991), Speculum (1993), Belveder (1994), A dor da linguagem (1997), À maneira negra (1998) e Prática do azul (2009).

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