6 poemas de Lourença Lou




À HORA EM QUE AS SOMBRAS DESCEM


em meio à obscenidade das cruzes

um olho se arregala


do azul nascem pássaros

a tangenciar voos partidos


crianças saltam do sono

para a mira de fuzis


mulheres tecem toucas

para bonecas sem cabeças


tiros sangue sirenes

escorrem entre dedos cruzados


vida exaurida de desânimos

soluça entre vazios e procissões


aos ouvidos da noite

resta o grasnar do corvo de poe.




O GRITO


calçadas de ossos

rasgam debilidade dos pés


morcegos perfuram olhos

com suas asas de amianto


na cama amontoam-se

títulos cores tamanhos


sapatos sobre livros

mutilam as misérias em prosa

e versos de poetas malditos


homens gritam indignação

apontam manchetes

de abusos vícios violências


filhos mães mulheres

seguem silêncios em procissão

desmentem em close up

roxos a trincar rostos


rua se afunila em entulhos

encimados pelo grito de munch


clarão explode nos ouvidos


sol atravessa manhã

acorda acidez da realidade.




DIAS DESERTOS DE PAZ


fogo lambe sangue

cai sobre sentidos

dedos tocam medo

choros molham sol

ameaça invisível


não há luz


há cruzes

em peitos cansados

mulheres confinadas

fronteiras

dias desertos de paz


não consigo respirar

:

o oxigênio está sumindo

sob pele negra

na agonia do pantanal

sobre camas de hospitais


não há flor entre pedras


há desafio

na toxidade das sombras

do que já envelheceu


há silêncios

à espera de violinos.




PERIFÉRICOS


fogos atraídos

pelos estalos da pedra

raios a rabiscar

a mendicidade da rua


vidas a vomitar

enxurradas de delírios

na escuridão

dos estômagos vazios


procissão de mortos vivos

carne rasgada

a percorrer noites em círculos.




MANCHEETE QUE SE REPETE


andava lenta atenta

ao filho que viria

aos envelhecidos passos

amparados em seus braços


andava e sorria

atenta à finitude da tarde

à ausência de alma de pássaros

atenta às cicatrizes dos dias

não entendeu os poros

a se fecharem na pele

redemoinhos no ventre

cheiro de olhos escondidos

arrepios

desatenta ela caiu

tiro tangente de fuzil

encontrou peito filho planos


outra bala

que de perdida

apenas vida que nela se perdeu.




PASSOS


o homem caminha

olhos alaranjados de finais


em seus sentidos mutilados

horizontes

escorrem espessos

como se os anéis de saturno

se alinhassem

confusos

aos últimos raios de sol


no cansaço dos pés

tentativa

de se unir ao universo


nos bolsos

mãos medos silêncios

se enlaçam esmaecidos

e preparam as cores

de outros e novos passos.




Lourença Lou é mineira de Belo Horizonte, professora e administradora. Publicou três livros de poesia pela Ed. Penalux e um de contos pela Arribaçã Editora. Participou de inúmeras coletâneas de poesia e de contos, revistas literárias, sites de crônicas e suplementos literários de jornais. Escreve porque esta é sua forma de dar vida aos seus silêncios.

Contato: loulourença@gmail.com/ /www.facebook.com/loulourenca

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