CEM ANOS DE TRILCE, DE CÉSAR VALLEJO, por Antônio Moura



Comemorar os cem anos de Trilce é também para mim celebrar o todo de sua obra e de sua figura de artista, que vai da aventura vanguardista à voz solidária e humanista, mantendo, durante todo este percurso, o compromisso com as múltiplas possiblidades da linguagem, o que o faz um poeta grandioso, pois simultaneamente engajado historicamente, por meio do experimentalismo estético no contexto dos anos vinte do século passado e, posteriormente, politicamente, por seu enfático posicionamento à esquerda, tanto na obra quanto na vida. Em sua trajetória, desde Los heraldos negros (1918), passando por Trilce (1922) – este abismo sonoro no qual nos debruçamos e por mais luzes que tenhamos sempre nos perdemos em suas profundezas –, por Poemas em prosa (póstumo, 1939) até o discurso “mundial,/inter-humano e paroquial, provecto!” de Poemas Humano (póstumo,1939), assim como em Espanha, afasta de mim este cálice (póstumo, 1940) ambos mergulhados, ao mesmo tempo, em desolação e esperança, em todos os seus desdobramentos Vallejo está sempre atento à tensão entre a herança romântica e a aspiração libertadora da linguagem, centro gravitacional de sua poética. Nos cem anos de Trilce, ofereço aqui, mui modestamente, a tradução de sete poemas que pertencem aos vários momentos de sua grande poesia. Alguns até revistos, o que me parece de acordo com uma obra sempre propensa a se renovar para nós a cada nova leitura.



LOS HERALDOS NEGROS


Hay golpes en la vida, tan fuertes … ¡Yo no sé! Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos, la resaca de todo lo sufrido se empozara en el alma… Yo no sé!


Son pocos; pero son… Abren zanjas oscuras en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte. Serán talvez los potros de bárbaros atilas; o los heraldos negros que nos manda la Muerte.


Son las caídas hondas de los Cristos del alma, de alguna fe adorable que el Destino blasfema. Esos golpes sangrientos son las crepitaciones de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.


Y el hombre… Pobre… pobre! Vuelve los ojos, como cuando por sobre el hombro nos llama una palmada; vuelve los ojos locos, y todo lo vivido se empoza, como charco de culpa, en la mirada.


Hay golpes en la vida, tan fuertes… Yo no sé!


(Los heraldoos negros, 1918)



OS ARAUTOS NEGROS


Há golpes na vida, tão fortes… eu não sei! Golpes como do ódio de Deus; como se diante deles, a ressaca de todo o sofrido se empoçasse na alma… eu não sei!


São poucos; mas são… abrem valas escuras no rosto mais fero e no lombo mais forte. Serão talvez os potros de bárbaros atilas; ou os arautos negros que nos manda a Morte.


São as quedas profundas dos Cristos da alma, de alguma fé adorável que o Destino blasfema. Esses golpes sangrentos são as crepitações de algum pão que na porta do forno queima.


E o homem… Pobre…. pobre! Volta os olhos, como quando por sobre o ombro nos chama uma palmada; volta os olhos loucos, e todo o vivido se empoça, como charco de culpa, no olhar.


Há golpes na vida, tão fortes... Eu não sei!




FRAGMENTOS DE TRILCE


XIII Pienso en tu sexo. Simplificado el corazón, pienso en tu sexo, ante el hijar maduro del día. Palpo el botón de dicha, está en sazón. Y muere un sentimiento antiguo degenerado en seso. Pienso en tu sexo, surco más prolífico y armonioso que el vientre de la Sombra, aunque la Muerte concibe y pare de Dios mismo. Oh Conciencia, pienso, sí, en el bruto libre que goza donde quiere, donde puede. Oh, escándalo de miel de los crepúsculos. Oh estruendo mudo. Odumodneurtse!



XIII


Penso em teu sexo.

Simplificado o coração, penso em teu sexo,

ante o filhar maduro do dia.

Toco o botão de felicidade, está maduro.

E morre um sentimento antigo

degenerado em siso.


Penso em teu sexo, sulco mais prolífico

e harmonioso que o ventre da Sombra,

Embora a Morte conceba e dê à luz

do próprio Deus.

Oh Consciência,

penso sim, no bicho livre

que goza onde quer, onde pode.


