A morte de Tânia Radek por Rita Coitinho






Há um grupo de insetos presente em todo o planeta cujo tempo de vida adulta é de vinte e quatro horas. São os efemerópteros. Com suas asas transparentes, voam em busca de um parceiro, deixam seus ovos e morrem. Comparada à efêmera vida desses pequenos insetos, a existência humana é longa. Esta, no entanto, frente à idade das estrelas, não passa de um raio de luz. Mas há vidas humanas cuja duração é suficiente para uma experimentação satisfatória. Alguns indivíduos são capazes de imprimir sua marca em nossa memória, por força de seus feitos, prolongando sua existência além da vida. A maioria das vidas humanas, porém, sequer tem a chance de empenhar-se na busca da imortalidade da memória, pois têm suas existências subsumidas no turbilhão das engrenagens sociais e comem, dormem, despertam e amam conforme os usos de sua época ou de acordo com os usos que a época lhes destina. Essa é, aliás, a regra. Humanos são também efemerópteros, empurrados pelo ritmo da natureza e das forças sociais, do nascimento até a morte. Assim viveu e morreu Tânia Radek. Uma existência efêmera, como tantas outras e como é a desta que escreve. Dela tenho notícias não por sua obra ou por algo que a destaque em meio à revoada de seres humanos que vaga pelo planeta em nossos dias, mas por essas coincidências que se atravessam em nosso caminho e que moldam, sem que tenhamos condições de interferir, o fluxo de nossas vidas. Tânia foi, por mais de dez anos, minha colega de sala na repartição pública. Compartilhávamos o vidro de biscoitos, a conta do pó de café e comentários sobre o cotidiano e o trabalho. Nessa convivência eu soube que ela não gostava de lugares fechados. Nunca entrava em um elevador. Embora pareça irrelevante, essa informação acerca da claustrofobia de Tânia será importante para o desfecho de sua breve existência. Antes, é preciso rememorar os acontecimentos provocados por gente do tipo que teima em deixar marcas. Alguns o fazem por seu brilhantismo. Outros não têm nada a oferecer, mas são lembrados pelo horror.


Não sou estudiosa dos fenômenos da mente, mas estou convencida de que se tratou de uma patologia coletiva o fervor que, de um ano para o outro, levou a uma tal situação de frenesi político que setenta e um por cento dos eleitores elegeu presidente um candidato bizarro, vil, mal vestido e autoritário, cercado de fanáticos. O novo governo declarava-se “adversário das luzes”, pois todo esclarecimento é ilusório, turva a moral e afasta os homens de Deus. A perseguição que se seguiu à eleição levou ao abandono completo das universidades e centros de pesquisa. Os poucos cientistas renitentes foram perseguidos pela massa em transe. Os museus foram apinhados de obras sacras, queimou-se a arte considerada herética. Cinemas e teatros foram fechados. No mundo das artes, o medievo ascendeu como tendência estética irresistível. Em pouco mais de cinco anos do novo Governo Supremo, estavam instituídas as fogueiras para livros, obras de arte e indivíduos desviantes. Foi escrita uma nova constituição e tribunais televisionados ocupados por religiosos animavam o povo com julgamentos em tempo real que quase sempre terminavam com sentença condenatória. A carta magna instituía um quarto poder: o da cúpula religiosa.

Logo notamos o desaparecimento de alguns colegas da repartição. O primeiro foi o Oliveira, do sindicato. Depois Maria Antônia, do protocolo, que era atriz nas horas de folga. Já Tânia e eu nos adaptávamos aos novos tempos e acatávamos as ordens. Levávamos nossas vidas como observadoras e sentíamo-nos seguras, pois éramos invisíveis. No oitavo ano do novo regime as coisas entraram em um novo patamar. Novos decretos tratavam das vestimentas da população. Estavam proibidas as roupas curtas, as blusas deveriam ter gola até a altura do queixo, as mangas deviam abotoar-se nos punhos, as calças deveriam ser largas e compridas. Estavam banidas as cores heréticas: vermelho, amarelo, rosa, verde, azul, laranja e violeta. Somente o preto e o cinza escuro estavam autorizados. O fervor popular favorável às novas medidas morais levou ao incêndio das coleções de moda. Grandes fogueiras espalharam-se pelas cidades e cerca de cinquenta modistas que planejavam um manifesto foram condenados à prisão. Pela primeira vez em muitos anos ouvi uma queixa de Tânia: sentia-se sufocada com aquelas golas. No décimo ano, veio o decreto fatal. Para comemorar uma década de combate às luzes, o governo determinava o aumento das golas: deveriam cobrir completamente o rosto, até a testa. Era permitida apenas uma leve transparência na área dos olhos. A justificativa era que somente o Criador era digno de contemplação. Impunha-se ainda um toque de recolher, das dez da noite às seis da manhã, e uma prece pública, transmitida por aparelhos de som espalhados nas cidades, deveria preencher o caminho dos cidadãos até o trabalho. Estavam proibidas as músicas não religiosas e os fones de ouvido.


No dia marcado para a entrada em vigor do novo traje obrigatório, Tânia não apareceu no escritório. Saí a sua procura, pois ela vivia só, tendo apenas um gato como companhia. Imaginei que estivesse enferma. Depois de alguns dias apurei que fora vista saindo da sua casa de manhã, no horário de sempre. As câmeras de vigilância das ruas flagraram sua corrida em meio à multidão de golas pretas. Seus movimentos evidenciavam pavor. Desviava de toda gente e, aos gritos, atravessou uma avenida movimentada, causando um engavetamento de carros. Fecho meus olhos e consigo imaginar o pavor de Tânia. Vejo a multidão de golas à sua volta, verdadeiros seres sem rosto, os murmúrios, a prece nos alto-falantes, o zunir dos carros. Ouço seus gritos e sinto sua desorientação. Desfaleceu em meio à confusão. Foi recolhida sem vida e descartada em um incinerador público. Adotei seu velho gato. Está ao meu lado enquanto redijo essa pequena memória, minha revolta particular contra o esquecimento. A invisibilidade não manteve Tânia Radek a salvo do horror e da escuridão. Todos os dias perecem outras Tânias, efemerópteros surpreendidos pela chuva. O regime não nos teme, e cedo ou tarde atinge a todos. Ninguém contabiliza nossas efêmeras vidas. Enquanto escrevo, acompanho as notícias na rádio clandestina, deixei de ser indiferente. O regime está caindo. Tenta manter-se, feroz, mas será derrotado. Haverá luzes no futuro.



Rita Coitinho é socióloga, escritora e tradutora. É mestra em Sociologia (UnB) e doutora em Geografia (UFSC). Escreve mais frequentemente sobre relações internacionais, América Latina e pensamento social brasileiro e latino-americano. Autora de artigos, ensaios, capítulos de livros, contos e do livro Entre duas Américas: EUA ou América Latina? Publicado pela Editora Insular, 2019.

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