Artifícios da ficção: diálogo com Borges por César Geraldo Guimarães e Venus Brasileira Couy

ENSAIO VOLUME 5 NÚMERO 2



No conto borgeano “A morte e a bússola” (BORGES, 1982, p. 113-126) uma série de crimes e, sobretudo, o da quinta Triste-le-Roy torna-se alvo das atenções de dois personagens: Erik Lönnrot e Treviranus. Lönnrot julgava-se um puro raciocinador, um expert das decifrações, o comissário Treviranus, por sua vez, interessava-se pelas circunstâncias e fatos. O primeiro crime ocorreu no Hotel du Nord, onde um herisiólogo — Marcelo Yarmolinsky — foi assassinado. No crime, Lönnrot deteve-se mais nas obras completas do morto do que nos acontecimentos. Os volumes que despertaram a curiosidade do detetive foram: Vindicação da cabala, Interpretação da filosofia, de Robert Fludd, uma tradução literal do Sepher Yezerah, Biografia do Baal Shem, História da seita dos Hasidim, uma monografia em alemão sobre Tetragamaton e outra sobre a nomenclatura do Pentateuco. Atento para os livros do rabino, Lönnrot se pôs a estudá-los, acreditava que talvez aquele crime pertencesse à história das superstições judaicas. Um curioso dado do crime veio reavivar ainda mais as suspeitas — um dos agentes tinha encontrado na máquina de escrever do morto uma folha de papel com a sentença: “a primeira letra do nome foi articulada”.


O segundo crime ocorreu na noite de três de janeiro em uma tinturaria. O morto era Daniel Simão Azevedo, homem que tinha certo privilégio. Junto a ele foi encontrada a sentença: “a segunda letra do nome foi articulada”. O terceiro crime ocorreu na noite de três de fevereiro numa taverna da Rue de Toulon. O morto não fora encontrado, apenas algumas manchas de sangue no quarto. Mais tarde Treviranus encontrou no local um livro em latim — O phillologus hebraeograeeus — de Leusden, com várias notas manuscritas e do lado de fora da Taverna numa das ardósias do beiral, a sentença: “a última das letras do nome foi articulada”.


Um novo acontecimento, contudo, veio alterar os episódios do caso. Na noite de primeiro de março, Treviranus recebeu um envelope lacrado que continha uma carta assinada por Baruj Spinoza. Os dizeres da carta revelavam que não haveria um quarto crime, pois a tinturaria do oeste, a taverna da Rue de Toulon e o Hotel du Nord formavam vértices perfeitos de um triângulo equilátero. Treviranus leu com atenção o “more geométrico” e enviou a carta a Lönnrot, que se pôs a estudá-la. Concluiu, então, que os três lugares eram equidistantes. Simetria no tempo (3 de dezembro, 3 de janeiro, 3 de fevereiro) e simetria no espaço. Um compasso e uma bússola o ajudaram a completar sua intuição. Pronunciou a palavra grega Tetragamaton e concluiu que a explicação dos crimes estava num triângulo anônimo e numa palavra grega.


A partir de então Lönnrot decidiu-se a investigar a quinta Triste-le-Roy. Chegando até lá explorou atentamente a casa, andou pelos corredores e galerias e foi ao mirante onde reconheceu um homem que lhe era familiar. Tratava-se de Red Scharlach, o mais ilustre dos pistoleiros do Sul. Lönnrot havia prendido o seu irmão há algum tempo e Scharlach queria vingança. Havia tramado tudo: todas as referências rabínicas, todos os locais, todas as mortes, todas as pistas e as sentenças para atrair Lönnrot ao centro do labirinto — onde a morte o esperava.


Em “Os labirintos policiais de Chesterton”, Borges aponta que o conto policial concebido como resolução racional de um enigma “rejeita com igual desdém os riscos físicos e a justiça distribuída”. Desta forma, “A morte e a bússola” poderia ser enquadrado nessa espécie de contos, se não fosse a conjunção na figura do detetive Erik Lönnrot de dois investigadores de épocas muito diferentes: Baruj Spinoza e Auguste Dupin. Essa conjunção inusitada, aliando a investigação racional do detetive com a investigação dos textos judaicos, levará a um defecho que tornará ainda mais incrédulo o leitor de histórias policiais. O puro raciocinador, o detetive Erik Lönnrot, pouco reverente diante dos fatos e mais atento ao “more geométrico” das hipóteses, não foi capaz de conjurar a participação do acaso: acreditava que a lógica rigorosa das hipóteses bastava para desembaraçar as tramadas pistas e conduzi-lo ao centro do labirinto, ao encontro com o assassino. No entanto, a lógica dos labirintos (seu sistema de defesa), ao mesmo tempo em que se deixa perseguir por aquele que procura seu centro, também o persegue, invisível, onipresente. Há um logos invisível detrás dos corredores que se repetem indefinidamente.