Oh escândalo de mel dos crepúsculos.

Ó estrondo mudo.


Odumodneurtse!



XXIII


Tahona estuosa de aquellos mis bizcochos pura yema infantil innumerable, madre. Oh tus cuatro gorgas, asombrosamente mal plañidas, madre: tus mendigos. Las dos hermanas últimas, Miguel que ha muerto y yo arrastrando todavía una trenza por cada letra del abecedario. En la sala de arriba nos repartías de mañana, de tarde, de dual estiba, aquellas ricas hostias de tiempo, para que ahora nos sobrasen cáscaras de relojes en flexión de las 24 en punto parados. Madre, y ahora! Ahora, en cuál alvéolo quedaría, en qué retoño capilar, cierta migaja que hoy se me ata al cuello y no quiere pasar. Hoy que hasta tus puros huesos estarán harina que no habrá en qué amasar ¡tierna dulcera de amor, hasta en la cruda sombra, hasta en el gran molar cuya encía late en aquel lácteo hoyuelo que inadvertido lábrase y pulula ¡tú lo viste tánto! en las cerradas manos recién nacidas. Tal la tierra oirá en tu silenciar, cómo nos van cobrando todos el alquiler del mundo donde nos dejas y el valor de aquel pan inacabable. Y nos lo cobran, cuando, siendo nosotros pequeños entonces, como tú verías, no se lo podíamos haber arrebatado a nadie; cuando tú nos lo diste, ¿di, mamá?



XXIII


Padaria estuante daqueles meus biscoitos

pura gema infantil inumerável, mãe.


Oh seus quatro gorgas, assombrosamente

mal mondadas, mãe: teus mendigos.

As duas últimas irmãs, Miguel, que morreu

e eu ainda cortando

um dobrado para cada letra do alfabeto.


Na sala de cima nos repartias

de manhã, de tarde, dupla estiva,

aquelas ricas hostias de tempo, para

que agora nos sobrassem

cascas de relógios às 00h00

em ponto parados.


Mãe, e agora! Agora, em que alvéolo

permaneceria, em que broto capilar,

certa migalha que hoje está entalada em minha garganta

e não quer descer. Hoje que até

teus puros ossos serão farinha

que não haverá em que amassar,

terna doceira de amor,

Até a crua sombra, até o grande molar

cuja gengiva pulsa naquela covinha de leite

que inadvertida lavra e pulula, que tu tanto viste!

nas fechadas mãos recém-nascidas.


Tal a terra ouvirá em teu silêncio,

como todos vão nos cobrando

o aluguel do mundo onde nos deixas

e o valor desse pão sem fim.

E eles nos cobram, quando, sendo nós

pequenos então, como tu verias,

que não poderíamos ter arrebatado

a ninguém; quando tu nos deste,

diz, mamãe?



XLV


Me desvinculo del mar cuando vienen las aguas a mi. Salgamos siempre. Saboreemos la canción estupenda, la canción dicha por los labios inferiores del deseo. Oh prodigiosa doncellez. Pasa la brisa sin sal. A lo lejos husmeo los tuétanos oyendo el tanteo profundo, a la caza de teclas de resaca. Y si así diéramos las narices en el absurdo, nos cubriremos con el oro de no tener nada, y empollaremos el ala aún no nacida de la noche, hermana de esta ala huérfana del día, que a fuerza de ser una ya no es ala.



XLV


Me desvinculo do mar

quando as águas vêm a mim.


Sempre saímos. Saboreemos

a canção estupenda, a canção dita

po rlábios inferiores do desejo.

Ó prodigiosa mocidade.

Passa a brisa sem sal.


Ao longe farejo os tutanos

ouvindo o tatear profundo, à caça

de claves de ressaca.


E assim dando com os narizes

no absurdo,

nos cobriremos com o ouro de não ter nada,

e chocaremos a asa ainda não nascida

da noite, irmã

desta asa órfã do dia,

que à força de ser uma já não é asa.



(Trilce, 1922)





César Vallejo (1893-1938), poeta peruano de origem indígena. Viveu na França a partir de 1923. Sua obra, de acentuada experimentação estética, abordou temas sociais e políticos de seu tempo, como a guerra civil espanhola. Publicou, entre outros títulos, Os arautos negros (1918), Trilce (1922) e Poemas humanos (1939).

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