7 poemas de Ângela Vieira Campos




BICHO GEOGRÁFICO


Sobre a pele, suas escamas

no tabuleiro de damas

risca o risco de ser bicho

leva o rastro no tablado

lança um traço nos braços

uma lâmina migrans

Parasita?

O que a terra trouxe

deslizando no sangue de terra

desenhando suas linhas

ou mapa do corpo no solo.

Bicho que a jornada inicia

adentrando cava e aorta

a epiderme explosiva em larvas.

Germens, migrando

sempre à espreita.

a larva fêmea

imperceptível

larva de barro e túneis

ser feminino nas mãos que escrevem

BICHO




FAUNA


Mulheres que correm com os lobos

mulheres que nadam com os botos

mulheres que dançam com serpentes

mulheres que alçam voo de repente

mulheres que caçam suas presas

mulheres que criam as crias de outras

mulheres que procriam

mulheres que ferem com aguilhão

da arraia ou do escorpião

mulheres que queimam com as lagartas

mulheres que enfeitam como matriarcas

e beijam com os colibris.

mulheres mansas em manadas

mulheres vacas sagradas

mulheres búfalas,

mulheres bisontes

atravessam os montes,

os belos horizontes

mulheres submersas com os crocodilos

olhos às avessas a refletirem o próprio [rio

mulheres feras

mulheres amigas

a carregarem suas casas

caracóis ou formigas

mulheres abelhas vespas marimbondos

mulheres que polinizam que fazem florir

mulheres melífluas em fluxo em devir

mulheres orcas, belugas, jubarte

as que livres, nos oceanos,

dão um show à parte.

mulheres com olhos de égua,

pelos de ursa

e galope de antílopes

mulheres a trotar a esmo,

a resfolegar no ermo,

livres do medo

da proscrição,

do degredo.




SATÉLITE


Desliza inteira a sereia

Selene de prata e carne,

a deusa

seus cabelos algas filamentos

plânctons

ondulam a seda d’água

a Lua repousa em peixes

ao penetrar sua casa líquida.

Desliza, esmeralda latente

pulsar de olhos verdes

anfíbia de pele e pálpebra

cauda e seios e cílios

divina Selene,

astro em flor

beija a face da Terra

onde se encerra.

.

Guelras-diamantes

reflexo de mil prismas

noite de luz

imersa no azul

agora escurece

tece o dia

e destece

em eclipse.




OVERDOSE


Como se quebrasse o silêncio, o grito,

grito sem nunca ser ouvido

nas veias arroxeadas

no boi abatido

nas feridas estancadas

nas seringas

nas overdoses

dos hospitais

fico enquanto respiro

alerta ao primeiro estampido

do carro bomba inimigo

por entre as bocas banguelas

das bocas de fumo

dos cheiros viadutos

desapareço

sob meus nervos

nos remédios diários

quando engasgo

com a morfina

quando tudo termina

num corpo frágil.




CÂNTICOS


Na luz,

pela janela aberta

poucos rostos

olho no olho

dos passantes.

Mira as suas mãos

gastas, magras, atadas

nas cenas diárias

excruciante diálogo

com o não.

Na luz, uma cidade

abre sua arena

no céu, a lua plena

e os semáforos

colorem minhas telas.

Pela luz, vejo sombras

amordaçadas

um corpo quebrado

perfurado e vazado

de um a outro lado.

Hiato

Demônios vigiam o lúmen

seus cânticos se erguem

às esferas das estrelas

com fúria

tirania

vileza

demônios vagam nos templos

portam a luz

por onde os vejo.




EPIDAURO


O amado trouxe-me rosas

encobriu minhas vestes

fez tecidos de pétalas

sobre minha pele.

Meu amado e seu cálice de odores e bálsamos,

a banhar-me com seu amor,

a tocar meu corpo ferido de morte.

Meu amado e suas serpes

ouro de outras eras,

escamas reluzindo

metamorfose:

bebo o elixir e existo.

Seus animais deslizam

divinizam seus matizes.

Sou a serpente adormecida

Kundalini de mim mesma

pessoa e peçonha

antídoto e destino.




Quietude


Lançou no ar

punhados de granizo

toque de brisa

caiu o dente de leão.

Há relvas que cantam

(pios e grilos)

passos que vêm e vão.

Ao som dos sinos,

grandes orelhas

suas mãos em mudra

sua voz emudecida.

Seus olhos se refletiram

no chá vespertino

entregues à própria ausência

Os chinelos de bambu

os sons do riacho

as folhas fumegavam.

Tudo mínimo

ventos nos campos de arroz

tigela e bastão.





Ângela Vieira Campos é geminiana com ascendente em Sagitário, ar e fogo. Terapeuta holística, Mestre em Reiki, professora e pesquisadora da área de Literatura do Departamento de Linguagem e Tecnologia (DELTEC), no CEFETMG. Publicou os livros “Sendas no silêncio” (MUNAP), “Teatro das sombras” (Scriptum), “Lonlyness” e “Canção dos corpos” (online). Sempre busca, vislumbrar, com a arte poética, a dimensão daquilo que O. Paz denomina de Otredad.

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