Encarnando a figura do pensador-judeu Spinoza, para quem o mundo é passível de uma interpretação racional, Lönnrot acreditava demais na explicação rabínica dos fatos. Como o perfeito triângulo equilátero das três mortes, a decifração dos crimes também parecia perfeita. Na seita dos Hasidim (judeus pretistas), havia-se cometido três assassinatos punindo àqueles que ousavam decifrar o nome secreto de Deus: a morte acompanhava cada letra articulada (articulada, o que dá a noção de oral, e não de escrita), visto que Deus não se deixa escrever, ser traduzido em letra, duplicado na escrita. Como o Minotauro e como Red Scharlach, Deus tem horror em ver seu rosto multiplicado. A letra é o que garante a singularidade absoluta. Deus é um nome sem letras, inalcançável. Duplicá-lo significa deter o poder da criação. O Sepher Yetsirah (O livro da criação) afirma que Jeová criou o universo a partir dos números cardinais de um a dez e as vinte e duas letras do alfabeto. Nesse livro, atribui-se ao patriarca Abraão os mesmos poderes atribuídos a Deus. Esta criação seria feita através da permuta das letras do alfabeto hebraico constituindo um conhecimento secreto acerca do próprio cerne da criação humana.


Quem detém as letras, detém o poder de elaborar criaturas artificiais, imperfeitas e precárias como o Golem, espécie de clone ou androide, simulacro do homem. A palavra Golem é uma palavra hebraica, aparece apenas uma vez na Bíblia (Salmos 139:16) e significa algo sem forma e imperfeito. Uma das lendas mais famosas sobre o Golem surge ligada ao nome do Rabi Elias Baal-Shem. Ele era um rabi da cidade de Chein e morreu em 1583. Baal-Shem significa literalmente o senhor do nome de Deus. Entre os livros de Yarmolinsky, Lönnrot encontrou uma Biografia de Baal-Shem bem como uma História da seita dos hasidim — judeus alemães que nos séculos 12 e 13 propuseram a ideia de criação do Golem.


Na verdade, anuncia-se que as letras foram pronunciadas, mas elas não aparecem registradas, escritas. Deus não se deixa codificar. No Êxodo, III, 15, Deus afirma a Moisés que YHWH é seu nome para a eternidade. Como o vocábulo “retorno” possui a mesma raiz consonantal da palavra “esconder”, a cabala afirma que o nome de Deus deve permanecer secreto para sempre.


Lönnrot é o que tem ganas de interpretar: não se contenta com os noventa e nove nomes de Deus, busca o Nome absoluto e não apenas o nome do criminoso. Por não compartilhar com os hebraístas, o “temor mágico das cifras pares”, ao decifrar a quarta morte, Lönnrot encontrará no centro do labirinto uma divindade monstruosa, um simulacro mais vingativo que o Deus do antigo testamento.


As cifras pares o conduziram até ali. Ao acreditar piamente no “more geométrico” das hipóteses, duplo perfeito e racional do mistério da realidade, Lönnrot estava preso no espelhismo dos labirintos. Não era mais possível decifrar os fatos à procura do lado verdadeiro. Tudo já era falso, falsificável, desde o início. O artifício da lógica não consegue vencer o artifício tramado pelo logos invisível que lhe armou uma ficção mortal. O artifício da decifração (no sentido matemático, de processo usado para resolver um teorema) foi o mesmo que serviu a Red Scharlach para aprisioná-lo e matá-lo. Cumpriu-se a maldição divina: “o espírito vivifica, a letra mata”. A letra, o artificial, o duplo que ameaça a singularidade do único, a ficção que engloba o real: as cifras pares matam. Talvez se tivesse sido menos raciocionador e mais temeroso, Lönnrot não veria a “face terrível de Deus”.


Lönnrot é crédulo demais: faltou-lhe ler o texto mais de perto, aproximar-se mais da letra. Isso significa ler a cena do crime literalmente, isto é, como um espetáculo, uma encenação de identidades e fatos. Assim, segue o caminho traçado por aquele que o aguarda no centro do labirinto. As pistas são sempre inscrições: as frases escritas a giz ou pichadas na parede, a passagem sublinhada do Philologus hebraeograeeus, a carta com pseudônimo — que Lönnrot não lê como falso — de Spinoza, o triângulo equilátero e místico.


