9 poemas de André Dick




PLEONASMO

Para Elisandra Misturini


O pleonasmo é reativo

O verdadeiro está vivo

O pronome oblíquo

O dentro fora, o fora dentro

O cérebro pensamento

O pleonasmo sem freio

O sufixo sem prefixo

O cheiro da grama

Uma pessoa humana

A verdade verdadeira

A primavera na flor colhida por inteira

A flor no desfolhar da palavra

A arara viva virá na asa da gralha lírica

A página da página se pagina

No riso da risada que se ri na asa parada

O voo que mergulha na água molhada

E a folha folheada, paginada

Numa praia não visitada


E se sobe para cima

E se desce para baixo

E o guindaste movimenta a cidade

A cidade e o sol lava a alma

E uma salva de palmas

Um tijolo sobre o outro

Um carro sobre outro carro

Seguido em frente o trem

Ou voltando pra trás mais além

Recua no recuo até recuar

E recua muito bem

Muito ontem ou depois de antes

Um pleonasmo redundante

Uma salva de páginas

Uma caixa de palavras

Uma viagem de jornadas

Um mundo todo que manda

Às favas o nada




ÁGUA


Um pardal

Bebendo água

No nascedouro


Uma árvore

Um ipê

Tomando pela raiz

Um pouco de soro


Um riacho

Um rio um afluente

Para todos os lados


Vai cair

Como uma queda-d’água

Um estouro


Vai sentir

A água vai cair

Por todos


Como uma catarata

Do Niágara

No bebedouro




DIREÇÃO


Eu vou voltar pro lugar que fica onde Eu vou chegar e sei quando Eu estou com alguém ao telefone Eu estou parado, mas sigo andando Eu vou pisar no acelerador do carro Eu vou brecar antes de começar a subida Eu vou ver o foguete ir pro espaço Eu vou chamar esta casa de vida Eu vou ser chamado pelo sobrenome Eu vou me alegrar, mas reclamando Eu vou escrever de novo meu nome Eu vou sentir a flor perfumando Eu vou ouvir o vento vindo Eu vou olhar o céu Eu vou seguir aquele caminho Eu vou escrever tudo no papel Eu vou sorrir depois de passar Eu vou sentir o sol chegar de manhã Eu vou pensar antes de olhar Eu vou vestir um blusão de lã Eu vou andar pela rua isolada Eu vou sentir o sol aquecer os cílios Eu vou ver o sol de madrugada Eu vou ver o universo e todo seu brilho



BORBOLETA

A parte que me cabia

A parte que me faltava

No ar da palavra

E o que saía do casulo

Entre as plantas

Que agora crescia

E antes era larva

Não me confundia

Ela agora bate as asas

Com está no ar parada

A brisa que o vento respirava

Não caber mais onde estava

O casulo reprisava o ar

De volta ao casulo antes da larva

Era uma pedra de cores no ar

Era parte da brisa

A parte que se descobria

Era uma chuva contra o vento

Era uma cor que voava

Guardada dentro de casa




DEPOIS DE AGORA


Desde ontem Ainda hoje Portanto agora Muito embora O homem esteja aqui Ainda hoje Desde ontem Hoje e ontem Ou depois de agora Esteja lá fora O amor de outrora A paixão ao sol Que a chuva não evapora Esteja transpirando Com todos os poros Que a pele aflora Com toda a água Que a lágrima chora E com toda a alegria Que a pele recorda E a vida não solta Com as mãos segura Até o relógio ter corda Até o canto do pássaro Soar como banda sonora Tudo entrar em movimento A cidade e todos os edifícios Na memória




SISTEMA SOLAR


Todas as direções no mesmo caminho Todos os perfumes na mesma flor Todos os pássaros num mesmo ninho Todos os verões no mesmo calor Todas as cores na mesma pétala Todas as tempestades no mesmo vento Toda a dureza numa mesma pedra Todas as horas ao mesmo tempo Todos os planetas do sistema solar Todos os lugares vistos da mesma distância Todos os oceanos no mesmo mar Todos os doces na mesma infância Todos, todos, todos os sinais vitais Todo o amor pelos mesmos pais




AROMA


O móvel é um pouco cubista

e o rosto contra a claridade

do que fica à vista

se enche de vida


O aroma do perfume

de algum lugar da oceania

se espalha nos cômodos

por onde entra a brisa


e o ar que se espalha

a luz que entra

por uma fresta

o vento que ventila


O olhar verde

que faz parte da tarde

sopra as nuvens

e traz o dia




NOVA ESTAÇÃO


No bico – exato – do pássaro pousado na grade entre as rosas.

No ladrilho das horas – elas pedem por água e quem as acolhe durante o verão.


A queda – geada – das mais novas, o orvalho – das experimentadas. No bico do pássaro – exato – quando o céu queima, quem o socorre agora?


Do frio em demasia, do calor na chuva, do canteiro de repente – a luz mais intensa aflora.




LUZ

(20/08)


uma luz

aniversaria

planta

pétala

pele

sorriso

olhar

vértebra

cor

aquarela

quadro

janela

vida

célula

dia de sol

filme na tela

orvalho pela manhã

nuvem

água que molha

de dia estreia

confecção de vela

folha lisa

brisa

semente na terra

sol que estrela

clarão

ideia

ela




André Dick nasceu em Porto Alegre (RS), em 1976. É poeta, crítico literário e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com tese sobre a obra completa de Stéphane Mallarmé. Publicou os livros de poesia Grafias (Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2002), Papéis de parede (Belo Horizonte: Funalfa Edições; Rio de Janeiro: 7Letras, 2004) e Calendário (Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2010), assim como a coletânea de traduções Poesias de Mallarmé (Bauru: Lumme Editor, 2010). Também organizou Signâncias: reflexões sobre Haroldo de Campos (São Paulo: Risco Editorial, 2010) e A linha que nunca termina: pensando Paulo Leminski (Rio de Janeiro: Lamparina, 2005), este com Fabiano Calixto. Publica críticas de filmes no Cinematographe. Estes poemas fazem parte do livro Neste momento (Kotter Editorial, no prelo).

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