Somente a caminho da quinta Triste-le-Roy que Lönnrot se interessa pelas “simples circunstâncias, a realidade”. Ele não suspeita de seu raciocínio de lógica infalível: seus instrumentos, o compasso e a bússola, funcionam como o fio de Ariadne — chegar ao centro do labirinto sem se perder. Mas a duplicação não tem fim: a interpretação de Lönnrot, (o triângulo anônimo e uma palavra grega, Tetragramaton), é ela mesma um duplo diante de outro duplo, a realidade encenada pelo Deus do labirinto.


Não há como decifrar o mistério, destruir o duplo: a quinta de Triste-le-Roy é infinita e crescente, dominada pela simetria, as duas estátuas de Diana, as duplas escadas e escalinatas, o Hermes bifronte e a “sombra monstruosa”. Lönnrot estava preso no labirinto. Desde o início fora o perseguido e não o perseguidor. O Deus do labirinto o espreitava e o atraía através de sinais, ele só podia manifestar-se por meio deles: como os losangos que aparecem no segundo crime, na roupa dos arlequins, no sequestro de Gryphius, nas janelas da quinta. Afinal, o NOME de DEUS só existe nos simulacros. As letras corporificadas levam à morte.


No universo de simulacros, os duplos se perseguem, a repetição é intolerável. De um lado, Lönnrot decifra crimes livrescos que formam contatos escritos (ele era um leitor dos policiais de Dupin) e torna-se um personagem manipulado pelo Deus-ficcionista do centro do labirinto. Acreditando-se um leitor seguro pela perspicácia de seu raciocínio, Lönnrot crê na leitura como o fio de Ariadne, quando é apenas um Golem governado pelas palavras, pelas inscrições, pelas simulações armadas por Red Scharlach, ele próprio investido de poderes demiúrgicos. Entretanto, mesmo Red Scharlach é assombrado pelo duplo, porque também se vê enredado no labirinto: “cheguei a abominar meu corpo. Cheguei a sentir que dois olhos, duas mãos, dois pulmões, são tão monstruosos como duas caras” (BORGES, 1982, p. 123).


A perseguição dos duplos, confronto entre herói e bandido, é uma cena que se repete infinitamente. Red Scharlach duplica a ficção de que faz parte. Parodiando Deus, assume o centro do labirinto e cria o real a partir do artificial, dos artifícios da ficção. O labirinto estende seus corredores sobre o real, a literatura transforma-se enquanto duplo de papel, em armadilha mortífera.


A letra mata, a biblioteca usurpa o lugar do mundo, falsifica Deus. Ao fazer coincidir a interpretação com aquilo que não se deixa interpretar, descobre-se a quarta morte na letra corporificada. Tal como o Golem, que traz na testa a palavra EMETH. Basta apagar o SHEM, o nome, apagar a letra E inicial, e tem-se a morte, METH. É o crime original ao pé da letra.


Nota: Uma versão ampliada deste texto intitulada “O perseguidor de nomes” foi publicada no Suplemento literário de Minas Gerias, Belo Horizonte, n. 1138, p. 6-7, em 20 de janeiro de 1990. O ensaio “Artifícios da ficção: diálogo com Borges” foi revisto e modificado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


AIZEMBERG, Edna. El tejedor del Aleph - Biblia, kabala e judaísmo en Borges. Madrid: Altalena, 1986.

BORGES, Jorge Luis. A morte e a bússola. In: __. Ficções. Trad. Carlos Nejar. 3. ed. Porto Alegre/Rio de Janeiro: Globo, 1982. p. 113-126.

BORGES, Jorge Luis. Los laberintos policiales y Chesterton. In: MONEGAL, Emir. Borges por el mismo. Barcelona: Laia, 1984. p. 135-38.

FIGUEIREDO, Vera Lucia Follain. O assassino é o leitor. Matraga – Revista do Instituto de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, UERJ, v. II, n. 4-5, p. 21-26, jan-ago. 1988.

PIGLIA, Ricardo. O labirinto do escritor. Trad. Josely Vianna Batista. São Paulo: Iluminuras, 1994.

SOUZA, Eneida Maria de. O século de Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

TODOROV, Tzvetan. Tipologia do romance policial. In: As estruturas narrativas. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 93-115. (Coleção Debates, 14).



César Geraldo Guimarães é doutor em Literatura Comparada (UFMG). Professor de Teoria da Imagem do curso de Comunicação Social da UFMG. Publicou, entre outras obras, Imagens da memória: entre o legível e o visível (Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1997).


Venus Brasileira Couy é doutora em Teoria da Literatura (UFRJ). Ensaísta e poeta, publicou, entre outros livros, Mural dos nomes impróprios: ensaio sobre grafito de banheiro (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005) e Inverno de baunilha (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004).

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